O Frescobol e a Ética da Colaboração
Quando o jogo deixa de ser apenas entre
dois
Por Hiran de Melo
Há
esportes que se vencem derrotando o adversário. Há outros em que a vitória
consiste em superar a si mesmo. E há o frescobol, uma rara invenção humana cuja
beleza repousa justamente no fato de não haver inimigos.
Sempre
admirei o frescobol. Não é um esporte contemplativo, daqueles que nos prendem a
uma arquibancada. É um espetáculo em movimento. Caminhando pela praia, gosto de
observar as duplas em perfeita sintonia, como se duas pessoas tentassem
prolongar, por alguns instantes, o voo de uma pequena esfera sobre o mar.
São
apenas duas raquetes, uma bola e duas pessoas. Contudo, a simplicidade do jogo
esconde uma profunda lição sobre a existência.
O
objetivo não é derrotar quem está à sua frente. Ao contrário: cada jogador
precisa oferecer ao outro as melhores condições para que ele devolva a bola. O
sucesso de um depende inteiramente da habilidade do outro.
Talvez
por isso o frescobol me pareça uma metáfora tão poderosa da vida.
Quando
a bola cai, ninguém pode apontar um culpado. O fracasso pertence à dupla. Da
mesma forma, quando a bola permanece no ar, a vitória também não é individual.
Ela nasce da confiança, da colaboração, da harmonia e da capacidade de um
facilitar o caminho do outro.
Na
praia, é curioso perceber como essa dinâmica se transforma à medida que os
jogadores evoluem.
Os
iniciantes permanecem próximos. A bola percorre trajetórias lentas, quase
delicadas. Os movimentos são cautelosos porque ainda estão aprendendo. Cada
rebatida procura favorecer o parceiro. Se a bola escapa ou atinge alguém por
acaso, dificilmente provoca qualquer dano. Falta velocidade, mas sobra
prudência.
Os
jogadores experientes vivem outra realidade.
À
medida que dominam a técnica, afastam-se um do outro. A bola passa a viajar em
alta velocidade. Cada golpe exige mais potência, mais precisão e reflexos cada
vez mais rápidos. O jogo torna-se bonito de assistir. Porém, exatamente nesse
instante, nasce um novo desafio.
Quanto
maior o domínio, maior também deve ser a responsabilidade.
Foi
essa lição que a vida resolveu me ensinar.
Caminhava
tranquilamente pela praia, de mãos dadas com minha companheira, apreciando o
mar e refletindo justamente sobre a beleza colaborativa do frescobol, quando
uma bola, rebatida com extrema violência por uma dupla experiente, atingiu em
cheio sua perna.
O
impacto foi forte.
A
dor foi imediata.
Minha
primeira reação foi a indignação.
Questionei
os jogadores. Argumentei que aquele trecho da praia era destinado às pessoas
que caminhavam, às crianças, às famílias. Se desejavam jogar com tanta
potência, poderiam deslocar-se para a parte mais alta da praia, onde a
circulação de pessoas é menor.
A
resposta estava implícita.
Na
areia fofa ninguém gosta de jogar.
Os
pés afundam. O esforço aumenta. O equilíbrio torna-se mais difícil. Exige-se
mais do corpo.
Entretanto,
exatamente por isso, aquele seria o lugar mais seguro para todos.
Voltei
para casa convencido de que eles estavam errados.
Mas
as boas experiências têm o hábito de continuar dialogando conosco muito depois
de terminarem.
Foi
então que compreendi que o verdadeiro ensinamento daquele episódio não dizia
respeito apenas ao espaço onde se joga.
Dizia
respeito ao alcance das nossas ações.
No
frescobol, não basta cuidar apenas da relação entre os dois jogadores. Existe
uma terceira dimensão, muitas vezes esquecida: todos aqueles que compartilham a
mesma praia.
A
excelência técnica não elimina a responsabilidade ética.
Pelo
contrário.
Quanto
maior a habilidade, maior deve ser a consciência dos efeitos que nossas ações
produzem sobre aqueles que sequer participam do nosso jogo.
Talvez
essa seja uma das grandes ilusões da vida contemporânea.
Acreditamos
que basta tratar bem quem está ao nosso lado. Pensamos que cumprir nossas metas
pessoais já é suficiente. Esquecemo-nos, porém, de que vivemos num espaço
compartilhado, onde decisões aparentemente particulares atravessam
inevitavelmente a existência dos outros.
Toda
convivência humana possui essa dimensão invisível.
Enquanto
perseguimos nossos objetivos, alguém está caminhando ao nosso redor.
Enquanto
aceleramos nossos projetos, alguém pode ser atingido pela velocidade com que
escolhemos viver.
É
por isso que a maturidade não consiste apenas em aperfeiçoar nossas
habilidades. Consiste, sobretudo, em aprender a medir as consequências delas.
Na
vida, como no frescobol, o verdadeiro jogador não é aquele que consegue manter
a bola no ar a qualquer custo.
É
aquele que sabe que nenhum jogo vale a pena se, para mantê-lo, for necessário
ferir quem simplesmente passava pelo caminho.
Talvez
seja esta a mais bela ética da colaboração: compreender que viver não é apenas
manter a sintonia com quem joga conosco, mas preservar também a integridade de
todos aqueles que compartilham a mesma praia.
Porque
a verdadeira civilização começa quando o sucesso deixa de ser apenas eficiente
e passa a ser também cuidadoso.
E
somente quando o cuidado alcança até aqueles que não fazem parte do nosso jogo
é que aprendemos, enfim, o sentido mais profundo da convivência humana.
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