A Política na Pólis


Entre o Esquadro e o Poder

Quando a Maçonaria se torna campo de disputas

Por Hiran de Melo

Existe uma Maçonaria que aprendemos a reconhecer pelos símbolos.

Há o esquadro, o compasso, o malho, o cinzel, a pedra bruta, a luz.

Há também as palavras que repetimos há séculos: liberdade, igualdade, fraternidade.

E existe outra Maçonaria.

Uma que não aparece nos símbolos, mas nas relações entre os homens.

Uma Maçonaria feita de eleições, cargos, disputas, alianças, prestígio, reconhecimento, silêncios, aproximações e afastamentos.

É nessa Maçonaria menos visível que os ideais encontram a realidade.

E é justamente aí que começa a pergunta que talvez seja mais difícil de fazer:

o que acontece quando uma organização criada em nome da fraternidade passa a ser também um lugar de disputa pelo poder?

Não se trata de acusar a Maçonaria de ser aquilo que seus princípios condenam.

Trata-se de reconhecer que nenhuma instituição humana está fora das contradições humanas.

A fraternidade é uma ideia.

A organização é uma prática.

E entre uma e outra existe um território onde os homens negociam, interpretam, disputam e, muitas vezes, redefinem aquilo que dizem defender.

A Maçonaria que imaginamos e a Maçonaria que praticamos

Talvez seja confortável pensar que a Maçonaria existe apenas para realizar seus ideais.

Mas organizações não vivem apenas de ideias.

Elas precisam de estatutos, autoridades, rituais, procedimentos, recursos, eleições, reconhecimento, regras de pertencimento e mecanismos de decisão.

Precisam de homens.

E os homens chegam trazendo suas virtudes, mas também suas ambições.

Trazem generosidade, mas também vaidade.

Trazem espírito de serviço, mas também desejo de reconhecimento.

Trazem o compromisso com a fraternidade, mas não deixam do lado de fora do Templo aquilo que aprenderam no mundo.

Por isso, a contradição não é um acidente.

Ela é parte da própria existência institucional.

Uma organização maçônica pode falar em igualdade e, ao mesmo tempo, construir hierarquias.

Pode falar em fraternidade e experimentar conflitos.

Pode defender a liberdade e estabelecer normas rigorosas.

Pode combater privilégios e produzir distinções.

Pode ensinar o desapego ao poder e, simultaneamente, transformar determinados cargos em objetos de desejo.

Nada disso torna automaticamente falsa a Maçonaria.

Mas torna necessário olhar para ela com mais honestidade.

Porque o verdadeiro problema não está em existir poder.

O problema começa quando o poder deixa de ser percebido como poder.

Quem define o que é justo?

Quando dizemos que determinada decisão é justa, estamos fazendo mais do que expressar uma opinião.

Estamos utilizando um critério.

Mas quem estabeleceu esse critério?

Quando afirmamos que determinada escolha é fraterna, o que exatamente queremos dizer?

Quando defendemos a igualdade, igualdade entre quem?

E igualdade em relação a quê?

É possível que duas pessoas estejam diante da mesma regra e tenham condições completamente diferentes para obedecê-la.

É possível que uma decisão seja formalmente igual para todos e, ainda assim, produza efeitos desiguais.

É possível que uma instituição diga que todos têm voz, mas alguns sejam ouvidos com muito mais atenção do que outros.

É possível que uma organização proclame que todos os Irmãos são iguais, mas certos nomes, certos cargos, certas relações e determinadas histórias possuam um peso maior nas decisões.

É nesse ponto que a Maçonaria deixa de ser apenas um conjunto de princípios e passa a ser um campo de disputas.

Não necessariamente disputas desonestas.

Não necessariamente disputas violentas.

Mas disputas pela definição do significado das próprias palavras que orientam a instituição.

Porque justiça não é apenas uma palavra.

Igualdade não é apenas uma palavra.

Fraternidade não é apenas uma palavra.

São palavras pelas quais os homens disputam o direito de dizer o que elas significam.

O poder não desaparece porque mudamos seu nome

Há uma ingenuidade que pode atingir qualquer organização fraternal: acreditar que, por utilizarmos uma linguagem elevada, deixamos de participar das relações de poder.

Não deixamos.

O poder não desaparece quando colocamos o avental.

Não desaparece quando fazemos o sinal.

Não desaparece quando nos chamamos de Irmãos.

Ele apenas muda de forma.

Às vezes aparece em uma eleição.

Às vezes em uma nomeação.

