Quando a Consciência se Cala

Por Hiran de Melo

A reflexão que segue dialoga com o pensamento de Rizzardo da Camino (*) sobre a imoralidade, sem se limitar aos contornos dos costumes ou das normas. Sob o olhar da ética contemporânea, propõe um deslocamento essencial: da vigilância sobre os comportamentos para a responsabilidade diante do outro e da própria consciência. Afinal, mais importante do que perguntar o que é moralmente permitido talvez seja compreender quem nos tornamos a cada escolha que fazemos.

Poucas palavras despertam tanto desconforto quanto "imoralidade". Talvez porque, ao longo da história, ela tenha servido tanto para proteger a dignidade humana quanto para justificar perseguições em nome dos costumes de uma época. Aquilo que ontem parecia ofensivo pode hoje ser compreendido como expressão legítima da liberdade; aquilo que ontem parecia aceitável pode revelar-se, sob um novo olhar, profundamente desumano.

A moral muda. A consciência amadurece.

Esse movimento não significa que tudo seja relativo, como frequentemente se afirma. Significa apenas que a humanidade aprende lentamente a distinguir aquilo que apenas escandaliza os olhos daquilo que verdadeiramente fere a vida.

Existem gestos que desafiam convenções sem destruir ninguém. Existem outros, silenciosos e socialmente aceitos, que deixam cicatrizes profundas na alma das pessoas.

Talvez a verdadeira imoralidade não comece naquilo que o corpo faz, mas naquilo que o coração deixa de sentir.

Uma palavra humilhante pode ser mais obscena que um corpo nu. Uma mentira cuidadosamente construída pode ser mais indecente que qualquer gesto considerado escandaloso. Uma corrupção praticada com elegância social talvez seja muito mais ofensiva à humanidade do que comportamentos que apenas desafiam costumes estabelecidos.

O problema ético nunca repousa exclusivamente na aparência dos atos, mas na qualidade da relação que eles estabelecem com a dignidade do outro.

Vivemos um tempo curioso. Enquanto muitos discutem apaixonadamente os limites da moral sexual ou das tradições culturais, tornam-se quase invisíveis outras formas de degradação: a exploração econômica transformada em mérito, a mentira convertida em estratégia, a indiferença elevada à categoria de inteligência emocional e a violência praticada por meio de palavras que nunca chegam a tocar a pele, mas atravessam profundamente o espírito.

A ética contemporânea desloca o centro da reflexão. Em vez de perguntar apenas "isso é permitido?", convida-nos a perguntar: "Que tipo de ser humano me torno ao agir assim?"

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis da existência.

Não basta obedecer às regras. Também não basta rebelar-se contra elas. A liberdade sem consciência degenera em capricho; a obediência sem reflexão transforma-se em servidão.

Entre esses dois extremos nasce a responsabilidade.

A tradição iniciática sempre compreendeu que o verdadeiro combate não acontece nas praças, mas no interior do homem. Cada impulso egoísta, cada desejo de dominar, cada necessidade de possuir ou humilhar representa uma pedra ainda bruta aguardando o trabalho paciente da consciência.

Não se trata de reprimir a natureza humana, mas de educá-la.

A libertinagem não é o excesso de liberdade. É a liberdade que perdeu o encontro com a responsabilidade. Da mesma forma, a moral deixa de ser caminho de crescimento quando se converte apenas em vigilância do comportamento alheio.

Existe uma diferença silenciosa entre vigiar costumes e cultivar virtudes.

Os costumes pertencem às épocas. As virtudes pertencem ao humano.

Por isso, uma sociedade pode tornar-se mais permissiva sem se tornar mais justa. Também pode tornar-se mais conservadora sem se tornar mais ética. A justiça não nasce automaticamente nem da liberdade irrestrita nem da proibição absoluta. Ela floresce quando cada pessoa reconhece que toda ação produz ecos na vida dos outros.

Talvez seja justamente aí que a antiga expressão "livre e de bons costumes" revele um significado mais profundo.

Livre não é quem faz tudo o que deseja.

Livre é quem já não precisa obedecer aos próprios impulsos.

Bons costumes não são apenas hábitos aprovados por uma comunidade. São maneiras de existir que preservam a dignidade, ampliam a confiança e tornam o mundo um pouco mais habitável para todos.

No fim, a verdadeira imoralidade talvez não esteja nas fronteiras variáveis estabelecidas pelas culturas, mas na lenta erosão da capacidade de reconhecer o outro como alguém tão humano quanto nós.

Toda vez que essa percepção desaparece, a consciência se cala.

E, quando a consciência se cala, nenhuma lei consegue impedir que o homem se perca de si mesmo.

 

ANEXO

(*) IMORALIDADE

Não se deve confundir com “amoralidade”, que é a ausência de moral. A imoralidade constitui ato ofensivo no relacionamento humano; trata-se de aspectos éticos que podem variar segundo o grau de evolução de uma sociedade; o andar nu entre os indígenas não revela qualquer ato imoral, mas andar em uma cidade, pelas ruas, totalmente despido, constitui um grave atentado à moral.

A Maçonaria procura evitar que seus adeptos pratiquem atos de imoralidade, mas em um sentido mais amplo; a palavra obscena, os gestos obscenos, os atos sexuais carnais, obviamente constituem imoralidade, contudo, podem surgir conceitos filosóficos que se apresentam como imorais, como por exemplo, a prática da eutanásia ou o incesto; os defensores dessas práticas estarão adentrando em um caminho de imoralidade.

Como a libertinagem, que é o excesso de liberdade, existem, em casos aparentemente inocentes, atos de imoralidade.

O maçom deve estar sempre alerta para não cair no terreno escorregadio do limite fronteiriço entre a imoralidade e a libertinagem e reagir em Templo, freando seus instintos menos recomendáveis.

Ser maçom não fácil nem decorre de uma mera Iniciação; o comportamento moral é que o designa como sendo um ser “livre e de bons costumes”.

O bom costume é o oposto da imoralidade.

Breviário Maçônico / Rizzardo da Camino, - 6. Ed. – São Paulo. Madras, 2014, p. 197.


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