A Política na Polis
Não cagues no prato em que comeste
Uma pequena fábula sobre gratidão e poder
Hiran de Melo
Certa
manhã, o velho Barão de Monte Zepa caminhava com seu filho Milan pelas muralhas
do castelo.
Lá
embaixo, os camponeses trabalhavam sob o sol: colhiam o trigo, cuidavam do
gado, cortavam a lenha. Milan observava tudo com desprezo.
—
São lentos e ingratos — disse. — Se dependesse de mim, pagariam mais impostos e
aprenderiam pelo castigo quem manda nestas terras.
O
barão nada respondeu.
Conduziu
o filho ao salão, onde a mesa estava farta de pão, queijo, carne e frutas.
Serviu-lhe o melhor assado e esperou que comesse.
Quando
Milan terminou, empurrou o prato com indiferença.
Então
o velho segurou-lhe o braço:
— Meu filho, nunca cagues no prato em que comeste.
Milan
franziu a testa.
—
Que ensinamento é esse?
O
barão apontou para a mesa.
—
O trigo deste pão foi plantado por aquelas mãos que desprezas. O gado que
alimentou tua mesa foi cuidado por elas. A lenha que aquece teu castelo também
veio de seus braços. Até este salão, onde te sentas como senhor, depende do
trabalho daqueles que consideras inferiores.
Milan
ainda tentou argumentar:
—
Mas são servos. É para isso que servem.
O
barão aproximou-se da janela.
—
Servos também têm fome, medo, orgulho e memória. E lembra-te de uma coisa: o
homem que trabalha por ti pode fazê-lo por dever; mas aquele que acredita em ti
trabalhará por lealdade. Há uma diferença entre as duas coisas que só se
aprende quando a fortuna acaba.
Milan
ficou calado.
Naquela
tarde, pela primeira vez, desceu das muralhas.
Passou
pelos campos sem a comitiva habitual. Viu um velho curvado sobre a terra, uma
mulher carregando água e crianças recolhendo espigas que haviam ficado para
trás. Ninguém o cumprimentou. Alguns apenas baixaram os olhos.
Aquilo
o incomodou mais do que qualquer insulto.
No
dia seguinte, Milan voltou aos campos.
Dessa
vez, parou diante do velho que vira trabalhando.
—
Quanto tempo levas para colher uma fileira dessas?
O
homem levantou os olhos, desconfiado.
—
Depende do sol, meu senhor. E das costas.
Milan
olhou para as próprias mãos, que nunca haviam conhecido uma enxada.
Naquela
noite, sentou-se novamente à mesa. Diante dele estava o mesmo pão de todos os
dias.
Mas
já não parecia o mesmo pão.
Pensou
nas mãos que haviam enterrado a semente, esperado a chuva, enfrentado o sol e
carregado o trigo até o castelo.
Então
compreendeu que seu prato nunca estivera cheio apenas de comida.
Estava
cheio de trabalho alheio.
E,
pela primeira vez, sentiu vergonha de ter chamado de inferiores aqueles de quem
dependia.
Meses
depois, quando assumiu parte das terras do pai, Milan não se tornou um homem
brando. Aprendeu, porém, a distinguir autoridade de arrogância.
Manteve
os impostos, mas deixou de inventar cobranças. Exigiu trabalho, mas passou a
ouvir as queixas. E, quando algum nobre propunha castigos desmedidos aos
camponeses, Milan lembrava a frase do pai:
—
Não cagues no prato em que comeste.
Com
o tempo, os celeiros ficaram mais cheios, as terras mais cuidadas e o castelo
mais seguro.
Só
então Milan entendeu a última lição do velho barão:
um
senhor pode obrigar um homem a servi-lo por algum tempo; mas somente o respeito
pode fazê-lo desejar que a casa do senhor permaneça de pé.
Moral
Não
desprezes aquilo que te sustenta.
Quem
humilha as mãos que lhe dão o pão pode conservar o castelo por algum tempo, mas
cedo ou tarde ficará sozinho diante de uma mesa vazia.
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