Religião e Existencialismo

 


VOZ QUE PROFETIZA DENTRO DE NÓS

Entre o futuro que imaginamos e a consciência que nos desperta

Por Hiran de Melo

Duas jovens bateram à minha porta. Traziam um livro nas mãos e uma pergunta nos lábios. O livro era O Livro de Mórmon. A pergunta, aparentemente simples, ficou comigo depois que elas partiram: você acredita em profetas?

Recebi o livro com gratidão. A pergunta, porém, não se acomodou tão facilmente. Há questões que ultrapassam a soleira da porta e encontram morada na consciência. Não pedem uma resposta apressada, mas um tempo de silêncio, como se precisássemos aprender a escutar aquilo que ainda não sabemos dizer.

Afinal, o que é um profeta? Alguém capaz de enxergar o futuro por trás das cortinas do tempo? Uma pessoa escolhida por Deus para transmitir aos homens uma verdade que não lhe pertence? Ou alguém que, atento aos movimentos da existência, percebe no presente as sementes do que ainda está por acontecer?

Talvez a dificuldade esteja em procurar uma única resposta para uma palavra que atravessa séculos, religiões e culturas, carregando diferentes maneiras de compreender o mistério de existir.

O adivinho e a consciência

Quando ouvimos falar em profecia, é comum imaginar alguém que contempla o amanhã como quem lê um livro já escrito. Nessa compreensão, o futuro estaria pronto, aguardando apenas quem fosse capaz de revelar suas páginas.

Mas, se tudo estivesse determinado, que lugar restaria para a liberdade? De que serviria a consciência, se nossas escolhas fossem apenas movimentos de uma história cujo final já estivesse decidido?

A vida humana não parece caber inteiramente nessa moldura. Somos feitos de condicionamentos, heranças, circunstâncias e limites, mas também de possibilidades. Há caminhos que não escolhemos; outros começam a existir quando ousamos questionar a direção que nos ensinaram a seguir.

Prefiro, por isso, compreender a profecia não como revelação de um destino imutável, mas como uma palavra que nos ajuda a perceber as consequências do caminho que estamos percorrendo.

Na tradição bíblica, o profeta frequentemente surge para advertir um povo, denunciar a corrupção dos poderosos e confrontar a indiferença diante do sofrimento humano. Sua palavra não serve apenas para anunciar desgraças. Procura mostrar que muitas delas podem ser evitadas quando existe coragem para mudar o rumo.

O profeta nem sempre diz o que acontecerá. Muitas vezes, diz o que poderá acontecer se continuarmos fazendo aquilo que fazemos.

Existe uma diferença profunda entre essas duas coisas. A primeira nos entrega ao destino; a segunda nos devolve à responsabilidade.

Quem anuncia uma fatalidade pode produzir resignação. Quem revela as consequências de nossas escolhas ainda acredita na possibilidade de transformação.

Talvez esteja aí a grandeza da voz profética: ela não fala apenas do amanhã. Interroga o modo como estamos vivendo hoje.

A coragem de dizer o que ninguém deseja ouvir

O profeta, nesse sentido, não é necessariamente aquele que fala em nome do céu, mas quem se recusa a fazer acordos com a cegueira do próprio tempo.

Quando a injustiça se torna costume, alguém precisa lembrar que o costume não a transforma em justiça. Quando a mentira circula como verdade, é preciso perguntar a quem interessa essa confusão. Quando o sofrimento de muitos deixa de incomodar aqueles que poderiam fazer alguma coisa, uma voz precisa romper o silêncio.

Essa voz pode surgir na palavra de um filósofo, na sensibilidade de um poeta, na descoberta de um cientista ou na atitude de alguém que se recusa a aceitar como natural aquilo que diminui a dignidade humana.

Há pessoas que enxergam as contradições de uma época antes que se tornem evidentes para todos. Não necessariamente porque receberam uma revelação sobrenatural, mas porque aprenderam a observar o que a maioria prefere ignorar.

Escutam o rumor que antecede o estrondo. Percebem a fragilidade escondida atrás das aparências e reconhecem, nos pequenos gestos cotidianos, os sinais de uma transformação ou o começo silencioso de uma tragédia.

Essa capacidade também pode ser chamada de profética.

