A Política na Polis


O Barco, o Porto e Escolha Política

Sobre o sonho que divide o voto e a necessidade que o reúne

Por Hiran de Melo

Existe uma pergunta que as urnas fazem sem pronunciar: o que você chama de uma vida melhor?

Dizem que o Brasil se divide entre ricos e pobres, entre católicos e evangélicos. Talvez a fenda seja outra, mais íntima, e passe por dentro de cada casa. De um lado, quem sonha com chão firme: a carteira assinada, o décimo terceiro, o salário que cai no dia certo. Do outro, quem sonha com mar aberto: o próprio negócio, a hora marcada por si mesmo, o ganho que não se divide com patrão.

Um quer porto.

O outro quer barco.

O mar que chama os jovens

Os mais jovens olham a água e sentem o vento. A moto, o celular, a plataforma de entrega: chamam isso de liberdade, e há algo de verdadeiro e de belo nesse chamado. Ninguém quer passar a vida inteira obedecendo ao relógio de outro.

Mas os mais velhos olham o mesmo mar e sentem outra coisa. Também os mais pobres, aqueles que dependem de uma transferência de renda para que a mesa não fique vazia e a quem a revolução do trabalho nunca chegou à porta. Eles sabem quanto custa uma onda. Já viram barcos virarem. Querem porto.

E as urnas, quando perguntam em quem cada um confia para governar, repetem o desenho. Quem sonha com o barco tende a votar à direita. Quem sonha com o porto tende a votar à esquerda. Tendência, não destino.

O vento que é de verdade

Há quem pense diferente, e convém ouvi-lo com respeito.

Dirá que o desejo de autonomia é genuíno. Que não nasce só do aperto, não é mero reflexo de precariedade. Que existe gente que, mesmo com o porto à vista, escolheria zarpar: porque quer o leme na própria mão, porque quer que o esforço de hoje vire patrimônio seu e não de outro, porque descobriu no ofício, no balcão ou na bancada, um modo de ser inteiro.

Dirá ainda que o porto, no Brasil, cobra caro para quem quer atracar. Que o custo de contratar pesa sobre quem emprega, que a burocracia cansa quem tenta se formalizar, e que muita gente não foge da carteira por desprezá-la, mas porque a carteira, para eles, custa demais ou nunca chega. O pequeno que vira barco, nesse olhar, às vezes está apenas procurando uma porta que não encontrou.

Talvez haja verdade nas duas leituras. O vento que chama é real. E a cancela do cais, muitas vezes, também está emperrada.

A canoa e o transatlântico

Existe, porém, uma confusão antiga vestida de roupa nova. Chamamos de empresário quem rema em canoa alheia. O entregador não é dono de frota. É um trabalhador autônomo, sozinho, sem armador, sem seguro, sem ninguém que o espere no cais.

O grande empresário navega em transatlântico. Tem colete, bote, rede de apoio. Quando afunda, desce de paraquedas e, não raro, sai numa boa.

O pequeno afunda de outro jeito.

Sai sem crédito.

Sai devendo.

Um naufraga e vira notícia. O outro naufraga e vira dívida.

Mesmo quem escolheu o mar com plena liberdade merece colete. A escolha livre não torna a tempestade mais leve.

A tempestade que não avisa

Então o corpo adoece. E o corpo, para o pequeno empreendedor, não é só carne: é o motor do barco inteiro. Quando ele não pode trabalhar, a renda para. E chega a pergunta que ninguém escolheu fazer: SUS ou plano de saúde particular?

Quem tem renda e estabilidade costuma recorrer ao plano. Quem não tem depende, inteiramente, da rede pública. O SUS foi concebido para acolher todos, e isso, por si só, já é um modo de dizer a cada brasileiro: você não está sozinho no mar.

Imagine um país sem esse porto. Os Estados Unidos, onde não existe estrutura pública equivalente, mostram quanto a tempestade pode ser mais cruel quando o doente também é o devedor. Aqui, ainda há cais. Imperfeito, sobrecarregado, mas há. E há quem lembre que, no governo federal anterior, de direita, parte dessas redes de amparo foi deixada à míngua, ou mantida de forma precária.

O que a eleição mede

Talvez, no fundo, a eleição meça menos o sonho do que a consciência do risco.

De um lado, quem percebe o perigo de políticas públicas que servem aos mais poderosos em vez de servir ao público. Do outro, quem ainda não percebeu. Não por falta de inteligência, mas porque a tempestade ainda não bateu à sua porta, ou porque a bonança dura tanto que parece destino. Ou porque, para quem sonha em navegar, o maior perigo parece ser o Estado que pesa, e não o mar que vira.

A consciência do risco costuma chegar tarde. Chega junto com a febre, com a conta, com a porta do banco que se fecha.

O cais de onde se parte

Barco e porto não são inimigos.

Nenhum barco navega sem um cais de onde partir e para onde voltar. Nenhum porto existe senão para que barcos partam. A polarização grita que é preciso escolher um dos dois. A vida, em voz baixa, diz outra coisa: quem sonha navegar precisa de porto, e quem busca o porto também carrega um mar dentro de si.

E um porto que cobra pedágio demais e demora a abrir a cancela acaba empurrando para o mar até quem preferia ficar. Cabe a quem governa, de qualquer lado, construir um cais que acolha sem sufocar e uma liberdade que parta sem naufragar sozinha.

Isso acontece em você, hoje, diante da urna. A pergunta que ela faz não é se você prefere o barco ou o porto. É que mar você aceita que os outros atravessem sem cais.

A liberdade de navegar só é de todos quando o porto também é.

ANEXO A

Duas observações rápidas sobre a base do texto. A divisão descrita aparece numa pesquisa Meio/Ideia divulgada em 21 de outubro: entre quem quer carteira assinada, 65,4% declaram voto em Lula; entre quem quer negócio próprio, 62,3% preferem Flávio Bolsonaro. Mas o quadro geral é mais matizado. Uma pesquisa Datafolha citada pela Fast Company Brasil indica que 67% priorizam o vínculo da CLT mesmo com salário menor, e há levantamentos sobre autônomos e informais em que a maioria também diz preferir a carteira.

ANEXO B

O Barco, o Porto e a Escolha Política – considerações oportunas

Entre a liberdade econômica, a proteção social e o projeto de sociedade

Por Hiran de Melo

Há uma pergunta que as urnas nos fazem em silêncio: o que significa, para cada um de nós, viver melhor?

Talvez o Brasil não esteja dividido apenas entre ricos e pobres, entre crenças ou ideologias. A divisão também atravessa os sonhos que alimentamos e a maneira como compreendemos o papel do Estado, o valor do trabalho e a responsabilidade que temos uns pelos outros.

Há quem deseje segurança: carteira assinada, salário certo, direitos assegurados e alguma tranquilidade diante do amanhã. Há quem prefira a autonomia: trabalhar por conta própria, conduzir o próprio destino e colher para si os resultados do esforço.

Um busca a estabilidade. O outro, a liberdade de escolher.

Ambos procuram uma vida que faça sentido. Mas é justamente aqui que começa a questão política: devemos organizar a sociedade para que cada indivíduo enfrente sozinho os riscos da existência ou para que a liberdade individual seja acompanhada de uma rede de proteção coletiva?

Essa não é uma discussão abstrata. É uma escolha sobre o país que desejamos construir.

O sonho da autonomia

Os mais jovens olham para as possibilidades do mundo e desejam construir o próprio caminho. A motocicleta, o celular e as plataformas digitais parecem anunciar uma liberdade que o emprego tradicional nem sempre oferece.

Há verdade nesse desejo. Ninguém deveria ser condenado a passar a vida inteira submetido à vontade de outro. Empreender, escolher os horários e transformar o trabalho em realização pessoal são aspirações legítimas.

Mas é preciso distinguir a autonomia econômica da simples transferência de responsabilidades.

Quando uma empresa oferece a alguém a possibilidade de trabalhar sem vínculo empregatício, quem ganha liberdade? O trabalhador, que pode organizar sua atividade, ou a empresa, que deixa de assumir parte dos custos e dos riscos associados à contratação?

A resposta depende das condições concretas. Há quem encontre nessa modalidade uma oportunidade real de independência. Há também quem, sem alternativas, aceite a insegurança como preço para continuar trabalhando.

Chamar ambas as situações de empreendedorismo não eliminam a diferença entre elas.

A liberdade não pode ser medida apenas pela ausência de um patrão, mas também pela possibilidade concreta de recusar condições injustas sem perder os meios de sobrevivência.

A liberdade e o preço da sobrevivência

Seria injusto imaginar que todo trabalhador autônomo deseja, no fundo, um emprego com carteira assinada. Há quem escolha conscientemente a independência, mesmo conhecendo seus riscos. O pequeno comércio, a oficina e a prestação de serviços podem representar projetos legítimos de realização pessoal.

Também seria injusto ignorar as dificuldades de quem tenta empreender: burocracia, crédito caro, custos de formalização e obrigações que pesam proporcionalmente mais sobre os pequenos negócios.

O Estado precisa enfrentar esses obstáculos. Simplificar procedimentos, facilitar o acesso ao crédito e criar condições para que os pequenos empreendimentos prosperem são medidas compatíveis com a proteção social.

Mas reduzir custos para quem empreende não exige retirar direitos de quem trabalha.

Eis uma distinção política fundamental: uma coisa é combater os obstáculos que impedem a iniciativa econômica; outra é tornar o trabalhador mais vulnerável para que a atividade empresarial se torne menos onerosa.

Uma política pública responsável precisa perguntar quem se beneficia, quem paga a conta e quais consequências recaem sobre aqueles que dispõem de menos recursos para se defender.

Não basta proclamar liberdade. É preciso examinar as condições em que ela pode ser exercida.

O mérito e a desigualdade de oportunidades

Existe outra confusão que merece ser desfeita: considerar equivalentes todos aqueles que trabalham por conta própria e, por extensão, imaginar que seus interesses são necessariamente os mesmos dos grandes empresários.

O entregador que depende de uma plataforma não possui o mesmo poder econômico de quem controla a plataforma. O pequeno comerciante não dispõe necessariamente das reservas de uma grande organização. Ambos podem assumir riscos, mas não contam com os mesmos meios para enfrentá-los.

Quando os negócios prosperam, os ganhos podem ser muito diferentes. Quando fracassam, também são diferentes as consequências.

O pequeno pode comprometer as economias da família e terminar endividado. Uma grande organização, embora também sujeita ao fracasso, pode dispor de reservas, crédito e mecanismos de recuperação inacessíveis à maioria dos trabalhadores.

Reconhecer essa desigualdade não significa condenar o empresário, negar o mérito ou alimentar a hostilidade entre classes. Significa compreender que o mercado não distribui oportunidades de maneira igual e que o esforço individual, por si só, não explica todos os resultados.

Quem começa com patrimônio, formação, contatos e acesso ao crédito não enfrenta as mesmas dificuldades de quem começa sem recursos.

O mérito existe, mas não transforma privilégios de partida em conquistas exclusivamente individuais, nem converte a pobreza em prova de incapacidade.

É por isso que a política importa. As regras tributárias, trabalhistas, educacionais e econômicas ajudam a definir como as oportunidades e os riscos são distribuídos na sociedade.

O debate não deveria ser entre premiar o esforço e proteger os vulneráveis. Deveria ser sobre como reconhecer o esforço sem perpetuar desigualdades que impedem milhões de pessoas de desenvolver suas capacidades.

O Estado que protege e o Estado que pesa

Aqui se encontra uma das principais divergências políticas do nosso tempo.

Há correntes que enfatizam a liberdade de mercado, a redução da intervenção estatal e a responsabilidade individual. Outras atribuem maior importância à proteção trabalhista, aos serviços públicos e às políticas de redução das desigualdades.

Essas diferenças não se resumem a uma disputa entre pessoas boas e más, nem autorizam a atribuir as mesmas intenções a todos os que defendem cada posição.

O Estado pode burocratizar, desperdiçar recursos, cobrar impostos de maneira injusta e dificultar a atividade produtiva. Precisa, portanto, ser fiscalizado, reformado e obrigado a prestar contas.

Mas o mercado também pode concentrar poder, precarizar relações de trabalho e deixar necessidades essenciais sem atendimento quando elas não oferecem retorno financeiro suficiente.

A pergunta decisiva não é se o Estado deve existir ou desaparecer. É a quem suas instituições servem, quais direitos asseguram e como distribuem os custos e os benefícios da vida coletiva.

Quando o poder público reduz a proteção de quem tem pouco, mas preserva vantagens de quem tem muito, não está simplesmente se retirando da economia. Está fazendo uma escolha sobre quem deve suportar os riscos.

Da mesma forma, quando amplia direitos sem considerar a sustentabilidade financeira, a eficiência dos serviços e os efeitos das políticas adotadas, pode comprometer os próprios objetivos que pretende alcançar.

O desafio democrático é construir um Estado capaz de proteger direitos, corrigir desigualdades e favorecer a iniciativa econômica, sem se transformar em instrumento de privilégios, desperdício ou dependência política.

A doença e o limite da responsabilidade individual

A doença revela, com especial clareza, os limites de uma sociedade que atribui ao indivíduo toda a responsabilidade por seu destino.

O trabalhador adoece e precisa interromper a atividade. A renda diminui ou desaparece, mas as despesas continuam. O aluguel não espera, a conta de energia não se comove, a comida não pode ser adiada indefinidamente.

Quem dispõe de recursos pode recorrer a um plano de saúde, manter reservas ou contratar ajuda. Quem vive no limite depende muito mais dos serviços públicos e da solidariedade coletiva.

O SUS, com suas limitações, filas e dificuldades de financiamento, representa uma escolha política de grande alcance: reconhecer que o acesso à saúde não deve depender exclusivamente da capacidade de pagamento.

