Vamos caminhar?

Por Josivan Campos Brasil – Cavaleiro Noaquita

Não é apenas um convite. É um chamado silencioso, feito por aquele que já percorreu o caminho e conhece seus sinais. Nenhum homem atravessa a senda iniciática sozinho, ainda que acredite caminhar em linha reta.

Sustentado pela confiança do Aprendiz — a fé que antecede o saber — inicia-se a grande marcha do Ocidente ao Oriente. O passo é dado sem pressa, pois o tempo da jornada não obedece ao relógio dos homens. Há retas que testam a perseverança e curvas que ensinam a prudência. Pedras surgem para fortalecer os pés; perigos, para despertar a atenção.

Cada estação oferece sua prova. O frio ensina a resistência, o calor revela os limites, a tempestade purifica. O medo, quando atravessado, transforma-se em compreensão. E quando a lição é acolhida, a brisa se manifesta como sinal de que o caminho foi honrado.

Ao final de um longo trecho, o Aprendiz volta-se ao Mestre e pergunta:
— Chegamos ao lugar prometido?

E o Mestre responde, sem solenidade excessiva:

— Caminhamos juntos até onde teus olhos puderam ver e teus pés aprenderam a sustentar-se.

Antes que novas perguntas fossem formuladas — qual direção tomar, que rota seguir — o Mestre se afasta, deixando apenas a palavra justa:
— Segue agora por ti mesmo. Que tua viagem seja bela, como o curso das estrelas. Viaja para fora e contempla o grande edifício do mundo. Reconhece-te pequeno, mas necessário; parte viva de uma obra maior.

Contudo, há uma travessia ainda mais sutil. Prepara-te para ela. Ordena tua bagagem, acalma o espírito, alimenta o corpo e repousa a mente.
Esta é a viagem para dentro.

Nela, aprende a ver cada flor como um ensinamento, cada som como um chamado. Escuta o canto dos pássaros, sente a terra que sustenta, a água que purifica, o ar que anima. Esses elementos te fortalecerão quando os espinhos surgirem e os abismos parecerem próximos.

Sabe, então, que a iniciação não ocorre em um ponto final, mas em cada passo consciente.

A cada etapa vencida, um homem antigo se despede — e um novo nasce.

 

Interpretação simbólica do texto à luz da Maçonaria Adonhiramita

Por Hiran de Melo – Cavaleiro Noaquita

A seguir desenvolvo uma interpretação simbólica e filosófica aprofundada do artigo “Vamos caminhar?”, tomando como referência espiritual e metodológica a Tradição Maçônica Adonhiramita, especialmente no modo de ler os símbolos como instrumentos de trabalho interior, e não como ornamentos literários.

O texto passa, assim, de convite poético a estudo iniciático.

1. O convite que não é convite - o Chamado

“Não é apenas um convite. É um chamado silencioso…”

Na tradição iniciática, como lembra os manuais da Maçonaria Adonhiramita, o verdadeiro chamado não se impõe. Ele não vem pela voz, mas pelo reconhecimento interior.

O silêncio aqui é simbólico: ele representa o momento anterior à palavra ritual, quando o profano ainda não sabe nomear o que sente, mas já percebe que algo o desloca.

Esse chamado não busca convencer; ele ressoa apenas em quem já está maduro para ouvir. Por isso, “não é apenas um convite”: é uma convocação da consciência.

2. O Mestre que caminha - autoridade sem imposição

“feito por aquele que já percorreu o caminho e conhece seus sinais”

O Mestre não é descrito como aquele que manda, mas como aquele que reconhece os sinais da estrada. Na luz da Tradição Maçônica Adonhiramita, o verdadeiro Mestre não é o dono da verdade, mas o guardião da experiência.

Ele não cria o caminho — ele o atravessou. Seu saber não é teórico, é encarnado.

Esse detalhe é essencial: a autoridade iniciática nasce do trabalho vivido, não do título.

3. A senda que não se percorre sozinho

“Nenhum homem atravessa a senda iniciática sozinho”

Aqui está um dos pilares do pensamento maçônico: a iniciação não é solitária, mesmo quando o trabalho é interior.

A Maçonaria Adonhiramita insiste que o outro é o espelho necessário. O Aprendiz precisa do olhar do Mestre para reconhecer seus próprios limites. Caminhar “sozinho” seria permanecer fechado no ego; caminhar acompanhado é aceitar o descentramento.

