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  A Política na Polis Os Padrinhos da Rua e o Sangue da Terra Por Hiran de Melo Na memória das cidades, alguns nomes permanecem nos livros de história; outros sobrevivem no chão das ruas, nas calçadas e na lembrança daqueles que aprenderam a caminhar com dignidade. Falar do 2 de Julho sem recordar Seu Miro, o sapateiro da rua, seria contar a história da Bahia esquecendo aqueles que ajudaram a colocá-la de pé. Meu pai tinha a pele clara e os olhos da cor do céu pela manhã. Mas a sabedoria dos homens não se mede pela aparência. Quando chegou o momento de escolher quem me acompanharia como padrinho e madrinha no batismo da Igreja Católica Apostólica Romana, ele não procurou os casarões da ladeira nem os sobrenomes respeitados da cidade. Olhou para a simplicidade de uma bancada de trabalho, onde couro, graxa e suor se transformavam em sustento e dignidade. Escolheu Seu Miro e Dona Zefinha, mãe de Santa. Na pia batismal, nasceu mais do que um compromisso religioso. Firmou-se u...
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A Política na Polis   A VITRINE DOS ILUDIDOS Meritocracia, mentira organizada e o esquecimento da própria realidade. Por Hiran de Melo Existe uma cena que se repete em milhares de casas, todo fim de mês. O contracheque sobre a mesa. Você o lê com o cuidado de quem sabe o peso de cada número. Desconto aqui. Imposto ali. O que sobra mal alcança a semana seguinte. E, no entanto, à noite, diante da tela, você defende com ardor o direito de quem nunca precisou de um contracheque para existir. Talvez seja essa a contradição mais dolorosa do nosso tempo: quem depende do salário aplaude ideias que enfraquecem o próprio salário. Quem precisa de proteção aprende a enxergá-la como sinal de fracasso. E passa a olhar a riqueza alheia como quem olha uma vitrine, certo de que o vidro um dia vai se abrir só para ele. Não há mal em sonhar. O mal é olhar tanto para a vitrine que esquecemos do vidro. E esquecemos que, deste lado, não estamos sozinhos. Dizem que cada um ocupa o lugar q...
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  A Política na Polis A MERITOCRACIA E A ILUSÃO DE SER RICO Quando o pobre aprende a defender os interesses dos ricos e a desconfiar dos próprios direitos. Por Hiran de Melo Existe uma contradição dolorosa em nossa sociedade: trabalhadores que dependem do salário defendem a redução de direitos trabalhistas; pessoas que necessitam dos serviços públicos passam a considerá-los sinais de fracasso; homens e mulheres que enfrentam as dificuldades da desigualdade aprendem a admirar os milionários como se já compartilhassem de sua riqueza. Como compreender esse paradoxo? Uma das respostas está na meritocracia transformada em ideologia. O esforço pessoal tem valor. A dedicação, a disciplina e a iniciativa podem transformar vidas. O problema começa quando nos convencem de que o sucesso depende exclusivamente do mérito individual e de que a pobreza é, necessariamente, consequência da falta de esforço. Esquecem-se as oportunidades desiguais, os privilégios herdados e as condições...