Dois Judeus que escandalizaram o Seu Tempo

Jesus Nazareno e Baruch Espinosa: convergências entre a espiritualidade e a liberdade

Por Hiran de Melo

A história possui uma curiosa tendência de expulsar aqueles que chegam cedo demais.

Os homens que ampliam os horizontes da consciência raramente são recebidos com aplausos.

Geralmente são recebidos com suspeita.

Com acusações.

Com condenações.

Às vezes com cruzes.

Outras vezes com excomunhões.

Entre esses homens encontram-se dois judeus separados por mais de mil e seiscentos anos.

Dois filhos da mesma tradição.

Dois amantes da verdade.

Dois escândalos para seus contemporâneos.

Jesus Nazareno.

Baruch Espinosa.

Cada um em seu tempo confrontou a forma dominante de viver a religião.

Jesus entrou em conflito com o judaísmo templário de sua época.

Espinosa entrou em conflito com o judaísmo rabínico do século XVII.

Ambos pagaram um preço elevado.

Mas ambos deixaram uma herança que continua viva.

Jesus e o templo

O conflito de Jesus não foi propriamente contra o judaísmo.

Jesus era judeu.

Viveu como judeu.

Pensou como judeu.

Rezou como judeu.

Morreu como judeu.

Seu conflito era com a forma como a experiência espiritual havia sido aprisionada por determinadas estruturas de poder.

O Templo de Jerusalém havia se tornado não apenas um centro religioso.

Era também um centro econômico.

Político.

Institucional.

A mediação entre Deus e os homens passava por sacerdotes, rituais, sacrifícios e normas cuidadosamente administradas.

Jesus não destrói essa tradição.

Mas a desloca.

O centro deixa de ser o templo.

O centro passa a ser a consciência.

O altar deixa de ser a pedra.

O altar passa a ser o coração.

O Reino deixa de ser uma expectativa futura.

Passa a ser uma realidade interior.

Por isso suas palavras eram tão perturbadoras.

Ele afirmava que publicanos, prostitutas e marginalizados podiam estar mais próximos de Deus do que os especialistas da religião.

Isso não era apenas uma crítica moral.

Era uma revolução espiritual.

Espinosa e a sinagoga

Séculos depois, em uma Amsterdã marcada por tensões religiosas, outro judeu produziria um escândalo semelhante.

Espinosa não atacava a fé.

Atacava as prisões construídas em torno da fé.

Questionava interpretações literais.

Questionava autoridades absolutas.

Questionava a ideia de que a verdade pudesse ser monopolizada por instituições religiosas.

Por causa disso recebeu um dos mais severos decretos de exclusão da história judaica.

O herem.

Foi expulso da comunidade.

Condenado ao isolamento.

Transformado em um estranho entre os seus.

O curioso é que, quanto mais se lê Espinosa, menos ele parece um inimigo de Deus.

Seu problema não era Deus.

Seu problema era o uso de Deus como instrumento de controle.

O Deus que não cabe nos templos

Talvez a convergência mais profunda entre Jesus e Espinosa esteja justamente aqui.

Nenhum dos dois aceita um Deus aprisionado.

Jesus encontra Deus entre pescadores.

Entre leprosos.

Entre estrangeiros.

Entre mulheres marginalizadas.

Entre crianças.

Espinosa encontra Deus em toda a realidade.

Nas árvores.

Nos rios.

Nas estrelas.

Na própria estrutura do universo.

Jesus diz que o Reino está dentro de nós.

Espinosa diz que tudo existe dentro da realidade infinita de Deus.

As linguagens são diferentes.

Mas ambas rompem a ideia de um Deus restrito aos espaços oficiais do sagrado.

Para ambos, o divino é maior do que qualquer instituição capaz de descrevê-lo.

O medo e a liberdade

Existe outra convergência notável.

Ambos desafiam a espiritualidade baseada no medo.

Grande parte das estruturas religiosas depende da ansiedade humana.

