A Política na Pólis


Nem Amiga, Nem Inimiga: A Justa Distância

Sobre o respeito que aproxima, o respeito que afasta, e a diferença entre viver e existir

Por Hiran de Melo

“A vida é aquilo que nos acontece e nos é dado; a existência é aquilo que fazemos com o que nos acontece”.

Existe uma lanterna que todo viajante carrega sem saber que carrega.

Ela não ilumina propriamente a estrada. Ilumina as pessoas que a estrada coloca diante de nós — e, sobretudo, ilumina a distância que devemos guardar de cada uma delas.

Há pessoas que se aproximam trazendo bondade. Há outras que chegam carregando suas próprias sombras e acabam espalhando sofrimento por onde passam. Diante de umas e de outras, precisamos aprender uma palavra difícil: discernimento.

Porque respeitar não significa tratar todos da mesma maneira.

Há um respeito que aproxima.

E há um respeito que afasta.

Ambos podem nascer da mesma consciência: a consciência de que o outro existe e de que nós também existimos.

Mas talvez seja necessário ir um pouco mais fundo.

Vida não é existência

A vida nos é dada.

A existência, não.

Nascemos sem escolher nascer. Recebemos um corpo, uma família, uma época, uma língua, uma cultura, determinadas circunstâncias. A vida nos antecede. Quando chegamos ao mundo, o mundo já estava aqui.

A vida, nesse sentido, é o acontecimento fundamental de estarmos vivos.

Mas existir é outra coisa.

Existir é assumir uma posição diante daquilo que a vida nos entrega.

Podemos receber a vida como destino e simplesmente atravessá-la. Podemos, porém, transformá-la em existência quando começamos a escolher, interpretar, responder, construir, recusar, amar, afastar-nos e assumir responsabilidade pelas marcas que deixamos no mundo.

A vida acontece. A existência responde.

É por isso que duas pessoas podem passar pela mesma experiência e construir existências completamente diferentes.

A vida oferece circunstâncias.

A existência oferece respostas.

A vida é possibilidade.

A existência é escolha.

A vida nos coloca no caminho.

A existência decide como caminharemos.

Talvez seja exatamente por isso que a justa distância seja tão importante. Porque relacionar-se com alguém não significa apenas dividir espaço com essa pessoa. Significa permitir, em alguma medida, que sua presença participe da nossa existência.

E nem toda presença merece essa autorização.

O respeito que aproxima

Da bondade nasce um respeito que naturalmente deseja proximidade.

Não é submissão. Não é medo. Não é conveniência.

É reconhecimento.

Reconhecemos naquele outro alguém que decidiu utilizar sua existência para construir, cuidar, proteger, acolher.

Há pessoas cuja presença diminui o peso do mundo.

Chegam e alguma coisa em nós relaxa.

Conversamos com elas e não precisamos representar aquilo que não somos. Podemos silenciar sem constrangimento. Podemos falar sem medo. Podemos discordar sem transformar a divergência em agressão.

Esse tipo de pessoa nos ensina uma coisa importante: a proximidade pode ser uma forma de liberdade.

Por isso, diante da bondade, o respeito frequentemente se transforma em amizade.

A amizade é uma das formas mais bonitas de proximidade porque não exige posse.

O amigo não precisa ocupar todos os espaços da nossa existência. Ele apenas encontra um lugar legítimo nela.

E talvez seja essa a diferença entre uma relação saudável e uma relação de dependência: na primeira, a presença do outro amplia nossa existência; na segunda, a presença do outro começa a substituí-la.

Quem é verdadeiramente nosso amigo não deseja viver a nossa vida por nós.

Ele nos ajuda a viver a nossa própria vida.

O respeito que afasta

Mas existe outro respeito.

Mais silencioso. Mais frio. Mais vigilante.

É o respeito que devemos ter diante de quem distribui maldade.

Não porque a maldade mereça reverência, mas porque ignorá-la seria ingenuidade.

E a ingenuidade, quando aplicada às relações humanas, pode cobrar um preço muito alto.

Há pessoas diante das quais a distância não é indiferença. É sabedoria.

Não precisamos transformar quem nos fere em inimigo.

Essa talvez seja uma das grandes maturidades da existência: compreender que nem toda pessoa que deve ficar longe precisa ser odiada.

O ódio ainda é uma forma de proximidade.

Quem odeia permanece emocionalmente ligado ao objeto do seu ódio. Continua permitindo que o outro ocupe espaço dentro de si.

Às vezes, afastar-se é mais libertador do que combater.

Não é necessário amar quem nos destrói.

Também não é necessário odiá-lo.

Pode ser suficiente compreender.

Compreender que aquela presença não nos faz bem.

Compreender que determinados comportamentos não podem entrar na intimidade da nossa existência.

Compreender que estabelecer limites não é falta de amor.

É respeito por si mesmo.

A justa distância

Talvez a sabedoria esteja justamente em descobrir que cada pessoa exige uma distância diferente.

Há pessoas que merecem nossa proximidade.

Há pessoas que merecem apenas nossa cordialidade.

Há pessoas que merecem nosso silêncio.

E há pessoas das quais precisamos simplesmente nos afastar.

O erro está em acreditar que justiça significa oferecer a todos a mesma distância.

Não significa.

A igualdade pode exigir que reconheçamos a diferença.

Quem oferece cuidado merece receber confiança.

Quem oferece violência precisa encontrar limites.

Quem oferece amizade pode receber proximidade.

Quem oferece manipulação pode receber distância.

Não se trata de julgar definitivamente o valor de uma pessoa. Trata-se de decidir qual espaço ela ocupará em nossa existência.