O mesmo princípio orienta a previdência, a assistência social e as políticas de proteção a quem perde temporariamente a capacidade de trabalhar.

Isso não significa que o poder público possa resolver tudo, nem que a gestão dos serviços esteja dispensada de avaliação e cobrança. Significa reconhecer que certos riscos ultrapassam a capacidade individual de enfrentamento.

Uma sociedade não precisa escolher entre estimular a autonomia e proteger quem enfrenta dificuldades. Pode fazer as duas coisas, desde que estabeleça políticas sustentáveis, instituições eficientes e responsabilidades claramente definidas.

A proteção social não é necessariamente o contrário da liberdade econômica. Pode ser uma das condições que permitem às pessoas empreender, mudar de profissão, estudar e recomeçar sem que um único fracasso destrua toda a vida construída.

O voto e a consciência dos próprios interesses

Talvez as escolhas eleitorais também expressem a maneira como cada pessoa percebe seus interesses e interpreta o funcionamento da sociedade.

Quem vive da própria iniciativa pode priorizar a redução de custos, a simplificação das regras e a liberdade de empreender. Quem depende de salário, transferência de renda ou serviços públicos pode atribuir maior importância à estabilidade do emprego e à proteção social.

Essas tendências não determinam o voto. A experiência de vida, os valores, a religião, a identidade política e a confiança nos candidatos também participam das escolhas.

Entretanto, há uma questão que merece reflexão: até que ponto votamos a partir de nossas necessidades concretas e até que ponto nos identificamos com discursos que não correspondem às nossas condições de vida?

Um trabalhador pode acreditar que toda proteção trabalhista ameaça sua liberdade, sem considerar quem ganha poder de negociação quando os direitos são reduzidos. Outro pode defender a ampliação de benefícios sem examinar como serão financiados ou se chegarão efetivamente a quem precisa.

Em ambos os casos, o debate público perde qualidade quando a convicção substitui o exame das consequências.

Não se trata de dizer ao cidadão em quem votar. Trata-se de reconhecer que a democracia exige mais do que escolher um candidato: exige compreender os interesses em jogo, avaliar propostas e cobrar coerência entre discurso e prática.

A pergunta não é apenas quem promete liberdade ou proteção. É que liberdade oferece, que proteção assegura, quem assume os custos e quais resultados podem ser verificados.

A escolha política que realmente importa

O barco e o porto não precisam representar projetos inconciliáveis.

Uma sociedade pode valorizar quem empreende e garantir direitos a quem trabalha. Pode reduzir a burocracia sem transformar a precariedade em regra. Pode defender a responsabilidade individual sem ignorar as desigualdades de origem. Pode oferecer serviços públicos de qualidade sem desconsiderar os limites dos recursos disponíveis.

O verdadeiro conflito não está entre quem deseja liberdade e quem deseja segurança. Está na definição das condições que permitem conciliar ambas e na distribuição dos custos dessa conciliação.

Quando a liberdade econômica beneficia principalmente quem já possui recursos, enquanto os riscos são transferidos a quem pouco tem, ela pode ampliar desigualdades em vez de oferecer oportunidades.

Quando a proteção estatal se torna ineficiente, clientelista ou financeiramente insustentável, também deixa de cumprir sua finalidade.

A tarefa política consiste em avaliar essas escolhas concretas, sem transformar o mercado em solução para todos os problemas ou o Estado em resposta automática para todas as necessidades.

Diante da urna, cada cidadão leva consigo sua história. Alguns temem perder o pouco que conquistaram. Outros esperam alcançar aquilo que lhes falta. Há quem deseje autonomia para empreender e quem procure estabilidade para criar os filhos.

Nenhum desses sonhos deveria ser motivo de desprezo.

Mas o voto também nos convoca a olhar além de nossa experiência particular. Uma sociedade não se torna justa apenas porque oferece oportunidades a quem consegue aproveitá-las. Torna-se mais justa quando procura ampliar essas oportunidades e impedir que a origem social determine, de maneira quase definitiva, o destino das pessoas.

A política revela seu sentido quando deixa de perguntar somente quem merece vencer e começa a enfrentar as condições que permitem a alguns avançar enquanto outros mal conseguem começar.

O desafio não é obrigar todos a seguir o mesmo caminho. É construir um país no qual a autonomia não seja privilégio de quem tem patrimônio e a proteção não seja o último recurso de quem perdeu tudo.

A liberdade econômica precisa abrir caminhos; a justiça social precisa assegurar que não sejam reservados apenas aos que já podem percorrê-los.

É nessa escolha, mais do que na simples oposição entre barco e porto, que se revela o projeto de sociedade que cada voto ajuda a construir.


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