A Política na Polis
O Ego Ferido e a Mecânica do Ódio
Quando a incapacidade de aceitar a derrota transforma a divergência em
inimigo
Por Hiran de Melo
Há
derrotas que ensinam e derrotas que revelam. A diferença não está no resultado,
mas na maneira como cada um se relaciona com aquilo que não conseguiu
conquistar.
Na
democracia, perder faz parte do jogo. O voto do outro, mesmo quando contraria
nossas convicções, não nos rouba o direito de pensar, nem diminui o valor de
nossas ideias. Apenas nos lembra de uma verdade que o ego custa a aceitar: a
nossa vontade não é a medida do mundo, e a nossa convicção não nos concede o
direito de governar a consciência alheia.
Quando
o ego não suporta essa realidade, a derrota deixa de ser um acontecimento
político e passa a ser sentida como uma humilhação pessoal. Já não basta
discordar do vencedor. É preciso desqualificá-lo, desacreditar sua vitória e,
se possível, fazer com que aqueles que o escolheram paguem pelo atrevimento de
pensar diferente.
É
nesse terreno que o ressentimento começa a produzir seus frutos mais amargos.
Quem
perde o poder, mas não amadurece diante da perda, pode tentar recuperá-lo pela
intimidação. Se não consegue convencer pela palavra, procura constranger pela
força; se não pode governar pela maioria, tenta impor sua vontade pelo
privilégio econômico. O trabalhador que votou de maneira diferente deixa de ser
um cidadão com direitos e passa a ser tratado como alguém que merece punição.
O
boicote, a ameaça de demissão e a humilhação disfarçada de liberdade de escolha
revelam, então, uma contradição profunda: há quem defenda a liberdade enquanto
ela confirma suas preferências, mas a considere intolerável quando o outro a
exerce contra sua vontade.
O
ego ferido não deseja apenas vencer; muitas vezes, deseja que o outro sofra por
não ter perdido junto com ele.
A
mecânica do ódio começa justamente aí: na transformação da frustração em
ressentimento, do ressentimento em hostilidade e da hostilidade em
justificativa moral para a crueldade.
Para
continuar se reconhecendo como uma pessoa justa, o indivíduo precisa encontrar
uma explicação que preserve a imagem que construiu de si mesmo. Se pratica a
intolerância, afirma que está defendendo valores. Se humilha, diz que está
apenas reagindo. Se nega solidariedade, acusa o outro de oportunismo. A
consciência, incapaz de conciliar a imagem idealizada com a realidade dos
próprios atos, procura no adversário a culpa que não deseja reconhecer em si.
Assim,
a hipocrisia deixa de ser percebida como contradição pessoal e passa a ser
denunciada como defeito exclusivo do outro.
Talvez
uma das formas mais perigosas de cegueira moral seja esta: a incapacidade de
reconhecer em si aquilo que se condena no adversário.
Mas
o ressentimento individual não explica tudo. Há também quem aprenda a
cultivá-lo nos outros, transformando o medo em instrumento de poder. Quando
faltam respostas consistentes para os problemas da sociedade, fabricam-se
ameaças. Escolhem-se inimigos, exageram-se perigos e atribui-se a determinados
grupos a responsabilidade por todas as frustrações coletivas.
A
repetição dessas narrativas mantém as pessoas em estado de alerta, favorecendo
reações impulsivas e dificultando a reflexão. Sob o domínio do medo, o
pensamento crítico cede espaço à necessidade de encontrar culpados. A
agressividade ganha aparência de defesa, e aquele que ataca pode passar a
acreditar sinceramente que é a vítima.
O
ódio, então, já não precisa de razões consistentes. Precisa apenas de um
inimigo permanente.
É
assim que pessoas aparentemente comuns podem participar de práticas que
contradizem os valores que dizem defender. Não necessariamente porque
desconheçam o bem, mas porque aprenderam a reconhecer o mal apenas quando ele
aparece no comportamento dos outros.
Não
se trata de atribuir ao adversário político uma doença ou de transformar a
neurociência em sentença moral. Trata-se de compreender como o medo, o
ressentimento e a necessidade de pertencimento podem enfraquecer o
discernimento e alimentar comportamentos coletivos destrutivos.
A
política, quando perde a capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa
diferente, deixa de ser um espaço de convivência entre divergências e se
converte em disputa pela legitimidade de existir. Já não se procura construir
uma sociedade melhor para todos. Procura-se impedir que o outro tenha voz,
direitos ou participação nas decisões que afetam a vida comum.
É
por isso que a maturidade democrática exige mais do que aceitar formalmente o
resultado das urnas. Exige reconhecer que o adversário continua sendo cidadão,
que o trabalhador não perde sua dignidade por causa do voto e que a
solidariedade deixa de ser virtude quando depende da concordância ideológica de
quem a recebe.
A
democracia não se sustenta apenas nas instituições. Sustenta-se também na
capacidade humana de suportar a frustração sem transformá-la em vingança, de
reconhecer limites sem se sentir diminuído e de conviver com diferenças sem
precisar destruir quem as representa.
Talvez
o verdadeiro trabalho de transformação comece quando cada um se dispõe a
examinar as próprias contradições antes de apontar as do mundo. Não para
abandonar convicções, mas para impedir que elas se tornem instrumentos de
opressão. Não para renunciar à indignação, mas para distinguir a defesa da
justiça do prazer de punir.
Porque
existe uma diferença essencial entre defender um princípio e usar um princípio
como disfarce para o ressentimento.
O
ego ferido procura culpados para preservar sua imagem. A consciência
amadurecida procura compreender suas contradições para não se tornar
prisioneira delas.
No
fim, talvez a maior derrota não seja perder uma eleição, uma disputa ou uma
posição de poder. Seja perder a capacidade de reconhecer no outro alguém que,
apesar das diferenças, continua merecendo respeito.
Quando
isso acontece, o ódio já não precisa derrubar as instituições para ameaçar a
democracia. Basta que consiga transformar cidadãos em inimigos e a convivência
em campo de vingança.
E
nenhuma sociedade se torna verdadeiramente livre enquanto seus integrantes
precisarem diminuir a dignidade alheia para suportar as próprias frustrações.

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