Do receio da punição.

Da culpa.

Da ameaça.

Jesus constantemente convida as pessoas à confiança.

Não ao medo.

Ao amor.

Não à servidão.

Espinosa afirma que o medo é uma das principais ferramentas utilizadas para manter os seres humanos em estado de submissão.

Para ele, quanto mais alguém compreende a realidade, menos necessita viver aterrorizado.

A liberdade nasce do conhecimento.

Jesus diria algo semelhante em outra linguagem:

"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará."

Talvez ambos estivessem apontando para a mesma direção.

A maturidade espiritual.

Deus como presença, não como soberano

Aqui encontramos uma diferença importante em relação às imagens religiosas que posteriormente se tornaram dominantes.

O Deus frequentemente apresentado pelos sistemas religiosos é um soberano.

Um legislador.

Um juiz cósmico.

Um imperador celestial.

Já o Deus que emerge da experiência de Jesus parece ser sobretudo Pai.

Fonte.

Presença.

Vida.

Em Espinosa, Deus também deixa de ser o grande monarca do universo.

Não governa o mundo de fora.

Não intervém arbitrariamente.

Não distribui favores segundo preferências pessoais.

É a própria realidade infinita da qual tudo participa.

Para muitos teólogos, essas concepções são bastante diferentes.

E de fato são.

Mas existe uma afinidade existencial entre elas.

Ambas retiram Deus do trono do império.

E o aproximam da própria existência.

A religião da experiência

Jesus não escreveu tratados.

Espinosa escreveu.

Mas ambos parecem desconfiar do mesmo perigo.

A substituição da experiência pela doutrina.

Quando a doutrina se torna mais importante que a vida, nasce a rigidez.

Quando a instituição se torna mais importante que a verdade, nasce o dogmatismo.

Quando a autoridade se torna mais importante que a consciência, nasce a opressão.

Jesus insiste na transformação interior.

Espinosa insiste na compreensão racional.

Um fala pela linguagem da parábola.

O outro pela linguagem da filosofia.

Mas ambos acreditam que o ser humano possui a capacidade de acessar uma realidade mais profunda do que aquela oferecida pelas convenções sociais.

Os hereges da liberdade

Talvez a palavra "herege" tenha sido injustamente aplicada aos dois.

Porque a verdadeira heresia, muitas vezes, não consiste em abandonar Deus.

Consiste em recusar as imagens estreitas que fazemos dele.

Jesus recusou um Deus reduzido ao templo.

Espinosa recusou um Deus reduzido aos dogmas.

Jesus recusou a mediação exclusiva dos sacerdotes.

Espinosa recusou a mediação exclusiva dos intérpretes autorizados.

Ambos devolveram ao ser humano uma responsabilidade que as instituições preferem administrar: a responsabilidade de buscar a verdade por si mesmo.

E isso sempre assusta os sistemas.

O encontro impossível

Historicamente, Jesus e Espinosa jamais se encontraram.

Um caminhou pelas estradas poeirentas da Galileia.

O outro pelas ruas úmidas de Amsterdã.

Um falava em aramaico.

O outro escrevia em latim.

Um ensinava através de parábolas.

O outro através de demonstrações filosóficas.

Mas existe um lugar onde talvez eles se encontrem.

Não na história.

Não na teologia.

Não na filosofia.

Mas na eterna recusa de transformar Deus em propriedade privada.

Ambos parecem sussurrar através dos séculos que a verdade é maior que as instituições que pretendem administrá-la.

Que o sagrado é maior que os templos que tentam contê-lo.

E que Deus, seja como Pai, seja como Substância Infinita, continua escapando de todas as definições humanas.

Talvez por isso tenham sido tão incômodos.

Não porque negaram Deus.

Mas porque se recusaram a permitir que Deus fosse reduzido às fronteiras construídas pelos homens.

E toda vez que alguém devolve o infinito ao infinito, os guardiões das fronteiras se inquietam.


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