O futuro não surge do nada. Amadurece nas ideias que aceitamos sem examinar, nos preconceitos que alimentamos, nas relações que cultivamos e nas injustiças às quais nos acostumamos. Grande parte do amanhã começa a ser escrita enquanto acreditamos estar apenas vivendo o presente.

As profecias que plantamos nas pessoas

Existe, contudo, uma forma de profecia mais discreta, que dispensa templos, livros sagrados e autoridades espirituais. Ela acontece dentro de casa, nas escolas e nas relações afetivas, onde uma palavra pode ferir mais profundamente do que imaginamos.

Uma criança escuta repetidas vezes que não é capaz, que não tem inteligência, que nunca será alguém na vida. Aos poucos, aprende a olhar para si através dos olhos de quem a julga.

A palavra recebida transforma-se em possibilidade de identidade. A criança começa a duvidar de si, evita desafios, abandona tentativas e interpreta cada dificuldade como confirmação de sua suposta incapacidade.

O julgamento alheio converte-se em voz interior. Já não é necessário que alguém repita a condenação: a própria pessoa aprende a fazê-lo.

Não houve adivinhação. Houve uma sentença pronunciada por alguém que talvez desconhecesse o poder de suas palavras. A profecia tornou-se possível porque foi acolhida e transformada em comportamento.

O mesmo pode acontecer no sentido contrário. Uma palavra de confiança não elimina as dificuldades, mas ajuda alguém a descobrir forças que desconhecia. Um gesto de acolhimento pode abrir espaço para que uma pessoa deixe de se enxergar como condenada ao fracasso.

Isso não significa que toda crença se realiza ou que somos culpados pelas adversidades que enfrentamos. Existem condições sociais, experiências dolorosas e circunstâncias que ultrapassam nossa vontade. Seria injusto transformar a liberdade em obrigação de vencer todos os obstáculos.

Significa apenas que as palavras participam da maneira como habitamos o mundo. Algumas diminuem nossas possibilidades; outras nos ajudam a reconhecê-las.

Quantas vezes nos tornamos profetas da derrota alheia sem perceber que estamos contribuindo para construir aquilo que anunciamos?

A poesia como antecipação da existência

O poeta também conhece essa espécie de profecia. Não porque saiba o que acontecerá amanhã, mas porque percebe, nas experiências comuns, algo que ainda não encontrou linguagem.

Reconhece a tristeza escondida no sorriso, a solidão disfarçada de independência, o medo protegido pela agressividade e a ternura que sobrevive sob tantas camadas de defesa.

Enquanto muitos veem apenas acontecimentos, o poeta procura aquilo que eles revelam sobre nós.

Sua palavra pode antecipar uma ferida coletiva, denunciar o empobrecimento das relações humanas ou dar forma à angústia de uma geração que ainda não compreendeu inteiramente o próprio sofrimento.

Há sentimentos que chegam à consciência primeiro como inquietação. Sabemos que alguma coisa não está bem, mas não conseguimos explicar o quê. Então alguém escreve um poema, compõe uma canção ou pronuncia uma frase que parece retirar de dentro de nós aquilo que não conseguíamos nomear.

Lemos ou escutamos e pensamos: era isso que eu sentia.

A palavra não criou necessariamente o sentimento. Ela o revelou.

Talvez seja esse um dos poderes mais profundos da arte: permitir que reconheçamos em nós aquilo que permanecia sem forma. O artista não precisa conhecer nosso futuro para nos ajudar a enxergar o presente. Basta que consiga penetrar, com sensibilidade e coragem, nas regiões da experiência humana que costumamos esconder até de nós mesmos.

A poesia, portanto, não precisa prever o amanhã. Pode ampliar nossa capacidade de compreender o agora.

A voz que escolhemos seguir

Toda palavra que reivindica autoridade sobre nossa existência merece ser examinada.

Quando alguém se apresenta como dono da verdade, intérprete exclusivo da vontade divina ou conhecedor infalível do destino alheio, convém preservar a capacidade de perguntar.

Nenhuma autoridade deveria exigir que abandonássemos a consciência para demonstrar fidelidade. A fé pode ser uma experiência profunda de confiança, esperança e transcendência sem se transformar em renúncia à responsabilidade de pensar. A reverência não exige cegueira, assim como a dúvida não significa desprezo pelo sagrado.