Essa diferença é fundamental.

Porque respeitar alguém não significa conceder-lhe acesso à nossa intimidade.

Podemos reconhecer a dignidade do outro e, ainda assim, proteger a nossa própria dignidade.

Podemos desejar que alguém fique bem sem desejar que permaneça perto de nós.

Podemos perdoar sem reabrir a porta.

Podemos compreender sem voltar.

Podemos não odiar e, mesmo assim, partir.

A vida que recebemos e a existência que construímos

Talvez aqui esteja o ponto mais profundo desta reflexão.

A vida não nos pergunta se estamos preparados para receber determinadas pessoas.

Elas simplesmente aparecem.

Algumas chegam como encontros.

Outras chegam como provas.

Algumas permanecem.

Outras passam.

Há pessoas que deixam flores.

Há pessoas que deixam feridas.

Mas aquilo que elas fazem conosco pertence à dimensão da vida.

O que fazemos com aquilo que elas fizeram pertence à dimensão da existência.

É possível receber uma ferida e transformar-se em alguém que fere.

Mas também é possível receber uma ferida e decidir interromper a cadeia da violência.

É possível ser traído e transformar a existência em desconfiança.

Mas também é possível compreender que a traição de alguém não precisa determinar a nossa capacidade de confiar em todos.

É possível sofrer e tornar-se amargo.

Mas também é possível sofrer e tornar-se mais consciente.

A vida pode nos ferir.

A existência pergunta o que faremos com essa ferida.

É nesse ponto que o ser humano deixa de ser apenas alguém que vive e começa, verdadeiramente, a existir.

A pergunta que já contém o caminho

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Essa pessoa é boa ou ruim?”

A pergunta mais importante talvez seja:

“Que distância essa pessoa exige de mim?”

A primeira pergunta tenta definir o outro.

A segunda procura compreender a nossa responsabilidade diante dele.

E existe uma diferença enorme entre as duas.

Perguntar se alguém é bom ou mau pode nos colocar numa posição de julgamento.

Perguntar qual distância devemos manter nos coloca diante da responsabilidade.

Não precisamos conhecer toda a história de uma pessoa para estabelecer um limite.

Não precisamos compreender completamente suas motivações para reconhecer que determinado comportamento nos faz mal.

Nem toda pergunta precisa descobrir a essência do outro.

Algumas perguntas precisam apenas iluminar o caminho que devemos seguir.

E uma boa pergunta já contém, dentro de si, parte da resposta.

Quando perguntamos “por que essa pessoa é assim?”, podemos entrar num labirinto interminável.

Quando perguntamos “o que essa relação está fazendo com a minha existência?”, começamos a voltar para casa.

Porque a existência também precisa ser cuidada.

Discernir é existir

Bondade e maldade parecem opostos.

Proximidade e afastamento também.

Pergunta e resposta parecem pertencer a momentos diferentes do pensamento.

Mas talvez todos esses movimentos nasçam de uma mesma capacidade humana: discernir.

Discernir é separar sem necessariamente destruir.

É distinguir sem necessariamente condenar.

É reconhecer diferenças sem transformar toda diferença em guerra.

Quem aprende a discernir pessoas aprende também a discernir situações.

E quem aprende a discernir situações começa a compreender que viver não é simplesmente deixar que os acontecimentos nos atravessem.

Existir é participar daquilo que fazemos com eles.

Por isso, a justa distância não é apenas uma questão de relacionamento.

É uma questão existencial.

É decidir quem pode caminhar conosco.

Quem pode entrar em nossa casa.

Quem pode conhecer nossas fragilidades.

Quem pode ouvir nossos silêncios.

E também quem precisa permanecer do outro lado da porta.

A porta não existe apenas para deixar alguém entrar.

Existe também para que possamos fechá-la quando necessário.

A lanterna

O viajante continua sua estrada.

Já não confunde bondade com obrigação de intimidade.

Já não confunde maldade com obrigação de guerra.

Aprendeu que existem pessoas que devem ser abraçadas, outras que devem ser cumprimentadas e outras das quais é melhor simplesmente manter distância.

E descobriu algo ainda mais importante:

a lanterna que carregava não servia apenas para iluminar o caminho.

Servia para iluminar a si mesmo.

Porque, no fundo, toda relação nos coloca diante de uma pergunta sobre quem somos.

Que pessoa estou me tornando ao permanecer aqui?

O que esta relação está fazendo da minha existência?

Estou vivendo apenas aquilo que a vida me impôs ou estou escolhendo o modo como desejo existir?

Talvez a maturidade comece quando deixamos de perguntar apenas “o que fizeram comigo?” e começamos a perguntar:

“O que eu farei com aquilo que fizeram comigo?”

Essa é a passagem silenciosa da vida para a existência.

A vida é o que recebemos.

A existência é o que construímos.

A vida nos coloca pessoas no caminho.

A existência decide a distância que elas ocuparão.

A vida nos oferece encontros.

A existência transforma alguns deles em vínculos e outros em aprendizado.

A vida nos dá o acontecimento.

A existência dá-lhe sentido.

E talvez seja por isso que a verdadeira liberdade não esteja em escolher todas as pessoas que encontramos, mas em escolher quem permitiremos que caminhe conosco.

No final, a lanterna nunca foi feita para eliminar as sombras.

Foi feita para que aprendêssemos a caminhar entre elas.

E talvez a sabedoria não esteja em iluminar tudo.

Mas em saber onde colocar a luz, onde estabelecer a distância e, sobretudo, onde continuar o nosso caminho.

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