A Política na Polis
A
PRODUÇÃO DE CONSUMIDORES, NÃO DE CIDADÃOS
Quando
o mercado ocupa o lugar da consciência e o privilégio se disfarça de mérito
Por
Hiran de Melo
Existe
um instante que merece todo o respeito: aquele em que alguém, pela primeira
vez, atravessa a porta da loja e sai de lá com a sacola nas mãos.
Combater
a miséria é uma necessidade humana. E esse instante é parte da vitória.
Mas
poder comprar não é o mesmo que ser livre.
O
consumidor é reconhecido pelo mercado enquanto pode pagar. O cidadão precisa
ser reconhecido pela dignidade que tem, qualquer que seja a renda, a cor da
pele ou a origem da família.
A
abolição encerrou uma instituição, mas não repartiu terra, escola nem
oportunidade. A liberdade chegou antes das condições de exercê-la. E o passado,
que nunca ficou só nos livros, continuou na distribuição da riqueza e no modo
como julgamos os pobres.
É
assim que o privilégio se torna invisível para quem o herdou. O que veio de
berço passa a se chamar mérito. O que foi negado ao outro passa a se chamar
preguiça.
Talvez
por isso alguém que conhece a insegurança do trabalho e o aperto das contas
possa enxergar no mais pobre um adversário. Quando o pouco que se tem vira
sinal de superioridade, a pessoa deixa de se ver como parte de um
"nós" e passa a disputar espaço com quem está um degrau abaixo.
Enquanto
os de baixo disputam reconhecimento entre si, as estruturas que concentram
riqueza e poder seguem fora de questão.
O
erro não está em reconhecer o mérito. Está em usá-lo para apagar a história.
Por
isso o Brasil não precisa escolher entre combater a miséria e formar cidadãos.
Uma tarefa fica incompleta sem a outra.
Há
duas portas. A da loja, muitos já atravessaram. A outra, a que se abre para a
consciência, a educação crítica e a participação democrática, ainda espera.
O
mercado reconhece quem compra. Só a cidadania reconhece quem é.
ANEXO – versão expandida e aprofundada
A
PRODUÇÃO DE CONSUMIDORES, NÃO DE CIDADÃOS
Quando
o mercado ocupa o lugar da consciência e o privilégio se disfarça de mérito
Por
Hiran de Melo
Combater
a miséria é uma necessidade humana. Mas existe uma diferença profunda entre
permitir que alguém compre aquilo de que precisa e oferecer-lhe as condições
para viver com dignidade, liberdade e consciência dos próprios direitos. Uma
sociedade pode ampliar o acesso ao consumo sem superar as estruturas que mantêm
milhões de pessoas distantes da cidadania plena.
O
Brasil avançou no combate à pobreza, especialmente quando políticas públicas
ampliaram a renda e permitiram que famílias historicamente excluídas chegassem
à mesa, ao comércio e a espaços de consumo antes inacessíveis. Esse avanço tem
valor e não deve ser desprezado. Entretanto, a inclusão pelo consumo, embora
necessária, não é suficiente para romper as correntes invisíveis de uma
história construída sobre a escravidão, o privilégio e a desigualdade.
O
problema começa quando confundimos poder de compra com liberdade.
O
consumidor é reconhecido pelo mercado na medida em que pode comprar. O cidadão,
porém, deve ser reconhecido pela dignidade que possui, independentemente de sua
renda, da cor da pele, da origem familiar ou da posição que ocupa na sociedade.
O primeiro interessa à economia como participante do mercado; o segundo precisa
ser respeitado como sujeito de direitos, capaz de compreender a realidade,
participar das decisões coletivas e questionar as estruturas que condicionam
sua existência.
Uma
sociedade que amplia o número de consumidores sem fortalecer a consciência
cidadã corre o risco de oferecer novas mercadorias a pessoas que continuam
submetidas às antigas formas de dominação.
A
escravidão que sobreviveu à liberdade
A
abolição da escravidão encerrou juridicamente uma das mais vergonhosas
instituições da nossa história, mas não distribuiu, por si só, terras,
educação, oportunidades e condições materiais para que os antigos escravizados
reconstruíssem suas vidas em igualdade com os demais brasileiros.
Enquanto
imigrantes europeus pobres encontraram, em diferentes regiões e circunstâncias,
oportunidades de trabalho, acesso à terra e possibilidades de ascensão social,
a população negra liberta foi, em larga medida, abandonada à própria sorte. Não
se tratava de uma diferença natural de capacidade, mas de condições históricas
profundamente desiguais.
A
liberdade chegou antes das condições necessárias para exercê-la.
Assim,
o passado não permaneceu apenas nos livros de história. Continuou presente na
distribuição da riqueza, nas oportunidades educacionais, nas relações de
trabalho e na maneira como a sociedade passou a julgar os próprios pobres. A
desigualdade material encontrou abrigo nos costumes, nos preconceitos e nas
explicações morais que atribuem ao indivíduo toda a responsabilidade por sua
condição.
É
dessa maneira que o privilégio se torna invisível para quem dele desfruta.
Aquilo que foi herdado passa a ser apresentado como conquista exclusivamente
pessoal. E aquilo que foi negado a outros transforma-se, convenientemente, em
prova de sua suposta incapacidade.
A
história desaparece da explicação, e o resultado da desigualdade passa a ser
confundido com a causa dela.
O
pobre que combate a pobreza no lugar errado
É
nesse terreno que podemos compreender o fenômeno do chamado pobre de direita,
expressão popularizada no debate brasileiro, entre outros, pelo sociólogo Jessé
Souza.
Não
se trata de afirmar que todo cidadão pobre deve pensar de determinada maneira
ou que suas escolhas políticas sejam inválidas. A democracia pressupõe
justamente a liberdade de cada pessoa escolher seus representantes e defender
suas convicções. O que merece reflexão é a contradição que surge quando alguém,
mesmo submetido às mesmas dificuldades de sua classe social, passa a enxergar
no mais pobre um adversário e nas políticas de proteção social uma recompensa à
preguiça.
Por
que alguém que conhece a insegurança do trabalho, a dificuldade de pagar as
contas e o peso da falta de oportunidades pode passar a defender uma visão de
mundo que desconsidera essas mesmas dificuldades quando atingem outras pessoas?
Uma
das respostas está na necessidade humana de encontrar reconhecimento. Mesmo
dispondo de poucos recursos, alguém pode construir sua identidade a partir
daquilo que o diferencia de quem está em situação ainda pior. O pequeno
patrimônio, o emprego conquistado, a possibilidade de pagar uma prestação ou a
capacidade de consumir determinados produtos tornam-se sinais de superioridade.
A
pessoa deixa de se perceber como parte de uma coletividade submetida a
problemas semelhantes e passa a se distinguir daqueles que considera
inferiores.
O
raciocínio é perverso: se consegui alguma coisa, foi exclusivamente por meu
esforço; se o outro não conseguiu, a culpa é exclusivamente dele.
Desaparecem
as diferenças de origem, as oportunidades desiguais, as redes de proteção, a
qualidade da educação e as condições concretas em que cada um precisou lutar
pela sobrevivência. O mérito individual, que pode ser real e merece
reconhecimento, transforma-se numa explicação absoluta, incapaz de enxergar
tudo aquilo que tornou possível a própria conquista.
O problema não está em reconhecer o mérito, mas em utilizá-lo
para negar a realidade e justificar a desigualdade.
É
assim que a vítima de uma estrutura injusta pode acabar defendendo os valores
que ajudam a perpetuá-la. Em vez de questionar por que alguns concentram tantas
oportunidades enquanto outros permanecem privados delas, passa a disputar com
os que estão logo abaixo na escala social.
A
desigualdade deixa de ser percebida como problema coletivo e converte-se numa
competição entre os que têm pouco e os que quase nada têm.
