A Política na Polis


O Peso do Amanhã

Quando o desconforto deixa de ser pessoal e se transforma em preocupação com o destino coletivo

Por Hiran de Melo

Há momentos em que o desconforto não nasce de uma dor que nos pertence, mas daquilo que tememos que venha a acontecer com os outros. Não sofremos apenas pelo que a vida nos tira, mas também pelo que ela poderá negar àqueles que ainda estão aprendendo a viver.

Confesso que, às vezes, o futuro me pesa. Não exatamente pelo que poderá acontecer comigo, mas pelo que determinadas escolhas políticas poderão representar para as gerações que virão. Assusta-me pensar que conquistas alcançadas com tanto esforço possam ser ameaçadas pela intolerância, pelo culto às armas, pela violência exercida em nome da autoridade e pela possibilidade de que o poder se coloque acima da lei.

Não é o medo de perder o que tenho. É o receio de que outros percam aquilo que deveriam ter o direito de conquistar.

Tive oportunidades que me permitiram construir uma vida digna, alcançar certa estabilidade e oferecer aos meus descendentes condições para caminharem com segurança. Reconheço o valor dessas conquistas, mas não consigo transformá-las em motivo para indiferença. Seria uma forma de pobreza do espírito imaginar que a tranquilidade da minha existência me dispensa de olhar para as dificuldades alheias.

De que vale a segurança de uma vida quando nos tornamos indiferentes à insegurança das demais?

Talvez seja essa a diferença entre cuidar apenas do próprio destino e compreender que existimos dentro de uma sociedade que também nos constitui. O indivíduo pode fechar as portas, proteger seus bens e organizar o futuro da família. Não pode, entretanto, isolar-se inteiramente das consequências de um país que perde o compromisso com a justiça, enfraquece suas instituições ou naturaliza a violência como instrumento de poder.

A democracia não se resume ao direito de escolher governantes. Ela exige que aprendamos a conviver com as diferenças, a respeitar limites e a reconhecer que nenhuma vitória eleitoral concede a alguém o direito de diminuir a dignidade dos demais. O poder, quando deixa de reconhecer limites, transforma a autoridade em ameaça. E a lei, quando vale apenas para alguns, deixa de cumprir sua função de proteger a todos.

É isso que me inquieta: a possibilidade de que o medo se torne uma forma de governo, a força seja confundida com coragem e a impunidade ensine às novas gerações que o respeito às regras é uma fraqueza reservada aos que não conseguem impor a própria vontade.

Não ignoro que a sociedade abriga conflitos, nem espero que a política nos ofereça um mundo sem contradições. O que me preocupa é quando deixamos de reconhecer no outro alguém cuja dignidade merece ser preservada, mesmo quando pensa diferente de nós. A partir daí, o adversário deixa de ser alguém com quem precisamos conviver e passa a ser tratado como alguém que precisa ser eliminado do horizonte da vida pública.

E uma sociedade que aprende a odiar seus contrários acaba por comprometer a própria capacidade de construir o amanhã.

Há, porém, uma contradição que preciso reconhecer em mim mesmo. Se compreendo que o futuro não está inteiramente sob nosso controle, por que permito que ele me alcance com tamanho peso? Talvez porque a razão nem sempre consiga aquietar aquilo que a consciência percebe. Há inquietações que não desaparecem com argumentos, porque nascem do vínculo que mantemos com a vida e com aqueles que ainda virão depois de nós.

O desconforto, nesses momentos, não significa necessariamente fraqueza. Pode ser a expressão de uma consciência que ainda não se tornou indiferente. Mas também não pode ser o lugar definitivo onde nos recolhemos, enquanto o mundo segue sendo construído sem a nossa participação.

É preciso levantar a cabeça.

Não porque o medo tenha desaparecido, nem porque o futuro esteja garantido, mas porque a resignação entrega aos acontecimentos uma liberdade que também nos pertence. Não escolhemos tudo o que acontece, mas podemos escolher a maneira como respondemos ao que acontece. Podemos buscar compreender, dialogar, questionar, participar e defender, dentro dos limites da convivência democrática, aquilo que consideramos indispensável à dignidade humana.

A esperança, para mim, não consiste em acreditar que tudo terminará bem. Consiste em não aceitar que o pior seja inevitável.

Talvez seja essa a responsabilidade que acompanha o privilégio de ter vivido com oportunidades que tantos ainda não tiveram: não usar a segurança conquistada como abrigo para a indiferença, mas como condição para olhar além dos próprios interesses.

Não sei que país deixaremos aos nossos descendentes. Sei, entretanto, que não basta desejar-lhes um futuro melhor. Precisamos contribuir para que encontrem uma sociedade em que a liberdade não seja privilégio, a justiça não dependa da posição de cada um e a segurança não seja confundida com o direito de exercer violência sobre os outros.

O amanhã não nos pertence, mas a responsabilidade pelo que fazemos hoje não pode ser transferida às gerações que ainda não chegaram.

Por isso, quando o peso do futuro me fizer sofrer, procurarei lembrar que esse desconforto não precisa ser o sinal de uma derrota antecipada. Pode ser o reconhecimento de que ainda me importo, de que não perdi a capacidade de me inquietar com o sofrimento alheio e de que a minha tranquilidade pessoal não encerra o horizonte das minhas responsabilidades.

Depois, será preciso respirar fundo e continuar.

Afinal, não desbastamos a pedra bruta para encontrar nela uma obra pronta, escondida desde sempre. Trabalhamos sobre aquilo que somos, transformando-nos a cada dia pelas escolhas que fazemos. Também a sociedade não recebe pronta a forma do seu futuro: ela se modifica pelo que toleramos, pelo que defendemos e pelo que temos coragem de transformar.

O amanhã terá muito daquilo que fizermos hoje — e também das omissões que, por medo ou comodidade, escolhermos não enfrentar.

É por isso que, apesar das minhas inquietações, não quero entregar o futuro ao desânimo. Quero continuar acreditando que a consciência, quando se transforma em atitude, ainda pode abrir caminhos onde o medo só consegue enxergar ameaças.

Não temo apenas o amanhã: revolta-me pensar que, por omissão dos que ainda podem agir, entreguemos às próximas gerações um futuro que tivemos a oportunidade de influenciar, mas não a coragem de defender.

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