A Política na Polis
Espelho da Identidade Manipulada
Quando o
desejo de pertencer nos leva a combater os próprios interesses
Por Hiran de Melo
Há
contradições que não se explicam pela falta de inteligência, mas pela
necessidade de encontrar um lugar no mundo.
Como
compreender alguém que, tendo pouco, defende os privilégios de quem tem muito?
Que depende de direitos para viver com dignidade, mas combate aqueles que os
defendem? Que sofre as consequências da desigualdade, mas se revolta contra o
amparo oferecido a quem sofre como ele?
Talvez
estejamos procurando a resposta no lugar errado.
O
ser humano não vive apenas daquilo que possui. Vive também da imagem que
constrói de si mesmo e do reconhecimento que espera encontrar no olhar dos
outros. Às vezes, a necessidade de sentir-se importante torna-se maior do que a
disposição de compreender a realidade. E, quando isso acontece, podemos chegar
ao ponto de sacrificar nossos próprios interesses para preservar uma imagem na
qual aprendemos a acreditar.
É
assim que alguém pode ingressar numa tropa que combate aquilo de que necessita.
Não porque desconheça inteiramente suas necessidades, mas porque recebeu algo
que, naquele momento, lhe parece mais valioso: a sensação de pertencer a um
grupo de pessoas especiais, de estar do lado certo da história, de ser
diferente daqueles que considera inferiores.
A
contradição começa quando o pertencimento deixa de ser um encontro entre
pessoas livres e passa a exigir a renúncia à própria consciência.
O desejo de ser alguém
Há
uma ferida que a pobreza material não explica inteiramente: a experiência de sentir-se diminuído diante do mundo.
Nem
sempre a pessoa sofre apenas pela falta do que precisa. Sofre também por
acreditar que vale menos porque possui menos. A desigualdade, além de
distribuir desigualmente os bens da vida, pode ensinar alguns a sentirem
vergonha da própria condição.
E
quem tem vergonha de ser pobre pode encontrar dificuldade em reconhecer-se
entre os pobres.
Em
vez de compreender que sua condição individual está relacionada a uma realidade
social mais ampla, passa a alimentar a esperança de que pertence a uma
categoria diferente, ainda que sua vida concreta demonstre o contrário. Não se
vê como alguém que precisa de direitos, mas como um vencedor à espera da
oportunidade que lhe foi negada.
A
promessa de riqueza, nesse contexto, não oferece apenas dinheiro. Oferece
dignidade imaginada.
É
como se alguém, cansado de não ser reconhecido, recebesse um espelho capaz de
lhe devolver a imagem que deseja contemplar. Diante dele, já não se enxerga o
trabalhador explorado, o cidadão desassistido ou o homem submetido às
limitações de sua condição. Enxerga-se o vencedor que os outros impedem de
prosperar.
O
espelho é sedutor porque não exige transformação da realidade. Basta mudar a
maneira de interpretá-la.
A
extrema-direita compreendeu a força dessa necessidade. Em vez de convidar o
indivíduo a examinar as condições que limitam sua vida, oferece-lhe uma
explicação que preserva seu orgulho: você não
está em desvantagem porque existem estruturas desiguais; está sendo
prejudicado por aqueles que não merecem o que recebem.
O
pobre passa a olhar com desconfiança para o pobre que recebe assistência. O
trabalhador desprotegido aprende a desprezar os direitos trabalhistas. O
cidadão que depende dos serviços públicos é convencido de que o Estado, quando
atende aos mais vulneráveis, representa uma ameaça à sua liberdade.
A
necessidade permanece. O que muda é a consciência que se tem dela.
A identidade que exige obediência
Ninguém
precisa abandonar a própria inteligência para fazer parte de uma comunidade.
Entretanto, há grupos que somente conseguem preservar sua unidade quando seus
integrantes deixam de questionar aquilo que os reúne.
Na
política, isso acontece quando o líder deixa de ser alguém que deve responder
por suas escolhas e passa a representar a identidade de seus seguidores.
