A Política na Polis
Meu sentimento não é de alegria, é de
alívio
Por Hiran de Melo
Tenho
recebido algumas ligações e mensagens pelo WhatsApp. As pessoas me parabenizam
e afirmam, com a certeza de quem conhece meus sentimentos, que estou muito
feliz, muito alegre com a vitória de Lula.
Não
gosto de contrariar as pessoas, sobretudo quando percebo que estão felizes, que
compartilham uma alegria sincera. Mas preciso dizer: não é esse o meu
sentimento. Não é.
O
que sinto é alívio. Meu coração está aliviado. Não há espaço, neste momento,
para grandes comemorações, para sorrisos largos ou gritos de vitória. Há apenas
espaço para respirar. Respirar fundo, como quem acaba de atravessar um período
de angústia e, finalmente, percebe que o pior cenário não se concretizou.
Meu
sentimento é de alívio.
Não
repetiremos o governo Bolsonaro. Não teremos novamente aquele ambiente de
desprezo pelas instituições, de ataques à democracia e de banalização da
violência política. Por pouco, o Brasil não entregou a Presidência da República
a alguém que afirmava que receberia a faixa presidencial de um presidiário,
justificando essa possibilidade pelo simples fato de ser seu pai.
Imaginem
o país que poderíamos ter. Imaginem o governo que teríamos pela frente.
Eita!
Como não sentir alívio?
Talvez
amanhã eu comece a sorrir. Talvez amanhã meu coração encontre espaço para a
alegria. Mas, na sexta-feira, no sábado, no domingo e ainda hoje, o que
predominou em mim foi um sentimento muito fechado, muito dolorido. Doía
perceber que um rapaz com aquele comportamento, com aquela visão de mundo,
quase conseguiu ser eleito presidente da República do Brasil.
Quase!
Essa
palavra carrega o peso de uma angústia imensa. Uma angústia que não desaparece
de uma hora para outra. Ela vai se desfazendo aos poucos, à medida que a
realidade nos permite respirar novamente.
Não
tenho dúvidas de que Lula continuará presidente. Confio nas instituições
democráticas e no Estado Democrático de Direito. A democracia brasileira
resistiu, e espero que o próximo período seja de reconstrução, de respeito às
diferenças e de conquistas capazes de trazer mais dignidade ao povo brasileiro.
Acredito
que Lula ainda poderá proporcionar muitas alegrias ao Brasil. Mas, neste
momento, a minha alegria está suspensa. Primeiro, precisava passar o medo de
ver o país mergulhar novamente numa experiência política que tanto nos dividiu
e ameaçou valores que julgávamos consolidados.
E
há algo que desejo dizer com especial emoção: como tenho orgulho de ser
nordestino! Como é bom ser nordestino!
Por
duas vezes, o Nordeste teve um papel decisivo para impedir que o bolsonarismo
conquistasse a Presidência da República. O povo nordestino, tantas vezes vítima
do preconceito, tantas vezes tratado com desdém por aqueles que se julgam
superiores, mostrou a grandeza de sua consciência política e de sua
responsabilidade com o destino nacional.
O
Brasil tem uma dívida de reconhecimento com o Nordeste. Não uma dívida de
favor, mas de respeito. Respeito a um povo que conhece as dificuldades da vida,
que convive com desigualdades históricas e que, apesar de tudo, continua
demonstrando coragem, solidariedade e esperança.
E
não posso deixar de lembrar uma cena que me tocou profundamente: os jovens que
foram buscar seus avós para que pudessem votar.
Homens
e mulheres idosos, desejosos de exercer seu direito, mas já sem forças para
caminhar sozinhos. E os jovens, em vez de aceitar que aquelas limitações os
impedissem de participar, ofereceram as próprias pernas. Carregaram seus avós,
sustentaram seus passos, ajudaram-nos a chegar às urnas.
Que
imagem extraordinária!
Naquele
gesto, havia muito mais do que um ato de cidadania. Havia amor, respeito,
memória e compromisso com a democracia. Os jovens emprestaram suas forças aos
mais velhos para que estes não perdessem a oportunidade de exercer um direito
pelo qual tantas gerações lutaram.
Meu
Pai do Céu, que coisa maravilhosa!
Talvez
seja justamente aí que eu encontre uma razão para, mais adiante, voltar a
sorrir. Na certeza de que, mesmo em meio a tanta intolerância, ainda existe
gente capaz de cuidar do outro; mesmo diante de tantas ameaças, ainda existe
quem compreenda que a democracia não se sustenta apenas nas instituições, mas
também nos gestos humanos que lhe dão sentido.
Hoje,
não comemoro como muitos imaginam. Hoje, respiro aliviado.
A
alegria talvez venha depois. Por enquanto, basta-me saber que o Brasil terá
outra oportunidade. Uma oportunidade de cuidar de sua gente, de respeitar sua
diversidade e de construir um futuro em que nossos filhos e netos não precisem
viver sob a angústia que tantos de nós experimentamos nestes dias.
E,
quando a alegria finalmente chegar, quero que ela venha acompanhada da gratidão
a esse povo nordestino, à juventude que ampara a velhice e a todos aqueles que
compreenderam que votar não é apenas escolher um governante. É também decidir
que país desejamos deixar para quem vem depois de nós.
Hoje,
meu coração não grita de alegria. Meu coração
apenas respira. E, depois de tanta angústia, respirar em paz já é uma enorme
conquista.

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