A
elite do atraso e a fabricação do imaginário
Em
suas reflexões sobre a sociedade brasileira, Jessé Souza chama a atenção para o
papel das elites na formação de valores que naturalizam privilégios e escondem
os mecanismos históricos de sua reprodução.
A
dominação não se sustenta apenas pela posse da riqueza. Também precisa de
ideias, hábitos, sentimentos e explicações que façam a ordem existente parecer
justa, natural ou inevitável.
Não
é necessário impedir alguém de pensar para limitar sua liberdade. Às vezes,
basta oferecer-lhe uma interpretação do mundo na qual seus próprios interesses
aparecem como se fossem os interesses de todos, enquanto a defesa dos direitos
alheios é apresentada como ameaça ao seu esforço pessoal.
Quando
o discurso público transforma o pobre em responsável pela própria pobreza, o
debate sobre as estruturas sociais perde espaço. Quando os direitos
trabalhistas são apresentados apenas como obstáculos ao empreendedorismo, ou a
proteção social é tratada como prêmio à ociosidade, a sociedade deixa de
discutir os limites da exploração e passa a julgar moralmente quem sofre seus
efeitos.
O
trabalhador aprende a desconfiar do trabalhador. O desempregado passa a ser
visto como culpado por não encontrar emprego. A família que recebe auxílio é
acusada de viver às custas de quem trabalha, mesmo quando a precariedade do
trabalho e os baixos salários também fazem parte do problema.
Enquanto
os de baixo disputam reconhecimento entre si, as estruturas que concentram
riqueza e poder podem permanecer fora do campo de questionamento.
Não
é preciso imaginar uma conspiração organizada para compreender esse fenômeno.
Basta perceber que certas ideias favorecem determinados interesses, sobretudo
quando são repetidas até parecerem verdades evidentes.
Quando
o mercado educa e a cidadania se enfraquece
O
capitalismo contemporâneo não vende apenas mercadorias. Também oferece modelos
de sucesso, padrões de felicidade e imagens de reconhecimento social. Somos
continuamente convidados a demonstrar nosso valor por aquilo que possuímos,
vestimos, exibimos e conseguimos comprar.
Nesse
ambiente, o consumo deixa de atender apenas às necessidades da vida e passa a
funcionar como instrumento de identidade. A pessoa já não deseja somente ter
acesso a determinados bens; deseja ser reconhecida pelo que esses bens
simbolizam.
O
mercado promete pertencimento, mas esse pertencimento depende da capacidade de
continuar comprando. O reconhecimento torna-se provisório, condicionado e
sujeito à comparação permanente com os outros.
A
cidadania, ao contrário, exige que reconheçamos algo que o mercado não pode
conceder nem retirar: o valor humano de cada pessoa.
Por
isso, a ampliação do consumo precisa ser acompanhada de educação crítica,
formação política, acesso à cultura, fortalecimento das instituições
democráticas e condições dignas de trabalho. Sem essas conquistas, o indivíduo
pode adquirir novos produtos sem desenvolver maior autonomia para compreender
os mecanismos que influenciam sua vida.
É
nesse contexto que a discussão proposta por Jessé Souza em Por que a
esquerda morreu? ganha relevância. A pergunta não precisa ser entendida
como anúncio literal do desaparecimento de uma corrente política, mas como
provocação sobre as dificuldades das forças populares para compreender as
transformações do capitalismo e construir respostas capazes de defender os
interesses de quem vive do próprio trabalho.
Se
as formas de exploração se transformam, as formas de resistência também
precisam se renovar. Não basta repetir palavras de ordem, confiar na memória
das conquistas passadas ou imaginar que a melhoria da renda produzirá,
automaticamente, consciência política.
A
defesa dos interesses populares exige compreender como a economia, a cultura,
os meios de comunicação, as redes sociais e as aspirações individuais
participam da formação das convicções políticas.