A
partir daí, criticá-lo significa mais do que discordar de um governante.
Significa ameaçar a imagem que cada integrante construiu de si mesmo.
O
erro do líder torna-se uma perseguição. A incoerência vira estratégia. A
mentira é relativizada. A crítica passa a ser interpretada como hostilidade
contra todo o grupo.
Já
não se examina o que foi dito. Procura-se saber quem disse.
Se
a afirmação favorece a tropa, merece crédito. Se a contraria, desperta
suspeita. A mesma conduta que seria condenada no adversário encontra
justificativa quando praticada pelo próprio líder.
E
assim se estabelece uma estranha inversão: em vez de escolhermos nossas ideias
de acordo com aquilo que compreendemos, passamos a compreender as coisas de
acordo com as ideias que precisamos defender.
O
pensamento deixa de ser um caminho para o conhecimento e se transforma num
advogado encarregado de absolver nossas preferências.
Não
é a verdade que nos reúne. É a necessidade de permanecermos unidos, mesmo
quando a verdade ameaça desfazer o vínculo.
O inimigo que nos impede de olhar para nós mesmos
Toda
frustração procura uma explicação. Quando não conseguimos compreender as causas
de nosso sofrimento, tornamo-nos vulneráveis a quem nos oferece um culpado.
A
extrema-direita não inventou as angústias, os preconceitos ou as desigualdades
que atravessam a sociedade. Sua habilidade consiste em reuni-los numa narrativa
que desloca a indignação para alvos convenientes.
O
professor passa a ser uma ameaça aos filhos. O jornalista torna-se inimigo do
povo. A universidade é acusada de destruir valores. A Justiça, quando contraria
o líder, é apresentada como instrumento de conspiração. O pobre que recebe
ajuda torna-se responsável pelo dinheiro que falta ao trabalhador.
Enquanto
isso, as causas mais profundas da desigualdade permanecem fora do campo de
visão.
É
mais fácil odiar alguém que recebe um benefício do que compreender os
mecanismos que concentram a riqueza. É mais confortável atribuir o próprio
insucesso à existência de inimigos do que reconhecer a complexidade das
condições que limitam nossas escolhas.
O
ressentimento oferece uma vantagem imediata: dispensa o esforço de compreender.
Mas
existe um preço. Quando a indignação perde o discernimento, ela pode ser
utilizada contra aqueles que deveriam compartilhar conosco a luta por uma vida
mais digna.
O
sofrimento não desaparece. Apenas recebe uma direção que favorece quem tem
interesse em mantê-lo.
E
talvez uma das maiores perversidades da manipulação política seja esta:
convencer os que estão embaixo de que seu principal inimigo é aquele que está
ao seu lado, enquanto os que estão no alto continuam protegidos pelo silêncio
dos que deveriam questioná-los.
A mentira como prova de fidelidade
Uma
mentira pode ser desfeita pela apresentação de um fato. Mas o que acontece
quando acreditar nela se torna uma demonstração de lealdade?
Nesse
caso, a dificuldade já não está apenas em reconhecer o erro. Está em aceitar o
custo de reconhecê-lo.
Se
o indivíduo passou anos defendendo um líder, repetindo suas acusações e
tratando seus adversários como inimigos, admitir que foi enganado significa
rever não apenas uma opinião, mas uma parte de sua própria história.
É
doloroso descobrir que a convicção que nos sustentava talvez tenha sido
construída sobre o engano.
Por
isso, algumas pessoas preferem defender a mentira a enfrentar a vergonha de
terem acreditado nela. Quanto mais evidências surgem, mais precisam
desqualificar quem as apresenta. A dúvida, que poderia libertá-las, passa a ser
percebida como uma ameaça.
A
mentira, então, deixa de ser apenas aquilo que alguém diz para enganar os
outros. Torna-se aquilo em que alguém precisa acreditar para continuar
reconhecendo-se no grupo ao qual pertence.
É
nesse momento que a política deixa de ser uma disputa entre projetos de
sociedade e passa a funcionar como uma disputa pela posse das consciências.
