O Templo Não Tem Sexo
Sobre arquitetos, alicerces
e o direito de cada um lavrar a própria pedra
Por Hiran de Melo
Efésios 5
21
Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus.
²² Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos
maridos, como ao Senhor;
Existe
uma imagem que se repete em toda casa, em todo discurso, em toda tradição que
insiste em explicar o humano por metáforas de construção: de um lado, o
arquiteto — que sonha, que desenha, que sobe. Do outro, o alicerce — que
sustenta, que não se move, que fica embaixo para que os outros possam subir. E
alguém, cedo ou tarde, vai perguntar: qual dos dois é mais importante? A
pergunta já nasce errada. Porque um templo que só tem alicerce nunca abriga
ninguém — e um templo que só tem arquiteto nunca fica de pé.
A submissão que vira sustentação
Há
quem leia Paulo e escute ali uma hierarquia disfarçada de elogio: você é a
base, ele é quem constrói. Parece generoso. Talvez até seja, na intenção de
quem fala. Mas todo elogio que só se sustenta enquanto uma das partes permanece
imóvel não é elogio — é arquitetura de contenção. Dizer a alguém "você é o
alicerce" e, no mesmo fôlego, reservar ao outro o papel de arquiteto, é
repetir a mais antiga das divisões: um pensa, o outro sustenta o peso do
pensamento alheio. Um desenha o horizonte, o outro garante que a casa não caia
enquanto o horizonte é desenhado sem ele.
E,
no entanto, — a mesma carta que fala em submissão começa, um versículo antes,
com uma frase que raramente é lida em voz alta nos púlpitos: sujeitai-vos uns
aos outros. Uns aos outros. Não um ao outro, numa via só. A submissão de que
Paulo fala, quando lida inteira e não em fragmento de sermão, é mútua — é o
marido também descendo, também se curvando, também deixando de ser arquiteto
sozinho. Talvez a Bíblia não descreva dois papéis fixos, como quer quem que se
apoia nela. Talvez descreva um único movimento: o de duas pessoas que se
curvam, cada uma a seu tempo, para que a outra não caia.
A pedra bruta não escolhe o sexo de quem a lavra
Existe
outra imagem, mais antiga que qualquer casa, mais silenciosa que qualquer
sermão: a da pedra bruta que cada um recebe ao entrar no templo, e que é
chamada a lavrar com as próprias mãos. Ninguém entra já pronto. Ninguém entra
já quadrado. O trabalho da Loja não é sustentar o edifício alheio — é esculpir
a própria pedra até que ela sirva à construção comum. E aqui está o que a
metáfora do alicerce esconde: ela pede à mulher que seja pedra pronta, imóvel,
serventia — e reserva ao homem o único lugar onde ainda se pode crescer, errar,
lavrar-se. Um trabalha a própria matéria. A outra é convocada a ser
matéria-prima do trabalho alheio.
Negar
à mulher a iniciação é dizer, sem dizer: sua pedra já está pronta, sua forma já
está dada, seu lugar é sustentar — nunca ser esculpida. Mas o Templo, esse que
os construtores antigos ergueram sem nunca terminar de erguer, nunca fez essa
distinção sobre quem pode empunhar o malho e o cinzel. Fez, sim, os homens que
vieram depois. A tradição confundiu, com o tempo, o rito com o costume, e o
costume com a própria essência da coisa — como se sempre tivesse sido assim,
como se sempre devesse continuar sendo.
Duas mãos erguendo a mesma coluna
Talvez
o erro mais antigo não seja escolher entre alicerce e arquiteto, mas insistir
que só existem esses dois papéis, e que cada um cabe a um sexo. O templo maduro
— o templo que já não teme desabar — não separa quem sustenta de quem constrói.
Ele reconhece que toda coluna precisa das duas mãos: uma que desenha, outra que
finca; e que essas duas mãos, em qualquer pessoa, em qualquer tempo, podem se
revezar. A mulher que hoje é chamada de alicerce também sonha, também projeta,
também ergue. E o homem que hoje se orgulha de ser arquiteto também precisa, em
algum momento da vida, ser sustentado — sem que isso o diminua.
Iniciar
a mulher na Loja não é retirar do homem seu lugar. É devolver ao templo a sua
verdadeira arquitetura: a de uma obra que nunca foi de um só construtor. As
colunas Jacim e Boaz não sustentam o templo uma contra a outra — sustentam-no
juntas, cada uma firme em seu próprio chão, e é exatamente por serem duas, e
não uma repetida, que a entrada se mantém de pé.
Talvez
o dia em que uma mulher lavrar sua própria pedra, sob a mesma luz, com o mesmo
malho, seguindo os mesmos passos que qualquer aprendiz já seguiu, seja o dia em
que o templo finalmente deixe de perguntar quem é o alicerce e quem é a parede
— e comece a perguntar, como deveria ter perguntado desde sempre: quem, entre
nós, ainda não teve a chance de lavrar a sua?
Assista
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