Às vezes na capacidade de influenciar uma decisão.

Às vezes no prestígio de um nome.

Às vezes na proximidade com quem ocupa determinada função.

Às vezes, de maneira muito mais silenciosa, na capacidade de fazer com que uma determinada opinião pareça naturalmente mais legítima do que outra.

Há poder também naquele que decide quem merece ser ouvido.

E há poder naquele que consegue fazer com que os outros desejem aquilo que ele próprio deseja.

Por isso, uma organização maçônica madura não deveria perguntar apenas:

“Quem tem o poder?”

Deveria perguntar também:

“Como o poder circula entre nós?”

Quem fala?

Quem é ouvido?

Quem é lembrado?

Quem é esquecido?

Quem pode discordar sem ser tratado como inimigo?

Quem pode questionar uma decisão sem ser acusado de romper a fraternidade?

São perguntas incômodas.

Mas talvez sejam precisamente as perguntas que uma fraternidade verdadeira precisa suportar.

O ritual forma — mas também enquadra

O ritual é uma das grandes forças da Maçonaria.

Ele organiza o tempo.

Organiza o espaço.

Organiza os gestos.

Organiza a palavra.

Organiza a posição de cada homem.

Nada disso é necessariamente negativo.

Ao contrário.

O ritual pode ensinar disciplina, atenção, respeito, autocontrole e pertencimento.

Mas todo processo de formação também produz uma determinada maneira de ser.

O homem que aprende a permanecer em silêncio aprende algo sobre si mesmo.

O homem que aprende a obedecer a uma regra aprende algo sobre autoridade.

O homem que aprende a ocupar determinado lugar aprende algo sobre hierarquia.

O homem que aprende a respeitar o outro aprende algo sobre limite.

O problema não está em formar.

O problema está em formar sem permitir que o formado compreenda como está sendo formado.

Porque uma disciplina que produz consciência pode libertar.

Mas uma disciplina que impede a reflexão pode apenas produzir conformidade.

A diferença entre uma coisa e outra talvez esteja na possibilidade de perguntar:

“Por que fazemos assim?”

E ainda mais:

“Poderíamos fazer de outro modo?”

A fraternidade também pode excluir

Essa talvez seja uma das contradições mais difíceis de aceitar.

Toda comunidade produz pertencimento.

E todo pertencimento estabelece fronteiras.

Há os que estão dentro.

Há os que estão fora.

Há os que conhecem os códigos.

Há os que ainda precisam aprendê-los.

Há os reconhecidos.

Há os esquecidos.

Há os que possuem legitimidade.

Há os que precisam conquistá-la.

A fraternidade pode aproximar.

Mas também pode criar um círculo no qual alguns são mais irmãos do que outros.

Não porque isso esteja escrito no ritual.

Mas porque as relações humanas frequentemente transformam princípios em práticas diferentes.

E aqui reside um perigo silencioso:

quando a linguagem da fraternidade passa a ser utilizada para impedir a crítica.

“Somos irmãos” não deveria significar “não podemos discordar”.

Ao contrário.

Talvez ser irmão seja exatamente poder discordar sem destruir o vínculo.

Uma fraternidade que exige concordância permanente não é necessariamente fraternidade.

Pode ser apenas conformidade revestida de afeto.

O pêndulo não está apenas entre sonho e realidade

Há um movimento que atravessa toda organização maçônica.

De um lado, o ideal.

Do outro, a prática.

De um lado, aquilo que afirmamos ser.

Do outro, aquilo que efetivamente fazemos.

O pêndulo oscila.

Quando nos aproximamos demais do ideal, corremos o risco de transformar a Maçonaria em uma imagem perfeita que nenhum homem consegue realizar.

Quando nos aproximamos demais da realidade, corremos o risco de aceitar as contradições como se fossem inevitáveis.

Entre esses extremos existe o trabalho maçônico.

O ideal precisa interrogar a prática.

E a prática precisa ser permanentemente julgada pelo ideal.

É nesse movimento que a Maçonaria pode continuar viva.

Porque o problema não é descobrir que somos contraditórios.

O problema é parar de perceber a contradição.

A organização que se esquece de se examinar

Talvez o maior perigo de uma instituição não seja cometer erros.

Instituições humanas sempre cometerão.

O perigo maior é construir mecanismos que tornem os erros invisíveis.

Quando toda crítica é interpretada como deslealdade.

Quando toda discordância é vista como ameaça.

Quando o questionamento é confundido com desrespeito.

