A Estética do Instante e o Fluxo do Tempo
Por Hiran de Melo
A
vida, em sua pureza mais cristalina, revela-se como uma melodia que se desdobra
no silêncio do tempo. É impossível aprisionar uma nota sem interromper o
encanto, pois a beleza não habita a posse, mas a passagem — o eterno fluir do
rio que não se repete. O que chamamos de "permanente" não é o que se
petrifica em formas rígidas, mas a poesia sutil que, como um fio invisível,
costura os fragmentos do cotidiano.
Ø
O Agora como Altar: O amanhã não é uma
ilha distante no horizonte, mas a ressonância profunda de tudo o que tocamos
hoje. Viver é o ato de compor uma música que só existe enquanto pulsa; se não
abraçarmos a vibração do presente, perderemos o compasso da própria alma.
O Amor como Harmonia Fundamental
O
amor não é uma construção do artífice, mas um elemento primordial da natureza.
Ele assemelha-se ao vento que sopra onde quer e à luz que banha as colinas: não
exige esforço para ser fabricado, apenas a sagrada disposição de se deixar
atravessar.
Ø
O medo é o frio que enrijece os dedos
sobre as cordas do instrumento, o amor é a fluidez que permite a execução
perfeita. Ele se manifesta como uma "graça" — um dom imerecido que
preenche os vácuos entre as gentes e as coisas, transformando a distância em
encontro.
Ø
O afeto verdadeiro dispensa engenharia e
arquiteturas complexas. Ele floresce no desarmamento, na aceitação mansa do
outro e do mundo, sem as muralhas das "inimagináveis permissões" que
o ego costuma erguer.
A Poesia do Cotidiano
A
radicalidade desta existência repousa na renúncia ao peso da busca e na adoção
da leveza do acolhimento. As flores não clamam por exegese; elas apenas
oferecem seu perfume ao efêmero, convidando-nos ao sentir antes do pensar.
Ø
Ao fim de tudo, resta a compreensão de que
a vida não é um roteiro disposto em prateleiras de ilusões, mas uma experiência
a ser sentida na pele e no sangue. É preciso a coragem de quem reconhece que o
amor é a única nota capaz de harmonizar o caos e transformar o ruído em
sinfonia.
Por essas e outras
Existir
é o exercício contínuo de converter o tempo em abraço. O sentido da jornada não
repousa no que edificamos com o suor da angústia, mas naquilo que permitimos
entrar por nossas janelas abertas: a claridade do sol, a presença do outro e a
absoluta gratuidade de um afeto que nos banha, límpido e generoso, sem nada
exigir em troca.
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