O Caminho do Iniciado Modificado pelo Institucionalismo
O conflito dos propósitos
Por Hiran de Melo
Existe
uma pergunta que atravessa silenciosamente os séculos, escondida entre
símbolos, rituais e juramentos:
O que aconteceu com o caminho do Iniciado?
Como
uma tradição criada para conduzir o ser humano ao encontro de si mesmo
tornou-se, tantas vezes, um conjunto de estruturas preocupadas com sua própria
preservação?
Como
escolas destinadas ao despertar da consciência transformaram-se em organizações
ocupadas com regulamentos, hierarquias e disputas internas?
Como
o caminho da transformação converteu-se, por vezes, na administração da própria
tradição?
Talvez
essa pergunta seja tão antiga quanto as próprias instituições humanas.
Porque toda obra nasce
viva.
Mas toda obra corre o
risco de transformar-se em monumento.
Toda revelação corre o
risco de transformar-se em doutrina.
Toda experiência corre o
risco de transformar-se em sistema.
E todo caminho corre o
risco de transformar-se em destino.
As
antigas escolas iniciáticas jamais tiveram como propósito principal transmitir
informações.
Informação não
transforma.
Acúmulo de conhecimento
não desperta.
Memória não é
consciência.
O objetivo sempre foi
outro.
Era provocar uma ruptura.
Um deslocamento.
Uma morte simbólica.
Uma travessia.
O iniciado não ingressava
para aprender algo novo.
Ingressava para tornar-se
alguém novo.
A verdadeira iniciação
jamais foi uma aquisição.
Sempre foi uma renúncia.
Uma lenta remoção das
camadas que escondem aquilo que somos.
Uma escavação da alma.
Uma arqueologia do
espírito.
Uma descida aos
subterrâneos da própria consciência.
Os símbolos nunca foram o
destino.
Foram apenas mapas.
Os rituais nunca foram a
chegada.
Foram apenas pontes.
Os graus nunca
representaram superioridade.
Representavam etapas da
jornada.
Mas existe uma armadilha
que acompanha toda tradição.
Com
o passar do tempo, os mapas tornam-se mais importantes que o território.
As pontes tornam-se mais
importantes que a travessia.
Os símbolos tornam-se
mais importantes que aquilo que simbolizam.
E então surge o
esquecimento.
Não um esquecimento
intelectual.
Mas um esquecimento
existencial.
A estrutura começa a
ocupar o lugar do propósito.
Aquilo que deveria
apontar para a montanha passa a esconder a montanha.
Aquilo que deveria
revelar a Luz passa a projetar sua própria sombra.
E,
sem perceber, os guardiões do caminho passam a defender a estrada enquanto
esquecem a direção.
Surge então um conflito
invisível.
O conflito dos
propósitos.
Existe o propósito da
instituição.
E existe o propósito da
iniciação.
A instituição pergunta:
— Como preservar a ordem?
A iniciação pergunta:
— Como despertar a
consciência?
A instituição pergunta:
— Como fortalecer a
estrutura?
A iniciação pergunta:
— Como fortalecer o ser?
A instituição pergunta:
— Como ampliar a
influência?
A iniciação pergunta:
— Como ampliar a
compreensão?
A instituição busca
permanência.
A iniciação busca
transformação.
A instituição busca
estabilidade.
A iniciação busca
transcendência.
A instituição administra
o passado.
A iniciação abre caminho
para o futuro.
Nenhum desses movimentos
é necessariamente errado.
Toda tradição necessita
de um corpo para sobreviver ao tempo.
Mas o corpo não é a vida.
A embarcação não é a
travessia.
O templo não é a
presença.
A lâmpada não é a Luz.
O
problema surge quando o recipiente passa a ser adorado e o conteúdo é
esquecido.
Quando os corredores se
tornam mais importantes que a jornada.
Quando os títulos se
tornam mais importantes que o caráter.
Quando os símbolos se
tornam mais importantes que os significados.
Quando
o rito se torna mais importante que a transformação que deveria produzir.
E então algo curioso
acontece.
As pessoas continuam
repetindo os gestos.
Continuam pronunciando as
palavras.
Continuam executando os
rituais.
Mas a alma já não viaja.
O corpo permanece no
templo.
A consciência permanece
adormecida.
Existe
uma profunda diferença entre participar de um rito e viver uma iniciação.
A primeira é um
acontecimento.
A segunda é uma
metamorfose.
A primeira ocupa algumas
horas.
A segunda ocupa uma
existência inteira.
Porque a verdadeira
iniciação não termina quando a cerimônia acaba.
Ela começa.
Ela continua na maneira
como alguém enfrenta seus medos.
Na forma como administra
seu ego.
Na capacidade de
reconhecer suas próprias sombras.
Na coragem de destruir as
imagens ilusórias que construiu sobre si mesmo.
A grande obra nunca foi
erguer edifícios.
Nunca foi multiplicar
organizações.
Nunca foi acumular
títulos, graus ou distinções.
A grande obra sempre foi
a construção do ser.
Foi transformar violência
em compaixão.
Ignorância em
consciência.
Orgulho em humildade.
Fragmentação em unidade.
Talvez
seja por isso que tantas pessoas experimentem uma estranha inquietação.
Sentem que algo precioso
está escondido sob camadas de formalidade.
Como se houvesse uma
fonte esquecida sob o piso do templo.
Como se uma voz antiga
continuasse chamando por trás dos símbolos.
Como se o caminho
original ainda estivesse ali.
Silencioso.
Esperando.
Porque o mistério nunca
desapareceu.
Apenas foi coberto.
A Luz nunca foi extinta.
Apenas foi ocultada.
O sagrado nunca abandonou
o caminho.
Apenas deixou de ser
percebido.
E talvez o grande desafio
do nosso tempo não seja reformar instituições.
Nem defender tradições.
Nem preservar estruturas.
Talvez o verdadeiro
desafio seja recordar.
Recordar por que o
caminho foi criado.
Recordar por que os
símbolos nasceram.
Recordar por que os
antigos falavam de Luz.
Recordar por que a pedra
precisava ser lapidada.
Recordar por que o ser
humano iniciou sua busca.
Porque, no final, toda
tradição autêntica conduz à mesma pergunta.
Uma pergunta anterior aos
templos.
Anterior aos rituais.
Anterior às doutrinas.
Anterior às organizações.
A pergunta que permanece
quando tudo o mais desaparece:
Quem sou eu quando todas as máscaras caem?
E
enquanto essa pergunta permanecer viva, o caminho continuará existindo.
Mesmo que as estruturas o
esqueçam.
Mesmo que os sistemas o
ocultem.
Mesmo que os homens o
transformem em outra coisa.
Porque o verdadeiro
caminho nunca pertenceu às instituições.
Pertence à consciência.
E a consciência sempre
encontrará uma forma de voltar para casa.
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