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  Religião e Existencialismo Quando o Amanhã Impede o Presente A roleta da existência Por Hiran de Melo Existe uma frase que contraria tudo o que aprendemos sobre a dignidade de existir: "Viver não é importante. Jogar é importante." Ela incomoda porque revela o que preferimos não ver: muitas vezes não estamos vivendo — estamos apostando. No tempo, nos afetos, na carreira, no futuro. Amanhã será diferente. Na próxima tentativa, dará certo. Quando eu conseguir aquilo, finalmente descanso. E continuamos. Não porque desejamos ganhar. Porque não suportamos perder. Dostoiévski percebeu que o jogador não se move pelo dinheiro. O dinheiro é superfície. Debaixo dele está o desejo — e o jogador não se alimenta da vitória, mas da possibilidade. O quase ganhar. O quase perder. Isso é o que mantém a roda girando. Talvez seja essa a metáfora da existência: há quem não viva para chegar. Vive para continuar tentando chegar. E o presente, enquanto isso, vai se tornando apenas...
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      A Política na Polis A Lanterna e o Vigia Sobre a ordem que se ergue pelo medo e a ordem que se tece pelo vínculo Por Hiran de Melo Existe um instante em que a lanterna se acende num quarto que se julgava limpo. Os móveis estão onde sempre estiveram. As paredes, intactas. Mas agora se vê o que a penumbra guardava: a poeira nos cantos, o mofo escondido atrás da cômoda, os passos que se moviam sem que ninguém os ouvisse. É assim que chegam os escândalos. Figuras de relevo, no coração do Estado, flagradas no que fingiam não fazer. E a nação inteira, de lanterna na mão, pergunta: como foi possível? A explicação de sempre Costuma-se responder que foi preciso pactuar. O poder se reparte entre grupos que o disputam, cada grupo cobra seu preço, governar é ceder. E de tanto ceder, cede-se também a decência. Acordos. Alianças. Conveniências. Talvez a explicação seja verdadeira. Talvez seja apenas confortável. Porque dela nasce, quase de imediato, o desejo d...
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    A Política na Polis Uma Constelação em Cada Loja Fraternidade, Força e União: quando a Luz descobre que não brilha sozinha Por Hiran de Melo Houve um tempo, no fim do século passado, em que se dizia com ênfase, e com certo orgulho, que o Grande Oriente da Paraíba era uma constelação de estrelas. Quem levanta os olhos numa noite limpa não vê constelação alguma. Vê pontos. Pontos de idades diferentes, de cores diferentes, separados por distâncias que o olho não alcança. A constelação só existe para quem aprende a ligar os pontos. A estrela que se apagou Numa loja da Paraíba, essa verdade tomou forma de nome. Ela nasceu de irmãos do REAA e se chamou Fraternidade e Luz . Teve seu apogeu. Depois, teve sua queda. Toda estrela que brilha muito sabe, em algum momento, o que é a noite. Mas houve quem não aceitasse o escuro como sentença. Irmãos, também eles do REAA, ergueram a loja de novo. E, ao olhar para o que restava, perceberam algo que o apogeu nunca lhes ti...
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  A Política na Polis Não cagues no prato em que comeste Uma pequena fábula sobre gratidão e poder Hiran de Melo Certa manhã, o velho Barão de Monte Zepa caminhava com seu filho Milan pelas muralhas do castelo. Lá embaixo, os camponeses trabalhavam sob o sol: colhiam o trigo, cuidavam do gado, cortavam a lenha. Milan observava tudo com desprezo. — São lentos e ingratos — disse. — Se dependesse de mim, pagariam mais impostos e aprenderiam pelo castigo quem manda nestas terras. O barão nada respondeu. Conduziu o filho ao salão, onde a mesa estava farta de pão, queijo, carne e frutas. Serviu-lhe o melhor assado e esperou que comesse. Quando Milan terminou, empurrou o prato com indiferença. Então o velho segurou-lhe o braço: — Meu filho, nunca cagues no prato em que comeste . Milan franziu a testa. — Que ensinamento é esse? O barão apontou para a mesa. — O trigo deste pão foi plantado por aquelas mãos que desprezas. O gado que alimentou tua mesa foi cuidado ...
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    A Política na Polis O Castelo e a Mesa O que a fábula do velho barão ensina às instituições de direitos Por Hiran de Melo Do alto das muralhas, o trabalho dos outros parece pequeno. Os camponeses viram figuras lentas. A colheita, um detalhe da paisagem. O suor, uma cor distante no campo. Foi dali que Milan, filho do velho barão de Monte Zepa, olhou o mundo e o julgou: lentos, ingratos, merecedores de castigo. Existe algo que a altura faz com o olhar. Ela não engana pela mentira. Engana pela distância. E talvez toda relação de poder comece assim: não com um ato de crueldade, mas com um esquecimento. O esquecimento de quem plantou o que está sobre a mesa. O prato e a lição O barão não respondeu ao filho com um discurso. Fez algo mais sábio: levou-o ao salão, serviu-lhe o melhor assado e esperou que comesse. Só depois, quando o prato foi empurrado com indiferença, disse a frase. Rude demais para caber em qualquer constituição. Verdadeira demais para ser esquec...