4. Ocidente e Oriente - mais que direções, estados do ser

“a grande marcha do Ocidente ao Oriente”

Simbolicamente, o Ocidente representa o homem ainda dominado pela matéria, pela dispersão e pela sombra. O Oriente é o lugar da luz interior, do sentido e da ordenação.

Mas a Tradição Maçônica Adonhiramita adverte: essa travessia não é geográfica, é existencial.

Marchar do Ocidente ao Oriente é sair da inconsciência para a lucidez, da reação para a ação consciente.

O passo sem pressa indica que a pressa é profana; o tempo iniciático não se mede em resultados, mas em maturação.

5. Retas e curvas - ética e prudência

“Há retas que testam a perseverança e curvas que ensinam a prudência”

A reta simboliza o ideal, a Lei, o princípio. A curva simboliza a adaptação, o discernimento, a sabedoria prática.

A Tradição Maçônica Adonhiramita ensina que o iniciado fracassa quando absolutiza um dos dois:

– só retas geram rigidez;

– só curvas geram dispersão.

A verdadeira senda é o equilíbrio entre fidelidade e flexibilidade.

6. Pedras, perigos e provas - a pedagogia do real

“Pedras surgem para fortalecer os pés; perigos, para despertar a atenção”

Na leitura simbólica, os obstáculos não são punições, mas instrumentos.
A pedra não está ali para derrubar, mas para educar o passo.

A Tradição Maçônica Adonhiramita afirma que a iniciação não protege o homem das provas — ela o prepara para compreendê-las.  

O perigo desperta a vigilância; a dificuldade lapida o caráter.

7. As estações - o tempo interior da formação

“Cada estação oferece sua prova”

As estações representam os ciclos da alma.

O frio ensina contenção; o calor ensina medida; a tempestade ensina entrega e purificação.

O medo que se transforma em compreensão revela o ponto central do ensino da Maçonaria Adonhiramita: o símbolo só se revela quando atravessado, nunca quando evitado.

8. A brisa - o sinal invisível da aprovação

“a brisa se manifesta como sinal de que o caminho foi honrado”

A brisa é um símbolo sutil. Não é vento violento nem tempestade.
Ela representa a harmonia interior que surge quando o trabalho foi feito corretamente.

Para a Maçonaria Adonhiramita, os verdadeiros sinais da iniciação são discretos. Eles não gritam, não exibem. Eles acariciam.

9. A pergunta do Aprendiz - o limiar da autonomia

“Chegamos ao lugar prometido?”

Essa pergunta não é ingenuidade — é maturidade. Ela surge quando o Aprendiz começa a perceber que o caminho talvez não tenha um ponto final externo.

Aqui, o texto toca o coração da filosofia iniciática: a promessa não é um lugar, mas uma condição de consciência.

10. A retirada do Mestre - o maior ensinamento

“Caminhamos juntos até onde teus olhos puderam ver”

O Mestre se afasta porque seu papel foi cumprido.

Na tradição da Maçonaria Adonhiramita, o Mestre verdadeiro sabe quando desaparecer.

Permanecer além do necessário seria impedir o nascimento do homem livre.

11. A viagem às estrelas - contemplação do Todo

Viajar para fora, contemplar a imensidão, reconhecer-se pequeno e necessário — eis a lição da humildade cósmica.

A Maçonaria Adonhiramita vê nessa contemplação a cura do orgulho: o iniciado aprende que não é o centro, mas parte consciente da Obra.

12. A viagem para dentro - a iniciação verdadeira

“Esta é a viagem para dentro”

Aqui o texto alcança seu ponto mais elevado. Organizar a bagagem é ordenar paixões e pensamentos. Alimentar-se, repousar, acalmar o espírito é respeitar o templo interior.

Os quatro elementos — terra, água, ar e fogo — aparecem como forças iniciáticas, sustentando o caminhante quando surgem espinhos e abismos.

13. O nascimento contínuo do Novo Homem

“A cada etapa vencida, um homem antigo se despede — e um novo nasce.”

Para a Maçonaria Adonhiramita, a iniciação não cria um homem perfeito, mas um homem em permanente lapidação.

Não há ponto final. Há continuidade consciente.

O verdadeiro iniciado não chega — torna-se.

Conclusão simbólica

Este artigo, lido à luz da Tradição Maçônica Adonhiramita, revela-se como um mapa interior, onde cada gesto, cada elemento e cada palavra são ferramentas de trabalho. Não se trata de caminhar para chegar, mas de caminhar para ser.


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