A Política na Polis A ABOLIÇÃO QUE AINDA NÃO TERMINOU O escravismo estrutural e a pobreza como herança de uma sociedade desigual Por Hiran de Melo A escravidão brasileira não terminou inteiramente em 1888. Naquele ano, a lei libertou os corpos, mas não desfez a estrutura social que, durante séculos, aprendeu a transformar seres humanos em instrumentos de trabalho e a miséria em vantagem econômica. A senzala perdeu suas correntes. A casa-grande, porém, permaneceu de pé. Talvez seja esse o sentido mais profundo do escravismo estrutural: não precisamos mais possuir pessoas para continuar reproduzindo relações sociais que as mantêm dependentes, mal remuneradas e afastadas das oportunidades que poderiam mudar suas vidas. A antiga ordem sobrevive quando a desigualdade deixa de parecer uma injustiça e passa a ser tratada como parte natural da existência. A abolição não distribuiu terras, não reparou os danos de gerações de trabalho forçado, não garantiu moradia, educação ou ...