A Política na Polis
A Pedra Que
Ama e a Pedra Que Constrói
Sobre a caridade que lapida o homem e a caridade que lapida o
mundo
Por Hiran de Melo
Meus
Irmãos,
Toda
mão que ajuda parece igual — até se ver o que ela carrega.
Uma carrega um pano. A outra, um cinzel.
A
primeira nasce de um coração descrito, há muitos séculos, por um apóstolo que
nunca falou em ferramentas nem em Templo, mas que sabia tudo sobre pedras
humanas. Disse ele que a caridade é sofredora, é benigna. Que não se
ensoberbece, não busca os seus interesses, não se alegra com a injustiça.
Disse, sobretudo, que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
É
uma descrição do caráter da caridade. Do que ela é, por dentro, antes de
tocar em qualquer coisa fora de si.
A caridade que cobre
Essa
caridade primeira alivia a dor de hoje. Dá o pão, o cobertor, o auxílio
necessário. E isso também é amor — paciente, humilde, que não se vangloria do
bem que faz. É a caridade de quem serve sem esperar reconhecimento, de quem não
humilha o irmão que tropeça, de quem, ao vê-lo cair, estende a mão em vez de
apontar o dedo.
Mas
existe uma pergunta que precisa vir depois:
O que podemos fazer para que essa mão não precise pedir amanhã?
A caridade que lapida
É
nesse ponto que a caridade deixa de ser apenas virtude e começa a se
transformar em obra. Às vezes, ajudar é oferecer um alimento. Outras vezes, é
ajudar alguém a conseguir um documento, aprender um ofício, voltar à escola,
encontrar uma oportunidade — ou simplesmente descobrir que ainda existe uma
porta que pode ser aberta.
O
verdadeiro trabalho não é esconder a aspereza da pedra. É ajudá-la a encontrar
sua forma.
E
aqui as duas caridades — a de Paulo e a do cinzel — deixam de ser duas coisas.
Porque não se lapida uma pedra com raiva, nem com pressa, nem com desprezo por
sua dureza. Lapida-se com a mesma paciência, a mesma benignidade, a mesma
ausência de vaidade que o Apóstolo descreveu. A caridade que constrói não é uma
caridade diferente da caridade que ama. É a mesma caridade, quando decide não
parar na intenção.
O que a caridade não é
"Não
se alegra com a injustiça, porém se alegra com a verdade." Eis o princípio
que separa a caridade da conivência. A verdadeira caridade não cobre a pedra
para que ninguém veja sua aspereza — ela também não finge que a pedra não
precisa ser trabalhada. Amar o irmão é desejar que ele se aperfeiçoe, sem
humilhá-lo, mas também sem abandoná-lo à sua própria bruteza. Uma esmola que se
repete para sempre, sem nunca abrir caminho, não é caridade plena. É pano.
A Loja como pedreira
Talvez
seja aí que um lema tantas vezes repetido — a caridade fortalece o presente e
garante o futuro — encontre seu sentido mais profundo. O presente pede a nossa
mão. O futuro pede o nosso compromisso. Na Maçonaria, não basta desejar o bem.
É preciso trabalhar para que o bem encontre forma, lugar e permanência.
Porque
uma Loja pode distribuir muitos panos e continuar cercada de pedras brutas. Mas
quando transforma solidariedade em oportunidade, assistência em autonomia,
compaixão em compromisso — começa verdadeiramente a construir. O Templo não se
ergue escondendo as imperfeições das pedras. Ergue-se quando cada pedra, depois
de trabalhada, encontra seu lugar ao lado das outras.
Que
cada irmão, ao contemplar sua própria pedra bruta, não pergunte apenas tenho
sido paciente, tenho servido sem esperar recompensa — pergunte também: o que ajudei a construir, além do alívio de um dia?
Porque
a fé passa, e um dia se cumpre no que já via. A esperança passa, e um dia se
cumpre no que já esperava. Mas a caridade — quando não apenas ama, mas constrói
— não passa nunca: fica de pé, pedra sobre pedra, no Templo que continua depois
que todos nós já formos apenas memória.
Não
uma esmola que desaparece.
Uma
pedra que fica.

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