A Política na Polis


A Lanterna e o Vigia

Sobre a ordem que se ergue pelo medo e a ordem que se tece pelo vínculo

Por Hiran de Melo

Existe um instante em que a lanterna se acende num quarto que se julgava limpo.

Os móveis estão onde sempre estiveram. As paredes, intactas. Mas agora se vê o que a penumbra guardava: a poeira nos cantos, o mofo escondido atrás da cômoda, os passos que se moviam sem que ninguém os ouvisse.

É assim que chegam os escândalos.

Figuras de relevo, no coração do Estado, flagradas no que fingiam não fazer. E a nação inteira, de lanterna na mão, pergunta: como foi possível?

A explicação de sempre

Costuma-se responder que foi preciso pactuar. O poder se reparte entre grupos que o disputam, cada grupo cobra seu preço, governar é ceder. E de tanto ceder, cede-se também a decência. Acordos. Alianças. Conveniências.

Talvez a explicação seja verdadeira. Talvez seja apenas confortável.

Porque dela nasce, quase de imediato, o desejo do vigia forte. Alguém que ponha ordem na casa. Um Estado mais firme, mais concentrado, menos refém de negociações, uma só mão para que tantos interesses não disputem o mesmo pão. E a alma cansada do cidadão pensa: se o poder fosse mais inteiro, seria mais limpo.

O vigia que ninguém vigia

Mas o vigia forte tem uma particularidade: ninguém o vigia. Sua lanterna aponta para fora, para o que se move nas ruas, para o que murmura nas praças, e nunca para dentro da própria casa.

Então a história repete uma descoberta amarga. Onde o poder se concentrou, a corrupção também morava. Só que morava sem barulho. Não é que ali não houvesse escândalos. É que não havia quem pudesse pronunciá-los.

O escuro nunca foi ausência de sujeira. Era ausência de testemunhas.

Quem sabia, calava.
Quem falava, desaparecia.
Quem lucrava, sorria.

E o que se admirava como paz era apenas medo bem organizado.

Ordem ali havia.

Verdade, não.

A pergunta que voltou a bater à porta

Foi diante dessa descoberta que uma ideia antiga voltou a bater à porta. Em 1840, Proudhon escreveu, como quem lança uma pedra contra a vidraça do senso comum: "Eu sou anarquista." Não era elogio ao caos. Era provocação contra a crença mais bem instalada da política moderna: a de que, sem governo, não há ordem.

Desde Hobbes, aprendemos a ver o ser humano como lobo do seu semelhante, e só um soberano conteria a fera. O anarquismo pergunta o que raramente temos coragem de perguntar: e se o homem não fosse só fera? E se a cooperação também fosse natureza? A palavra grega, afinal, nomeia apenas a ausência de um comando supremo. Não a ausência de laço.

E a vida cotidiana sussurra a mesma dúvida. Ninguém precisa de um soberano para organizar o mutirão, a vaquinha, o velório da vizinha, a fila que se forma sozinha na porta da padaria. Há uma ordem que nasce de baixo, quase sem que percebamos, e que dura enquanto houver confiança.

A horizontalidade não é um paraíso

Seria injusto com a verdade fazer da roda um céu.

Onde ninguém manda, alguém sempre acaba mandando sem que se veja. A roda sem regra vira, cedo ou tarde, o círculo do mais falante, do mais insistente, do mais antigo. O poder não desaparece porque mudamos sua geometria. Apenas procura outra fresta.

Talvez o risco do vertical seja uma sombra só, enorme, e o do horizontal sejam muitas sombras pequenas, difíceis de encontrar.

Então a pergunta muda de lugar.

Não é: com Estado ou sem Estado?

É: quantas mãos seguram a lanterna?

Duas ordens

Por isso o verdadeiro debate talvez não seja "anarquia ou ordem", mas que tipo de ordem queremos.

Uma ordem que se obedece, ou uma ordem que se compreende.
Uma ordem que se teme, ou uma ordem que se escolhe.
Uma ordem que nos cala, ou uma ordem que nos convoca.

A primeira se sustenta na obediência e na coesão forçada. A segunda, em pactos livres e revisáveis, na autonomia, na responsabilidade partilhada. E há uma diferença que parece pequena.

Mas muda tudo.

Um pacto que não pode ser revisto já deixou de ser pacto. Virou sentença.

A lanterna que te cabe

Nada disso é apenas sobre palácios.

Todo escândalo grande é a versão nacional de um hábito pequeno. O silêncio na reunião do condomínio, quando a conta não fecha. O favor que se aceita na repartição. A decisão tomada na sala ao lado, e comunicada depois como fato consumado. Cada um de nós guarda, em algum canto da vida, uma pequena parcela de poder: uma chave, uma assinatura, uma palavra que pesa mais que as outras.

E é ali, no pouco, que se decide o que faremos com o muito.

Nenhum Estado é mais honesto do que os pequenos poderes que o compõem. Nenhuma lanterna substitui a consciência: ela apenas mostra o que a consciência já deveria ter visto.

A ordem que nasce do medo precisa de um vigia. A ordem que nasce do vínculo precisa que cada mão aprenda a segurar a lanterna, e a aceitar que a apontem também para si.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog