A Política na Polis


Uma Constelação em Cada Loja

Fraternidade, Força e União: quando a Luz descobre que não brilha sozinha

Por Hiran de Melo

Houve um tempo, no fim do século passado, em que se dizia com ênfase, e com certo orgulho, que o Grande Oriente da Paraíba era uma constelação de estrelas.

Quem levanta os olhos numa noite limpa não vê constelação alguma. Vê pontos. Pontos de idades diferentes, de cores diferentes, separados por distâncias que o olho não alcança.

A constelação só existe para quem aprende a ligar os pontos.

A estrela que se apagou

Numa loja da Paraíba, essa verdade tomou forma de nome.

Ela nasceu de irmãos do REAA e se chamou Fraternidade e Luz. Teve seu apogeu. Depois, teve sua queda. Toda estrela que brilha muito sabe, em algum momento, o que é a noite.

Mas houve quem não aceitasse o escuro como sentença. Irmãos, também eles do REAA, ergueram a loja de novo. E, ao olhar para o que restava, perceberam algo que o apogeu nunca lhes tinha ensinado: quem tinha a Luz também possuía a Força e a União.

A Luz nunca fora o fim do caminho.
Era a semente do que ainda faltava nomear.

Então o título mudou. Fraternidade, Força e União. E com ele, o rito: a loja adotou o Adonhiramita.

Não foi negar a origem. Foi descobrir que a origem era maior do que o rito que a abrigava.

Muitas raízes, uma só casa

Hoje, sob esse mesmo teto, sentam-se irmãos de raízes diversas.

Alguns vêm do Rito Brasileiro.
Outros, do Escocês Antigo e Aceito.
Outros, do York.
Outros, do Adonhiramita.

E não se trata apenas de origem. Muitos dos irmãos do quadro atual da Loja possuem, hoje, vínculos vivos com outros ritos, e até ocupam neles cargos importantes. Cada um carrega sua linguagem, seus símbolos, seu modo de ler o mesmo mistério, e os traz consigo quando cruza a porta do templo.

Alguém poderia temer que tanta diferença fosse ruído. Talvez seja o contrário. Talvez a diferença seja exatamente aquilo que impede a Loja de se tornar um espelho, onde todos só se reconhecem no que já eram.

Quando muitos ritos se encontram sem que nenhum precise vencer, ninguém perde o próprio céu. Todos passam a ver mais longe.

O que a noite ensinou

A loja aprendeu, pelo caminho mais duro, que nenhuma dessas palavras se sustenta sozinha.

Dois pontos traçam apenas uma linha. Uma linha aponta, mas não abriga. É preciso um terceiro ponto para que a figura ganhe corpo, e o triângulo é a mais simples das figuras que se firmam sozinhas. Tire-lhe um lado e ele cede.

Três palavras no nome. Três vértices. E, no meio, uma chama.

Fraternidade e Força

A Força sem Fraternidade endurece. Começa como firmeza e termina como muralha. Quem manda passa a ser temido, quem é temido deixa de ser ouvido, e o que era pilar vira grilhão.

Mas a Fraternidade sem Força tampouco resiste. É afeto sem esqueleto: comove no dia bom e se desfaz na primeira tempestade. Bondade que não sabe carregar peso acaba sendo carregada.

Força e União

A União sem Força é um abraço de quem não consegue ficar de pé. Muitos que se juntam para tombar juntos.

E a Força sem União é o braço mais poderoso do mundo, sozinho. Levanta uma pedra. Não ergue um templo.

União e Fraternidade

A União sem Fraternidade apenas junta escuridões.

Pode haver quadro cheio, sessão cheia, ata em dia, e ainda assim ninguém conhecer a dor do irmão ao lado. Somam-se presenças. Não se constroem vínculos.

E a Fraternidade sem União fica em sentimento privado: amizade que nunca virou obra, afeto que nunca aprendeu a ser edifício.

A chama no centro

Foi então que a loja compreendeu o que o seu primeiro nome já sabia. A Luz não é um quarto vértice. É aquilo que os três guardam, e aquilo que permite que se enxerguem entre si. Sem ela, o triângulo continua existindo, mas como figura no escuro, e ninguém distingue onde termina um lado e começa o outro.

Por isso a Luz sozinha se extingue. Precisa do calor da Fraternidade, do abrigo da Força contra o vento, da União que a faz passar de mão em mão, de uma geração à seguinte.

E os três, por sua vez, precisam da Luz para se reconhecerem.

Talvez seja por isso que, quando uma sessão vai bem, ninguém sabe dizer qual das três palavras a sustentou. Elas se equilibravam sem que ninguém percebesse. E quando algo falha, costumamos procurar culpados. Seria mais fértil perguntar qual lado do triângulo cedeu.

O nome da loja não mora em nenhuma das três palavras.

Mora no que as mantém de pé umas às outras.

E o que vale para a loja vale para cada irmão que atravessa a porta. Você também chegou trazendo a sua estrela. Sua origem, seu rito, sua história, o que você aprendeu a chamar de Luz.

A pergunta que a Loja nos faz, a cada sessão, é simples e não cabe em nenhum ritual:

somos apenas estrelas, cada qual em seu ponto do céu, ou já aprendemos a ser constelação?

Uma estrela ilumina.

Uma constelação orienta.

 

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