A Política na Pólis


No Vazio de uma Visão de Futuro para o País

Quando a fogueira do conflito ilumina a praça, mas apaga o caminho

Por Hiran de Melo

“A multidão em silhueta ao redor da fogueira alta e a estrutura da casa — só o esqueleto e as linhas do projeto, ainda incompleta. O calor de um lado, o traço frio e inacabado do outro”.

Existe uma praça onde um povo se reúne para construir uma casa. Alguém traz tijolos. Alguém traz madeira. Alguém traz cal. Mas ninguém, até agora, trouxe a planta.

E então, em vez de desenhar juntos os cômodos onde essa gente pretende viver, os que ali estão se dividem em times. Discutem quem tem o direito de segurar o martelo. Gritam sobre quem ameaça derrubar o que ainda nem foi erguido. Acendem fogueiras — bonitas, ruidosas, que atraem multidão — e chamam isso de construção.

A fogueira ilumina a praça. Mas nenhuma fogueira, por maior que seja, desenha uma planta.

O conflito como anestesia

Talvez o conflito permanente não seja, como parece, o sinal de que existem projetos rivais disputando o mesmo território. Talvez seja exatamente o contrário: o sintoma de que nenhum dos lados terminou de imaginar para onde quer ir.

É mais fácil apontar um inimigo do que desenhar um destino. O inimigo já está pronto — basta escolhê-lo, vesti-lo com as piores intenções, e a plateia se organiza sozinha ao redor do ódio comum. Já o destino precisa ser inventado, discutido, ajustado, defendido com números e não apenas com bandeiras. O inimigo dá espetáculo. O destino dá trabalho.

E o trabalho, convenhamos, atrai bem menos aplausos do que o espetáculo.

Por isso um povo pode viver anos — às vezes décadas — mobilizado, engajado, dividido em times que se odeiam com sinceridade quase religiosa, sem que ninguém pergunte, em voz alta e por tempo suficiente: para onde vamos depois que a fogueira apagar?

A praça cheia e o mapa vazio

Há uma diferença entre mobilizar e conduzir.

Mobilizar é encher a praça. Conduzir é saber para onde a praça deveria caminhar.

Um povo mobilizado sem mapa não é um povo em marcha — é um povo em círculos. Vai, volta, ocupa o mesmo chão com bandeiras diferentes, acredita estar avançando porque o barulho aumenta, mas o horizonte continua exatamente onde estava.

Reconheça-se o mérito de quem sabe encher praças: não é pouco. Mobilizar corações dispersos, dar-lhes uma identidade, um inimigo comum, um sentimento de pertencimento — isso é, sim, um tipo de poder. Mas é um poder que emburrece com o tempo, porque não sabe fazer nada além de si mesmo. Sabe incendiar. Não sabe edificar.

E aqui mora a pergunta que incomoda: quantas gerações um país pode viver apenas incendiando, antes de perceber que ninguém, nesse tempo todo, estava desenhando a casa?

Quando o adversário vira o projeto

Existe um ponto perigoso em que o adversário deixa de ser apenas um obstáculo no caminho e passa a ser o próprio caminho. Nesse ponto, já não se caminha em direção a algo — caminha-se apenas contra alguém.

É uma armadilha sedutora, porque dá a ilusão de sentido. Ter contra quem lutar parece, por um tempo, o mesmo que ter para onde ir. Mas não é. Lutar contra o escuro não acende luz nenhuma — apenas ocupa o tempo que poderia ter sido usado para procurar o interruptor.

Um projeto de país não se mede pela intensidade com que combate seus opositores. Mede-se pela clareza com que responde a perguntas simples, dessas que nenhuma fogueira responde: como este povo vai envelhecer? Como vai trabalhar daqui a vinte anos? Que energia vai mover suas fábricas, suas casas, seus sonhos, quando as fontes de hoje já não bastarem? Que Estado este povo quer carregar nas costas, e quanto está disposto a pagar por ele?

Quem não responde a essas perguntas — e prefere responder apenas "eu, contra eles" — não está oferecendo um destino. Está oferecendo apenas mais lenha.

Da oposição à construção

Não se trata de negar o valor do confronto. Toda casa que já foi erguida também precisou, em algum momento, de gente disposta a discordar, a apontar o erro no projeto do vizinho, a recusar tijolos podres. O confronto tem seu lugar — é o atrito necessário entre visões diferentes de mundo.

O problema não é discordar. É discordar eternamente sem nunca chegar à pergunta seguinte, que é sempre a mesma: e então, o que propomos no lugar?

Talvez a maturidade de um povo não se meça pela ausência de conflito, mas pela capacidade de atravessá-lo sem se perder nele — de sair da fogueira com as mãos ainda livres para pegar o esquadro e o nível, e voltar ao trabalho de desenhar.

A planta que falta

Volto à praça. As fogueiras continuam acesas — quase sempre continuam. Há sempre um novo inimigo, uma nova ameaça, um novo escândalo para reacender o entusiasmo de quem já estava ali. E o povo, exausto de tanto se aquecer, segue sem perceber que ainda não tem onde morar.

Talvez o verdadeiro teste de qualquer força que deseje governar não esteja em sua capacidade de incendiar a praça — nisso, quase todos já provaram ser competentes — mas em sua coragem de, um dia, apagar a fogueira e mostrar a planta.

Porque a fogueira aquece por uma noite. Mas só a planta constrói a casa onde um povo pretende, de fato, morar.


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