Trump,
nos Estados Unidos, e Bolsonaro, no Brasil, souberam explorar essa relação
entre liderança, ressentimento e identidade. Suas narrativas políticas deram
força à ideia de que os seguidores integravam uma comunidade ameaçada por
inimigos internos e externos, enquanto os próprios líderes eram apresentados
como vítimas de perseguição.
O
resultado é uma inversão que merece reflexão: quanto
mais o líder é questionado, mais alguns seguidores interpretam o questionamento
como prova de que ele está certo.
A
perseguição imaginada passa a proteger o poder real.
Quando o interesse deixa de ser nosso
O
mais inquietante nessa relação não é que alguém possa defender uma ideia
equivocada. Todos somos capazes disso. O problema começa quando deixamos de
examinar uma ideia porque ela se tornou indispensável à imagem que fazemos de
nós mesmos.
Um
trabalhador pode acreditar que a redução de seus direitos lhe trará liberdade.
Uma família pode rejeitar políticas sociais das quais depende. Alguém que
necessita de um Estado eficiente pode ser convencido de que todo investimento
público é desperdício, desde que a crítica seja dirigida ao governo ou ao grupo
político de que desconfia.
Não
se trata de afirmar que todos devam pensar da mesma maneira sobre o papel do
Estado, a economia ou a proteção social. Trata-se de perceber que uma escolha
política merece ser examinada também pelas consequências que produz na vida de
quem a faz.
Se
defendo uma política que diminui minhas possibilidades de viver com dignidade,
preciso compreender o que me leva a defendê-la.
Se
condeno um benefício quando ele alcança alguém em situação semelhante à minha,
mas o considero legítimo quando me favorece, preciso perguntar se estou
julgando um princípio ou apenas protegendo minha conveniência.
Se
tolero no meu líder aquilo que considero inadmissível nos outros, talvez minha
lealdade tenha ultrapassado o limite em que ainda posso chamar de liberdade o
que faço.
O
problema não é ter uma identidade política. É permitir que ela decida,
antecipadamente, aquilo que estamos autorizados a enxergar.
Quando
isso acontece, deixamos de utilizar nossas convicções para interpretar o mundo
e passamos a utilizar o mundo para proteger nossas convicções.
O
encontro com a própria consciência
Talvez
a saída não esteja em trocar uma tropa por outra. A submissão não deixa de ser
submissão apenas porque mudamos de bandeira.
O
primeiro movimento de liberdade acontece quando somos capazes de interromper o
ruído das certezas coletivas e escutar as perguntas que evitamos fazer a nós
mesmos.
Por
que acredito no que acredito? O que temo perder se mudar de opinião? Estou
defendendo uma convicção ou tentando preservar meu lugar entre aqueles que me
reconhecem? Minha escolha nasce de uma reflexão sobre a realidade ou da
necessidade de me sentir superior a alguém?
Essas
perguntas não oferecem respostas confortáveis. Exigem que abandonemos a
segurança de algumas certezas e aceitemos a possibilidade de termos errado.
Mas
é justamente aí que a consciência começa a recuperar sua autonomia.
Pensar
não significa desconfiar de tudo, nem transformar a vida numa investigação
interminável. Significa não entregar a ninguém o direito exclusivo de decidir o
que devemos considerar verdadeiro, justo ou humano.
A
liberdade não consiste em fazer coro com aqueles que nos acolhem. Consiste em
continuar capazes de pensar, inclusive quando o pensamento nos obriga a
discordar deles.
Talvez
precisemos compreender que ninguém se torna maior por pertencer a uma tropa que
lhe promete grandeza. A dignidade não nasce da humilhação do outro, nem a
liberdade se constrói pela renúncia à própria consciência.
O
verdadeiro amadurecimento começa quando já não precisamos diminuir ninguém para
reconhecer nosso valor.
E
talvez seja esse o momento em que deixamos de procurar no grupo a autorização
para existir e começamos a assumir a responsabilidade pela pessoa que estamos
nos tornando.