Quando a tradição passa a ser utilizada para impedir qualquer transformação.

Quando a autoridade deixa de prestar contas porque acredita que sua legitimidade é suficiente.

Nesse momento, a instituição começa a proteger mais a si mesma do que os valores que justificaram sua existência.

E uma organização fundada em nome da liberdade precisa ter coragem para olhar para as próprias prisões.

Uma organização fundada em nome da igualdade precisa examinar as próprias desigualdades.

Uma organização fundada em nome da fraternidade precisa perguntar quem está sendo deixado do lado de fora do círculo.

Talvez essa seja uma das formas mais difíceis de trabalhar a pedra bruta:

lavrar a própria instituição.

Não basta dizer que somos irmãos

Existe uma fraternidade das palavras.

E existe uma fraternidade dos atos.

A primeira é fácil.

A segunda exige trabalho.

É fácil chamar alguém de Irmão quando concordamos com ele.

Mais difícil é continuar chamando-o assim quando ele pensa diferente.

É fácil defender igualdade quando estamos em posição de vantagem.

Mais difícil é aceitar a divisão do espaço, do reconhecimento e da autoridade.

É fácil falar de justiça quando ela favorece aquilo que consideramos correto.

Mais difícil é aceitar uma decisão justa quando ela contraria nossa vontade.

Talvez seja exatamente aí que a Maçonaria seja colocada à prova.

Não no momento em que pronunciamos seus princípios.

Mas quando os princípios entram em conflito com nossos interesses.

É quando a fraternidade deixa de ser discurso e se torna escolha.

Entre a pedra e o espelho

O maçom costuma olhar para a pedra bruta.

Mas talvez precise, de tempos em tempos, olhar para o espelho.

Porque a pedra é aquilo que queremos transformar.

O espelho mostra aquilo que somos.

E uma organização maçônica também precisa desse espelho.

Precisa perguntar se os valores que proclama encontram correspondência nas relações que constrói.

Precisa reconhecer que o poder existe.

Que a disputa existe.

Que a vaidade existe.

Que a ambição existe.

Que os interesses existem.

Mas precisa também reconhecer que existem consciência, responsabilidade, generosidade, serviço e capacidade de transformação.

A Maçonaria não precisa ser perfeita para ser necessária.

Mas precisa ser capaz de reconhecer suas imperfeições sem abandonar seus ideais.

Talvez a grandeza de uma instituição não esteja em afirmar que nunca se desviou do caminho.

Talvez esteja em possuir coragem para perceber quando se desviou e retornar.

O verdadeiro trabalho

No fim, talvez o trabalho maçônico mais difícil não seja construir organizações em nome da Maçonaria.

É fazer com que essas organizações continuem merecendo o nome que carregam.

Porque o nome não garante a prática.

O símbolo não garante a virtude.

O ritual não garante a consciência.

O cargo não garante o serviço.

E chamar alguém de Irmão não garante fraternidade.

Tudo isso precisa ser construído diariamente.

A verdadeira obra está naquele instante em que alguém poderia utilizar sua posição para beneficiar a si mesmo, mas escolhe servir.

Está naquele momento em que alguém poderia silenciar uma voz discordante, mas decide ouvi-la.

Está quando alguém poderia exigir igualdade apenas para os outros, mas aceita ser submetido ao mesmo critério.

Está quando alguém reconhece que justiça não é aquilo que simplesmente confirma sua vontade.

E talvez esteja, sobretudo, na capacidade de perceber que nenhuma instituição possui o monopólio da verdade sobre o justo, o igual e o fraterno.

Essas palavras precisam permanecer abertas à reflexão.

Porque uma Maçonaria viva não é aquela que encontrou todas as respostas.

É aquela que ainda conserva a coragem de fazer perguntas.

No Templo, aprendemos que a construção nunca termina.

Talvez isso também seja verdadeiro para nossas instituições.

Elas são pedras.

Nós somos os obreiros.

E, às vezes, precisamos interromper o trabalho para perguntar se estamos realmente construindo o Templo que imaginamos.

Porque pode acontecer de estarmos tão ocupados disputando quem segura o malho que já não percebamos a direção para a qual estamos construindo.

E quando isso acontece, talvez seja hora de voltar ao princípio.

Ao esquadro.

Ao compasso.

À pedra.

E, principalmente, à consciência.

Porque a Maçonaria não será aquilo que seus símbolos prometem.

Será aquilo que seus homens forem capazes de fazer com eles.

P∴ & A


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