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  A Política na Polis O Peso do Amanhã Quando o desconforto deixa de ser pessoal e se transforma em preocupação com o destino coletivo Por Hiran de Melo Há momentos em que o desconforto não nasce de uma dor que nos pertence, mas daquilo que tememos que venha a acontecer com os outros. Não sofremos apenas pelo que a vida nos tira, mas também pelo que ela poderá negar àqueles que ainda estão aprendendo a viver. Confesso que, às vezes, o futuro me pesa. Não exatamente pelo que poderá acontecer comigo, mas pelo que determinadas escolhas políticas poderão representar para as gerações que virão. Assusta-me pensar que conquistas alcançadas com tanto esforço possam ser ameaçadas pela intolerância, pelo culto às armas, pela violência exercida em nome da autoridade e pela possibilidade de que o poder se coloque acima da lei . Não é o medo de perder o que tenho. É o receio de que outros percam aquilo que deveriam ter o direito de conquistar. Tive oportunidades que me permitir...
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  A Política na Polis O Barco, o Porto e Escolha Política Sobre o sonho que divide o voto e a necessidade que o reúne Por Hiran de Melo Existe uma pergunta que as urnas fazem sem pronunciar: o que você chama de uma vida melhor? Dizem que o Brasil se divide entre ricos e pobres, entre católicos e evangélicos. Talvez a fenda seja outra, mais íntima, e passe por dentro de cada casa. De um lado, quem sonha com chão firme: a carteira assinada, o décimo terceiro, o salário que cai no dia certo. Do outro, quem sonha com mar aberto: o próprio negócio, a hora marcada por si mesmo, o ganho que não se divide com patrão. Um quer porto. O outro quer barco. O mar que chama os jovens Os mais jovens olham a água e sentem o vento. A moto, o celular, a plataforma de entrega: chamam isso de liberdade, e há algo de verdadeiro e de belo nesse chamado. Ninguém quer passar a vida inteira obedecendo ao relógio de outro. Mas os mais velhos olham o mesmo mar e sentem outra coisa. Também os...
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  POEMAS Quando a alma reconhece o caminho de volta Entre a saudade, a escuta e a delicadeza de existir Por Hiran de Melo Regresso Sempre que venho cá Algo tenho a escutar Estórias, histórias Noites de muito luar Momento único, singular Regresso, encanto, saudade Sonhos a desejar Instantes, leveza Vidas a contemplar. Cecília Nóbrega 22/10/26 Há regressos que começam muito antes de chegarmos ao destino. Nascem de uma lembrança, de uma saudade que insiste em permanecer ou da necessidade silenciosa de reencontrar algo que, embora distante, continua fazendo parte de nós. No poema Regresso , Cecília Nóbrega nos conduz por esse caminho delicado, no qual voltar não significa apenas chegar a um lugar, mas reabrir-se às experiências que dão sentido à existência. “ Sempre que venho cá Algo tenho a escutar ” A poetisa não afirma que vem para falar, ensinar ou contar suas próprias experiências. Vem para escutar. Essa escolha, aparentemente simples, revela uma...
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    A Política na Polis A PRODUÇÃO DE CONSUMIDORES, NÃO DE CIDADÃOS Quando o mercado ocupa o lugar da consciência e o privilégio se disfarça de mérito Por Hiran de Melo Existe um instante que merece todo o respeito: aquele em que alguém, pela primeira vez, atravessa a porta da loja e sai de lá com a sacola nas mãos. Combater a miséria é uma necessidade humana. E esse instante é parte da vitória. Mas poder comprar não é o mesmo que ser livre. O consumidor é reconhecido pelo mercado enquanto pode pagar. O cidadão precisa ser reconhecido pela dignidade que tem, qualquer que seja a renda, a cor da pele ou a origem da família. A abolição encerrou uma instituição, mas não repartiu terra, escola nem oportunidade. A liberdade chegou antes das condições de exercê-la. E o passado, que nunca ficou só nos livros, continuou na distribuição da riqueza e no modo como julgamos os pobres. É assim que o privilégio se torna invisível para quem o herdou. O que veio de berço passa ...