Não é livre quem pode escolher a bandeira que vai carregar,
mas quem conserva a coragem de examinar aquilo que
ela representa.
Porque,
quando o desejo de pertencer nos leva a combater nossos próprios interesses, a
pergunta decisiva já não é por que seguimos aquela tropa.
É
o que, dentro de nós, temos tanto medo de perder que nos faz entregar a ela a
nossa própria consciência.
ANEXO – Versão com visão sociológica
A Tropa, a
Mentira e o Preço da Identidade
Quando a
necessidade de pertencer nos leva a defender aquilo que nos enfraquece
Por Hiran de Melo
Há
uma contradição dolorosa na condição humana: podemos chegar ao ponto de
defender aqueles que nos prejudicam, combater aqueles que poderiam nos ajudar e
chamar de liberdade a submissão a quem nos oferece uma identidade.
Como
alguém se filia a uma tropa que combate os seus próprios interesses?
Como
o trabalhador que depende de direitos, o pobre que necessita de proteção social
e o cidadão que precisa de serviços públicos passam a defender forças políticas
que desvalorizam essas mesmas conquistas?
Talvez
a resposta comece por uma necessidade anterior à política: o desejo de
pertencer.
O
ser humano não busca apenas condições para viver. Busca também uma razão para
se reconhecer no mundo, um grupo em que possa ser acolhido e uma narrativa que
lhe permita sentir que sua existência tem valor. Quando a realidade lhe nega
reconhecimento, qualquer promessa de grandeza pode adquirir a força de uma
revelação.
É
nesse terreno que a extrema-direita encontra uma de suas oportunidades mais
eficazes. Ela não oferece apenas um projeto de poder. Oferece uma identidade,
uma comunidade de semelhantes e a possibilidade de o indivíduo sentir-se
superior àqueles que, na vida concreta, parecem ocupar posições mais
favoráveis.
O
preço dessa filiação, entretanto, pode ser a renúncia à própria capacidade de
julgar.
A pobreza que precisa esconder a si mesma
Viver
em uma sociedade profundamente desigual não significa, necessariamente,
desenvolver consciência da desigualdade. Às vezes, a experiência da pobreza
produz vergonha, ressentimento e o desejo de distanciar-se daqueles que
enfrentam as mesmas dificuldades.
O
indivíduo deixa de enxergar as condições que limitam suas oportunidades e passa
a interpretar sua situação como uma falha exclusivamente pessoal. Em vez de
questionar por que tantos trabalham muito e continuam vivendo com tão pouco,
começa a acreditar que lhe falta apenas uma oportunidade para alcançar a
riqueza que considera merecer.
A
promessa populista encontra aí um terreno fértil.
Você
não é pobre, dizem-lhe, é um vencedor impedido de prosperar. Não é um
trabalhador submetido à precariedade, mas um empreendedor que precisa livrar-se
das amarras do Estado. Não são os privilégios dos poderosos que precisam ser
questionados, mas os direitos concedidos aos que estão abaixo de você.
A
pobreza, então, deixa de ser compreendida como uma condição social que exige
respostas coletivas e passa a ser tratada como uma vergonha individual a ser
superada.
E
acontece algo ainda mais perverso: para preservar a imagem de vencedor que lhe
foi oferecida, o indivíduo começa a combater os instrumentos que poderiam
melhorar suas condições de vida.
Defende
a redução de direitos trabalhistas, embora dependa deles. Desconfia das
políticas sociais, embora sua família possa precisar delas. Rejeita serviços
públicos de qualidade, embora não disponha de recursos para substituí-los por
alternativas privadas.
Não
é que tenha deixado de possuir interesses materiais. É que aprendeu a
subordiná-los a uma necessidade de reconhecimento.
A tropa oferece aquilo que a realidade nega
Toda
tropa precisa de alguma coisa que reúna seus integrantes. Na política, essa
força nem sempre nasce de um programa de governo. Pode nascer da fabricação de
inimigos.
