Democracia e Fascismo no Brasil de Hoje
Por Hiran de Melo
“A questão central não é quem governa.
É para quem se governa.
Não é quem possui o poder.
É como esse poder é distribuído.”
Existe
uma pergunta que ronda o Brasil como um espectro que ninguém consegue expulsar
completamente:
Estamos vivendo uma democracia ou apenas
habitando a aparência dela?
A
resposta não é simples.
As
democracias modernas aprenderam a aperfeiçoar uma arte sofisticada: a
capacidade de preservar os rituais da liberdade enquanto esvaziam
silenciosamente seu conteúdo.
As
eleições continuam acontecendo.
Os
partidos continuam existindo.
Os
discursos continuam sendo pronunciados.
As
bandeiras continuam tremulando.
Mas,
por trás da paisagem institucional, algo inquietante cresce como uma sombra que
avança ao entardecer.
O fascismo.
Não
necessariamente o fascismo clássico das marchas militares, dos uniformes ou dos
ditadores que ocupam os palácios.
Mas
um fascismo mais sutil.
Mais
moderno.
Mais
eficiente.
Um
fascismo social.
Talvez
o maior dilema do Brasil contemporâneo seja justamente este: convivemos com direitos formalmente garantidos enquanto
milhões de pessoas permanecem excluídas da possibilidade real de exercê-los.
A
Constituição promete.
A
realidade nega.
A
lei reconhece.
A
estrutura impede.
O
cidadão existe no papel.
Mas
desaparece na prática.
A
democracia torna-se então uma espécie de fotografia bonita colocada sobre uma
parede rachada.
O
problema não está apenas no Estado.
Está
espalhado por toda a sociedade.
Está
nas relações econômicas.
Nas
relações raciais.
Nas
relações de gênero.
Nas
estruturas de poder que atravessam a vida cotidiana.
Quando
alguém precisa aceitar qualquer condição de trabalho para sobreviver, a
liberdade torna-se uma palavra abstrata.
Quando
uma mulher teme voltar para casa à noite, a cidadania perde parte de seu
significado.
Quando
um jovem negro é visto antes como suspeito do que como cidadão, a igualdade
transforma-se em ficção.
Quando
comunidades indígenas precisam lutar continuamente pelo direito de existir, a
democracia revela seus limites mais profundos.
Não
estamos diante apenas de problemas isolados.
Estamos
diante de sintomas.
Sintomas
de uma sociedade que ainda não resolveu suas contradições fundamentais.
O
Brasil carrega uma herança colonial que nunca foi totalmente superada.
A
escravidão terminou juridicamente.
Mas
muitas de suas estruturas psicológicas, econômicas e culturais continuam
respirando entre nós.
Mudaram
os nomes.
Mudaram
as roupas.
Mudaram
os discursos.
Mas
muitas hierarquias permaneceram intactas.
Talvez
por isso a democracia brasileira viva permanentemente em estado de tensão.
Ela
avança.
Mas
não consegue romper completamente com o passado.
Ela
amplia direitos.
Mas
conserva privilégios.
Ela
proclama igualdade.
Mas
preserva abismos.
O
resultado é uma sociedade que oscila entre esperança e ressentimento.
Entre
inclusão e exclusão.
Entre
cidadania e abandono.
E
nesse terreno fértil surgem os discursos autoritários.
Porque
o autoritarismo raramente nasce da força.
Ele
nasce do medo.
Nasce
da insegurança.
Nasce
da sensação de que as instituições deixaram de responder às angústias reais da
população.
Quando
as pessoas perdem a confiança na democracia, começam a desejar salvadores.
Quando
deixam de acreditar na política, passam a acreditar em líderes providenciais.
Quando
a complexidade cansa, as soluções simples seduzem.
É
nesse momento que o fascismo encontra espaço para florescer.
Ele
oferece certezas em um mundo incerto.
Oferece
culpados para problemas complexos.
Oferece
ordem onde existe ansiedade.
Oferece
identidade onde existe vazio.
Mas
seu preço sempre é o mesmo.
A
liberdade.
A
história já mostrou isso inúmeras vezes.
O
fascismo promete proteger a sociedade.
Mas
termina por aprisioná-la.
Promete
restaurar a dignidade.
Mas
alimenta a exclusão.
Promete
resolver conflitos.
Mas
multiplica inimigos.
O
dilema brasileiro não é escolher entre direita e esquerda.
Essa
simplificação empobrece a realidade.
O
verdadeiro dilema é decidir se queremos aprofundar a democracia ou apenas
utilizá-la como decoração institucional.
A
questão central não é quem governa.
É
para quem se governa.
Não
é quem possui o poder.
É
como esse poder é distribuído.
Não
é apenas o crescimento econômico.
É
quem participa dos frutos desse crescimento.
A
democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas.
Ela
também enfraquece quando cidadãos perdem a esperança.
Quando
a desigualdade se naturaliza.
Quando
a exclusão se torna rotina.
Quando
a dignidade humana passa a ser negociável.
Por
isso, o futuro do Brasil não depende apenas de eleições.
Depende
da capacidade coletiva de transformar direitos formais em experiências
concretas.
Depende
de construir uma sociedade em que a cidadania não seja privilégio de alguns.
Depende
de reconhecer que liberdade sem justiça social se torna privilégio.
E
que justiça sem liberdade se transforma em opressão.
Talvez
a grande pergunta do nosso tempo não seja se a democracia sobreviverá.
Talvez
a pergunta seja outra:
Seremos
capazes de dar a ela profundidade suficiente para que sobreviva dentro de nós?
Porque
toda democracia verdadeira começa muito antes das urnas.
Ela
nasce no reconhecimento da humanidade do outro.
E
morre exatamente quando esse reconhecimento desaparece.
Referência
Entrevista
com Boaventura de Sousa Santos
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