Religião e Existencialismo Quando o Amanhã Impede o Presente A roleta da existência Por Hiran de Melo Existe uma frase que contraria tudo o que aprendemos sobre a dignidade de existir: "Viver não é importante. Jogar é importante." Ela incomoda porque revela o que preferimos não ver: muitas vezes não estamos vivendo — estamos apostando. No tempo, nos afetos, na carreira, no futuro. Amanhã será diferente. Na próxima tentativa, dará certo. Quando eu conseguir aquilo, finalmente descanso. E continuamos. Não porque desejamos ganhar. Porque não suportamos perder. Dostoiévski percebeu que o jogador não se move pelo dinheiro. O dinheiro é superfície. Debaixo dele está o desejo — e o jogador não se alimenta da vitória, mas da possibilidade. O quase ganhar. O quase perder. Isso é o que mantém a roda girando. Talvez seja essa a metáfora da existência: há quem não viva para chegar. Vive para continuar tentando chegar. E o presente, enquanto isso, vai se tornando apenas...