A Política na Polis A Lanterna e o Vigia Sobre a ordem que se ergue pelo medo e a ordem que se tece pelo vínculo Por Hiran de Melo Existe um instante em que a lanterna se acende num quarto que se julgava limpo. Os móveis estão onde sempre estiveram. As paredes, intactas. Mas agora se vê o que a penumbra guardava: a poeira nos cantos, o mofo escondido atrás da cômoda, os passos que se moviam sem que ninguém os ouvisse. É assim que chegam os escândalos. Figuras de relevo, no coração do Estado, flagradas no que fingiam não fazer. E a nação inteira, de lanterna na mão, pergunta: como foi possível? A explicação de sempre Costuma-se responder que foi preciso pactuar. O poder se reparte entre grupos que o disputam, cada grupo cobra seu preço, governar é ceder. E de tanto ceder, cede-se também a decência. Acordos. Alianças. Conveniências. Talvez a explicação seja verdadeira. Talvez seja apenas confortável. Porque dela nasce, quase de imediato, o desejo d...