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    Religião e Existencialismo O corpo da mulher: da propriedade patriarcal à conquista da autonomia Entre as antigas leis, as tradições religiosas e a luta contemporânea pelo direito de ser dona de si. Por Hiran de Melo Há uma pergunta que atravessa os séculos, resiste às mudanças das leis, sobrevive às transformações das religiões e continua a desafiar a consciência humana: a quem pertence o corpo de uma mulher? Imagine uma porta. Não uma porta qualquer, mas aquela que dá para dentro de uma pessoa, o lugar onde ela sente, ama, pensa, escolhe. Durante milênios, a chave dessa porta esteve em muitas mãos: a do pai, a do marido, a do sacerdote, a do legislador, a do costume. Quase nunca esteve na mão de quem vivia atrás dela. A pergunta parece desnecessária em nosso tempo. Afinal, reconhecemos, ao menos no plano dos princípios, que nenhuma pessoa deveria ser proprietária de outra. O corpo é inseparável da existência, e decidir sobre ele constitui uma dimensão fundame...
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  Religião e Existencialismo Quando o Amanhã Impede o Presente A roleta da existência Por Hiran de Melo Existe uma frase que contraria tudo o que aprendemos sobre a dignidade de existir: "Viver não é importante. Jogar é importante." Ela incomoda porque revela o que preferimos não ver: muitas vezes não estamos vivendo — estamos apostando. No tempo, nos afetos, na carreira, no futuro. Amanhã será diferente. Na próxima tentativa, dará certo. Quando eu conseguir aquilo, finalmente descanso. E continuamos. Não porque desejamos ganhar. Porque não suportamos perder. Dostoiévski percebeu que o jogador não se move pelo dinheiro. O dinheiro é superfície. Debaixo dele está o desejo — e o jogador não se alimenta da vitória, mas da possibilidade. O quase ganhar. O quase perder. Isso é o que mantém a roda girando. Talvez seja essa a metáfora da existência: há quem não viva para chegar. Vive para continuar tentando chegar. E o presente, enquanto isso, vai se tornando apenas...
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      A Política na Polis A Lanterna e o Vigia Sobre a ordem que se ergue pelo medo e a ordem que se tece pelo vínculo Por Hiran de Melo Existe um instante em que a lanterna se acende num quarto que se julgava limpo. Os móveis estão onde sempre estiveram. As paredes, intactas. Mas agora se vê o que a penumbra guardava: a poeira nos cantos, o mofo escondido atrás da cômoda, os passos que se moviam sem que ninguém os ouvisse. É assim que chegam os escândalos. Figuras de relevo, no coração do Estado, flagradas no que fingiam não fazer. E a nação inteira, de lanterna na mão, pergunta: como foi possível? A explicação de sempre Costuma-se responder que foi preciso pactuar. O poder se reparte entre grupos que o disputam, cada grupo cobra seu preço, governar é ceder. E de tanto ceder, cede-se também a decência. Acordos. Alianças. Conveniências. Talvez a explicação seja verdadeira. Talvez seja apenas confortável. Porque dela nasce, quase de imediato, o desejo d...