A
narrativa apresenta um país ameaçado, uma sociedade corrompida e um passado
supostamente glorioso que teria sido roubado de seus verdadeiros donos. De um
lado, os homens e mulheres de bem; do outro, os corruptos, os comunistas, os
professores doutrinadores, os jornalistas mentirosos, os artistas inúteis e os
beneficiários de políticas sociais.
A
realidade, que é complexa e contraditória, transforma-se numa disputa moral
entre puros e impuros.
Nesse
cenário, o líder deixa de ser alguém que deve prestar contas de seus atos e
passa a ser o representante de uma comunidade ferida. Suas contradições são
relativizadas, suas falhas são justificadas e suas derrotas tornam-se provas de
perseguição.
A
crítica já não é examinada pelo que demonstra, mas pela identidade de quem a
apresenta. Se vem de fora da tropa, é suspeita. Se contraria o líder, é
traição.
Assim,
a lealdade passa a valer mais do que a verdade.
O
integrante não precisa concordar com todas as ideias do grupo. Precisa apenas
aprender a desconfiar de tudo aquilo que possa ameaçar o vínculo que lhe dá
segurança. Aos poucos, já não pergunta se determinada afirmação é verdadeira,
mas se aceitá-la ou rejeitá-la o aproxima ou o afasta dos seus.
A
mentira deixa de ser somente um instrumento de manipulação. Torna-se uma senha
de pertencimento.
E
talvez essa seja uma das mais perigosas formas de aprisionamento: aquela em que
o prisioneiro confunde as grades com os limites que protegem sua identidade.
Quando o ressentimento escolhe o alvo errado
O
ressentimento não nasce necessariamente de uma injustiça imaginária. Muitas
vezes, nasce de sofrimentos reais, de oportunidades negadas, de humilhações
acumuladas e da percepção de que alguns sempre encontram portas abertas
enquanto outros precisam justificar até o direito de entrar.
O
problema começa quando a dor é conduzida para longe de suas causas.
Em
vez de questionar a concentração da riqueza, o cidadão é estimulado a odiar
quem recebe um benefício social. Em vez de discutir a precarização do trabalho,
aprende a desprezar os sindicatos e os direitos que protegem os trabalhadores.
Em vez de exigir eficiência e responsabilidade dos governantes, aceita que o
fracasso seja atribuído a inimigos internos.
A
indignação permanece, mas perde sua capacidade de discernimento.
É
como se alguém, ferido por uma pedra, passasse a odiar a mão que lhe oferece um
curativo, enquanto agradece àquele que continua atirando pedras, desde que o
agressor vista as cores de sua tropa.
O
sofrimento é verdadeiro. O inimigo, porém, foi escolhido por outra pessoa.
É
assim que o ressentimento pode ser reciclado politicamente: transforma-se a
insatisfação legítima em hostilidade contra aqueles que compartilham a mesma
vulnerabilidade. Os que pouco possuem são levados a defender os privilégios dos
que muito possuem, como se a proximidade simbólica com a riqueza pudesse
substituir o acesso real a ela.
A
desigualdade permanece. O conflito, entretanto, muda de direção.
O Estado que serve ao líder
Há
uma contradição reveladora no populismo que condena a intervenção do Estado
quando ela protege os mais vulneráveis, mas recorre à máquina pública quando
precisa preservar o próprio poder.
No
Brasil, durante a campanha eleitoral de 2022, o governo do Presidente Candidato
a reeleição ampliou benefícios e adotou medidas econômicas destinadas a
diferentes segmentos da população. A iniciativa expôs uma tensão entre o
discurso que demonizava a proteção social e o uso de recursos públicos para
conquistar apoio político.
A
questão não está em considerar ilegítimo todo benefício concedido em ano
eleitoral. Está em perceber a diferença entre defender uma política pública por
seu valor social e utilizá-la como instrumento circunstancial de sobrevivência
política.
O
Estado, que deveria ser compreendido como uma instituição a serviço da
sociedade, passa a ser apresentado como inimigo quando ampara os pobres e como
aliado quando atende às conveniências do poder.