Uma
política verdadeiramente emancipadora não pode tratar os trabalhadores e os
pobres como simples destinatários de benefícios, nem supor que a melhoria de
suas condições materiais seja suficiente para assegurar sua adesão a um projeto
de justiça social. Precisa reconhecê-los como sujeitos capazes de pensar,
discordar, decidir e participar da construção do próprio futuro.
O
desafio de formar cidadãos livres
Uma
democracia não se fortalece apenas quando mais pessoas conseguem comprar.
Fortalece-se quando elas compreendem que seus direitos não são favores
concedidos por governantes, mas conquistas que devem ser preservadas e
ampliadas.
O
auxílio que combate a fome é necessário. O emprego que assegura renda é
indispensável. A educação que abre caminhos é fundamental. Mas precisamos ir
além da sobrevivência e do consumo: é necessário criar condições para que cada
pessoa compreenda a sociedade em que vive e participe de sua transformação.
Isso
significa reconhecer que o destino individual também é atravessado por
circunstâncias coletivas. Significa compreender que o sucesso de alguém não
precisa depender do fracasso de outro e que a dignidade de quem possui menos
não diminui a dignidade de quem conseguiu mais.
A
verdadeira liberdade não consiste apenas em escolher o que comprar, mas também
em compreender por que desejamos comprar, quais interesses orientam nossas
escolhas e quais condições sociais limitam nossas possibilidades.
É
preciso superar tanto a ideia de que o indivíduo nada pode fazer diante das
estruturas quanto a crença de que tudo depende exclusivamente de sua vontade.
Entre esses extremos existe o espaço da responsabilidade pessoal, da
solidariedade e da ação política coletiva.
Uma
reflexão que também nos alcança
Talvez
a questão mais incômoda seja perceber que ninguém está inteiramente livre das
contradições que critica.
Quantas
vezes confundimos nossas conquistas com superioridade moral? Quantas vezes
julgamos quem recebe ajuda sem conhecer sua história? Quantas vezes defendemos
direitos quando nos beneficiam, mas os consideramos privilégios quando alcançam
pessoas diferentes de nós?
A
pedra bruta que precisamos desbastar não está somente nas estruturas externas.
Está também nos preconceitos que incorporamos, nas certezas que nunca
examinamos e na dificuldade de reconhecer a parcela de história coletiva
presente em nossas conquistas individuais.
Isso
não significa renunciar ao esforço, à disciplina ou à responsabilidade pessoal.
Significa compreender que nenhuma dessas virtudes autoriza alguém a humilhar
quem teve menos oportunidades.
Uma
sociedade justa não elimina as diferenças entre as pessoas. Procura impedir que
essas diferenças se transformem em condenações permanentes, transmitidas de
geração em geração.
A
cidadania começa quando deixamos de perguntar apenas o que podemos conquistar
para nós e passamos a considerar quais condições devem existir para que todos
possam viver com dignidade.
O Brasil não precisa escolher entre combater a miséria e formar
cidadãos. Precisa compreender que uma tarefa permanece incompleta sem a outra.
Se
o combate à pobreza abre as portas do mercado, a educação crítica, a justiça
social e a participação democrática precisam abrir os caminhos da liberdade.
Caso
contrário, corremos o risco de construir uma sociedade na qual milhões de
pessoas tenham conquistado o direito de consumir sem conquistar, na mesma
medida, as condições para questionar, decidir e transformar a realidade.
O
desafio não é produzir pobres que desejem ser ricos a qualquer preço, nem
consumidores que confundam o valor da vida com o preço das coisas. É formar
cidadãos capazes de reconhecer o próprio valor sem precisar diminuir o valor de
ninguém.
Porque
a emancipação humana começa quando compreendemos que a grandeza de uma
pessoa não está na distância que conseguiu estabelecer entre si e os mais
pobres, mas na capacidade de construir um mundo em
que a pobreza deixe de ser destino e a dignidade não seja privilégio.


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