Podemos acolher uma mensagem religiosa sem entregar a ela o governo irrestrito de nossa consciência. Podemos reconhecer a sabedoria de uma tradição sem supor que todas as suas interpretações estejam acima de qualquer questionamento.

Se o profeta nos convoca à transformação moral, não seria contraditório utilizar sua palavra para justificar a intolerância, a submissão ou o desprezo por aqueles que pensam de maneira diferente?

Uma voz verdadeiramente libertadora não deveria nos tornar dependentes de quem a pronuncia, mas ajudar-nos a desenvolver discernimento para caminhar com autonomia.

Talvez o sinal mais importante de uma palavra sábia não seja a obediência que conquista, mas a consciência que desperta.

A pergunta que permanece

Volto, então, àquelas duas jovens que bateram à minha porta.

Recebi o livro que me ofereceram, mas a pergunta continuou comigo. Algumas questões deixam de pertencer a quem as formulou quando encontram espaço dentro de nós.

Você acredita em profetas?

Se a pergunta se refere àqueles que afirmam conhecer antecipadamente cada acontecimento de nossas vidas, prefiro a prudência. Não quero transformar o mistério do amanhã em uma certeza que me dispense de pensar, escolher e assumir as consequências dos meus atos.

Se, porém, profeta é aquele que nos ajuda a perceber a injustiça antes que ela se torne insuportável, a reconhecer o perigo antes que seja tarde e a descobrir possibilidades onde só enxergávamos resignação, então encontro razões para acreditar na força da palavra profética.

Acredito na palavra que não se curva diante do poder apenas porque ele parece invencível; naquela que denuncia a crueldade mesmo quando ela recebe aplausos e nos recorda que nenhuma sociedade será justa enquanto a dignidade de alguns depender da humilhação de outros.

Acredito, também, na palavra que nos confronta com nossas próprias contradições. É muito mais fácil denunciar as sombras do mundo do que reconhecer aquelas que alimentamos dentro de nós.

Talvez a profecia mais difícil seja justamente essa: não a que anuncia o fim dos tempos, mas a que nos obriga a examinar o tempo que estamos construindo.

O livro permanece sobre a mesa, mas a pergunta já não está na porta. Está em mim. E, de algum modo, está também em você.

Todos os dias, diferentes vozes disputam nossa atenção. Algumas chegam carregadas de medo; outras oferecem certezas convenientes. Há as que repetem antigos julgamentos, as que prometem salvação em troca de obediência e aquelas que nos convidam a enxergar além das aparências.

Nem todas merecem ser acolhidas. Nem todas devem ser expulsas sem escuta. É preciso discernir.

Talvez amadurecer seja aprender a distinguir a voz que nos aprisiona daquela que amplia nossa humanidade; a que alimenta preconceitos daquela que nos ajuda a questioná-los; a que entrega respostas prontas daquela que devolve a coragem de perguntar.

No fim, a questão talvez não seja apenas saber se acreditamos em profetas. É perguntar quais profecias estamos acolhendo, quais pronunciamos sobre a vida dos outros e quais repetimos, silenciosamente, a nós mesmos.

Há palavras que fecham caminhos e outras que os abrem. Há vozes que nos convencem de que nada pode mudar e aquelas que nos lembram de que ainda somos responsáveis pelo que fazemos com as possibilidades da vida.

O futuro continua sendo um território de incertezas. Não sabemos tudo o que nos espera, mas podemos aprender a reconhecer o que estamos preparando.

Se existe uma voz profética que merece ser escutada, talvez seja aquela que não pretende escrever nosso destino, mas nos desperta para a responsabilidade de escrevê-lo.

Afinal, o amanhã não precisa de alguém que o anuncie como condenação. Precisa de pessoas capazes de compreender o presente, questionar as certezas que as aprisionam e agir para que o mundo não seja apenas a repetição daquilo que já foi.

A verdadeira profecia não nos retira a liberdade de escolher. Devolve-nos a consciência de que nossas escolhas também profetizam.

E talvez seja nesse instante, quando deixamos de esperar que alguém nos revele o destino e começamos a responder pelo caminho que construímos, que a pergunta daquelas duas jovens encontre, dentro de nós, uma resposta verdadeiramente humana.

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