A
incoerência, contudo, nem sempre afasta os seguidores. Quando a identidade
política se torna mais importante do que a avaliação dos resultados, o eleitor
encontra justificativas para aquilo que condenaria no adversário.
O
mesmo ato pode ser corrupção de um lado e esperteza do outro; desperdício
quando beneficia o grupo rival e investimento quando favorece o seu.
Não
é a realidade que estabelece o julgamento. É a filiação que decide o
significado da realidade.
O preço de pertencer
Existe
uma espécie de solidão que não decorre da ausência de companhia, mas da
impossibilidade de discordar sem colocar em risco o lugar que ocupamos entre os
outros.
Quem
depende emocionalmente de uma comunidade pode começar cedendo em questões
pequenas. Depois, silencia diante de contradições evidentes. Por fim, passa a
repetir aquilo em que talvez nunca tenha acreditado, porque já não sabe
distinguir suas convicções pessoais das opiniões que precisa defender para
continuar pertencendo.
A
tropa oferece proteção contra a insegurança de pensar sozinho, mas cobra um
preço: a entrega progressiva da autonomia.
E
quanto maior o investimento emocional nessa identidade, mais difícil se torna
reconhecer o engano. Admitir que o líder falhou pode significar admitir que se
errou durante anos, que se desprezaram pessoas injustamente e que se defenderam
ideias contrárias aos próprios interesses.
Para
evitar essa dor, muitos preferem aprofundar a crença. A cada contradição,
encontram uma nova justificativa; a cada evidência contrária, desconfiam ainda
mais de quem a apresenta.
O
orgulho, que deveria proteger a dignidade, converte-se em obstáculo à
consciência.
Não
é fácil abandonar uma tropa quando ela se tornou o lugar onde aprendemos a nos
reconhecer. Às vezes, é mais confortável continuar defendendo uma mentira
compartilhada do que enfrentar a verdade sozinho.
Mas
nenhuma identidade deveria exigir que renunciássemos à inteligência, à
dignidade ou à capacidade de rever nossas escolhas.
A liberdade de deixar de ser soldado
A
verdadeira emancipação política começa quando o cidadão deixa de perguntar
apenas quem está ao seu lado e passa a examinar a serviço de quem estão as
decisões que defende.
Quem
se beneficia das políticas que apoio? Quem paga por elas? Que direitos estou
disposto a perder em nome de uma promessa? Por que considero aceitável no meu
líder aquilo que condenaria em qualquer adversário?
Essas
perguntas não exigem que alguém abandone suas convicções conservadoras,
liberais ou progressistas. Exigem apenas que nenhuma convicção seja colocada
acima do exame crítico da realidade.
Uma
sociedade democrática não precisa de cidadãos que pensem todos da mesma
maneira. Precisa de cidadãos capazes de discordar sem transformar o adversário
em inimigo e de reconhecer que a verdade não se torna falsa porque foi
apresentada por alguém de quem não gostamos.
A
política deixa de cumprir sua função quando a lealdade pessoal substitui a
responsabilidade pública, quando o espetáculo ocupa o lugar das propostas e
quando a indignação é utilizada para impedir que se investiguem as causas do
sofrimento coletivo.
O
cidadão não nasceu para ser soldado permanente de um líder. Seu compromisso
maior deve ser com a dignidade humana, a justiça, a liberdade e as condições
que permitem a todos viver com respeito.
Talvez
o primeiro passo para sair dessa tropa não seja mudar de lado, mas recuperar a
coragem de pensar sem pedir autorização ao grupo.
Porque
existe uma diferença fundamental entre pertencer a uma comunidade e
entregar-lhe a própria consciência.
A
identidade que nos exige combater nossos próprios interesses não nos liberta:
apenas nos oferece um nome honroso para a nossa submissão.
E
nenhuma bandeira deveria valer mais do que a vida digna que desejamos construir
sob ela.
Recomendo assistir o vídeo: https://youtu.be/pIxPzI-w25w?is=omw4Z390sZ1TFk6z


Comentários
Postar um comentário