Merecemos o Sistema que nos Governa?
Por Hiran
de Melo
A pergunta que poucos
ousam fazer é também a mais desconfortável: merecemos o sistema que nos
governa?
É fácil culpar os
políticos. Difícil é admitir que as instituições refletem a cultura que as
sustenta. Nenhum sistema nasce do nada — ele é o espelho ampliado dos valores,
vícios e virtudes de um povo.
A escravidão deixou
marcas que ainda moldam o Brasil.
Não apenas econômicas, mas psicológicas: a lógica do senhor e do subordinado,
do mando e da obediência.
Por isso, ainda
confundimos divergência com ameaça e buscamos líderes como quem busca senhores.
A polarização é apenas o
nome moderno dessa herança — uma guerra de identidades em que a razão cede
lugar à paixão.
Corrupção, autoritarismo
e intolerância não nascem apenas nos gabinetes.
Nascem nas pequenas
concessões cotidianas, na admiração pela força, na incapacidade de ouvir.
As instituições são
espelhos coletivos — refletem o que somos.
O futuro não pertence aos
que gritam mais alto, mas aos que constroem pontes.
Sem pontes, continuaremos
a escolher novos políticos e discursos eleitorais, mas sustentando velhas
práticas.
Quando deixarmos de
discutir quem deve vencer e começarmos a pensar em como fazer a próxima geração
viver melhor, estaremos prontos para mudar o retrato.
Porque todo sistema
político é, em alguma medida, o reflexo moral e cultural da sociedade que o
sustenta.
E se quisermos mudar o
sistema, precisamos primeiro transformar o espelho.
Versão aprofundada
Merecemos
o Sistema que nos Governa?
Por
Hiran de Melo
Há uma pergunta incômoda
que poucos gostam de fazer, porque ela desloca a responsabilidade dos outros
para nós mesmos:
Merecemos o sistema que governa o nosso
país?
A reação imediata costuma
ser de indignação. Afinal, ninguém gosta de associar os próprios defeitos aos
defeitos das instituições. É mais confortável acreditar que existe uma classe
política ruim governando um povo bom. Que os problemas estão sempre "lá em
cima" e nunca "aqui embaixo".
Mas a história raramente
funciona dessa forma.
Instituições não caem do
céu. Elas nascem da cultura. São reflexos ampliados dos valores, dos medos, das
virtudes e dos vícios de uma sociedade.
Recentemente ouvi um
relato sobre a China que me chamou atenção. Não pela política em si, mas pela
lógica cultural que a sustenta. Desde tempos antigos, existe ali a ideia de que
o governante recebe uma espécie de mandato moral para garantir prosperidade ao
povo. A legitimidade não nasce apenas do discurso; nasce da capacidade de
entregar resultados concretos para as próximas gerações.
Por isso, quando alguém
pergunta a muitos chineses sobre ideologias, frequentemente recebe uma resposta
surpreendente: "Minha vida melhorou? A vida dos meus filhos será melhor do
que a minha? Então o sistema está cumprindo seu papel."
Não se trata de concordar
ou discordar. Trata-se de compreender uma mentalidade.
Agora comparemos com o
Brasil.
Aqui, muitas vezes, a
discussão política não gira em torno dos resultados entregues à sociedade, mas
da identidade dos grupos em conflito. O debate deixa de ser sobre o que
funciona e passa a ser sobre quem venceu a batalha simbólica.
E talvez seja nesse ponto
que encontramos uma das raízes mais profundas do nosso problema.
A herança
invisível da escravidão
Quando falamos de
escravidão, normalmente pensamos apenas em suas consequências econômicas. Mas
existe uma herança psicológica muito mais profunda.
A escravidão não produz
apenas desigualdade. Ela produz uma cultura de hierarquias rígidas.
Durante séculos, o Brasil
foi organizado em torno da lógica do senhor e do subordinado. Do mandante e do
obediente. Do grupo dominante e do grupo que deveria se curvar.
Mesmo após o fim formal
da escravidão, muitos dos mecanismos mentais permaneceram vivos.
Mudaram os personagens.
Mudaram os discursos. Mas a estrutura psicológica continuou respirando.
Ainda temos enorme
dificuldade em conviver com a divergência.
Quem pensa diferente não
é apenas alguém que possui outra perspectiva. Frequentemente é tratado como
inimigo, traidor, ignorante ou ameaça.
É como se a sociedade
continuasse procurando um senhor para seguir e um adversário para combater.
A
polarização como herança cultural
Talvez a polarização
ideológica brasileira não seja apenas um fenômeno político.
Talvez seja uma
manifestação moderna de uma velha estrutura mental.
A lógica escravista não
ensinava diálogo. Ensinava submissão ou confronto.
Não ensinava cooperação
entre iguais. Ensinava relações verticais.
Por isso, muitas vezes,
vemos pessoas defendendo líderes políticos com a mesma intensidade emocional
com que torcidas defendem seus times. O líder deixa de ser um servidor público
e se transforma em símbolo de pertencimento.
Quem critica-o não está
criticando uma ideia.
Está atacando uma tribo.
E quando a política se
transforma em guerra tribal, a razão perde espaço para a paixão.
O espelho
que ninguém quer olhar
Talvez a pergunta correta
não seja se merecemos os políticos que temos.
Talvez devêssemos
perguntar:
Que tipo de sociedade
estamos produzindo para que esse tipo de liderança continue surgindo?
Porque corrupção não
nasce apenas nos gabinetes.
Ela nasce quando pequenas
vantagens pessoais são normalizadas.
Autoritarismo não nasce
apenas nos governos.
Ele nasce quando
admiramos a força mais do que a justiça.
Polarização não nasce
apenas nos partidos.
Ela nasce quando perdemos
a capacidade de ouvir.
As instituições são
espelhos coletivos. Refletem aquilo que somos em escala ampliada.
O
verdadeiro mandato
A grande questão é que
nenhum país prospera sustentavelmente quando vive aprisionado em guerras
permanentes entre grupos.
O futuro não pertence aos
que gritam mais alto.
Pertence aos que
conseguem construir pontes.
Enquanto estivermos
discutindo quem deve vencer, continuaremos presos ao passado.
Quando começarmos a
discutir como fazer a próxima geração viver melhor do que a atual, talvez
estejamos finalmente olhando para o futuro.
E então a pergunta
deixará de ser se merecemos o sistema que nos governa.
Porque teremos
compreendido algo muito mais importante: todo sistema político é, em alguma
medida, o retrato moral e cultural da sociedade que o sustenta.
Se quisermos mudar o retrato, precisamos primeiro transformar o espelho.
Verdades!
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