Postagens

Imagem
  A Política na Polis A abolição que ainda não terminou Por Hiran de Melo A lei libertou os corpos. Não desfez a estrutura que, durante séculos, aprendeu a transformar gente em instrumento de trabalho. A senzala perdeu as correntes. A casa-grande permaneceu de pé. Talvez seja esse o sentido do escravismo estrutural: não precisamos mais possuir pessoas para manter relações que as deixam dependentes, mal remuneradas e distantes das oportunidades. A velha ordem sobrevive quando a desigualdade deixa de parecer injustiça e passa a parecer natureza. A abolição não deu terra, nem reparação, nem moradia, nem escola. A liberdade chegou sem os meios de ser exercida. E liberdade sem condições materiais pode ser apenas outra forma de dependência. A porta dos fundos continua aberta. Por ela entram as trabalhadoras domésticas, tantas vezes negras, que cuidam das casas alheias enquanto lutam para sustentar a própria. Quando seus direitos avançam, há quem veja primeiro o custo para o patrão, e n...
Imagem
  Religião e Existencialismo Onde mora o valor de uma vida Entre o dom recebido e a responsabilidade de existir Por Hiran de Melo Existe uma antiga pergunta: a quem entregar a flauta? A resposta que atribuímos aos gregos parece evidente: ao melhor flautista. Mas há uma pergunta escondida atrás dela. Quem decidiu que ele merecia a flauta antes mesmo de começar a tocar? A natureza distribui seus dons sem consultar ninguém. Um aprende depressa; outro precisa repetir muitas vezes. Há quem encontre portas abertas desde cedo, e quem gaste a vida tentando abrir a primeira. O problema não está em reconhecer a diferença. Está em convertê-la em sentença sobre o valor de cada pessoa. Na parábola dos talentos, o senhor entrega cinco a um servo, dois a outro, um ao terceiro. Quem multiplica cinco e quem multiplica dois recebem o mesmo "muito bem". Ninguém cobra do segundo que faça dez. O terceiro não é censurado por ter recebido pouco. É censurado porque o medo o fez enterrar o que tinha....
Imagem
  A Política na Polis   O QUE A MAÇONARIA PODE FAZER PELO APRENDIZ? Entre a riqueza que se conquista e o homem que se transforma Por Hiran de Melo Um amigo e Mestre lançou uma provocação que merece mais do que uma resposta pronta: o que a Maçonaria pode fazer pelo Aprendiz? Como pode contribuir para que ele enriqueça? A primeira reação talvez seja recorrer ao princípio tradicional de que não devemos perguntar o que a Maçonaria pode fazer por nós, mas o que podemos fazer por ela. É uma resposta legítima. Mas será suficiente? Ou estaremos evitando uma questão que nos obriga a olhar para a realidade de quem chega ao nosso Templo? O Aprendiz não deixa sua vida do lado de fora quando atravessa a porta do Templo. Traz consigo sonhos, dificuldades financeiras, inquietações familiares e a esperança de encontrar algo que o ajude a viver melhor. Traz também suas contradições, suas ambições e o desejo de tornar-se alguém maior do que acredita ser. Por isso, não podemos enxerg...