A Política na Pólis

A Pedra que se Recusa a Ser Lapidada

Sobre tolerância, ignorância e o longo caminho até o outro

Por Hiran de Melo

Existe uma pedra que resiste ao cinzel. Não porque seja mais dura que as outras — todas as pedras brutas resistem, no início —, mas porque ainda não sabe que existe algo dentro dela esperando para ser revelado. Enquanto não sabe, defende-se. Ataca o que a toca. Chama de inimigo o instrumento que só queria libertá-la da própria bruteza.

Talvez seja essa a imagem mais honesta da intolerância: não um vício moral isolado, mas o gesto instintivo de uma pedra que ainda não se conheceu.

A Ignorância como Antítese da Tolerância

Etimologicamente, o ignorante não é apenas quem erra. É quem se recusa a olhar.

Diante do que desconhece — uma ideia, uma cultura, um rosto diferente do seu —, a reação mais antiga do homem não é a curiosidade. É o medo. Fecha-se. Julga primeiro, para não precisar entender depois.

Mas há outro caminho.

Quem busca o conhecimento deixa, aos poucos, de temer o que não conhece. Observa. Escuta. Deixa que o outro termine de falar antes de decidir quem ele é. E descobre, sem alarde, a lei mais simples de todas: quanto mais se conhece, menos se julga.

A tolerância, então, não nasce de um esforço de boa vontade. Nasce de um cinzel que trabalha por dentro.

O Aprimoramento Interior e o Autoconhecimento

Na Maçonaria, esse cinzel tem nome: desbastar a pedra bruta. Não a pedra do templo — a própria.

E desbastar a si mesmo exige, primeiro, admitir que também se está bruto.

Ignorar-se é isso: viver de automatismo, alheio às próprias falhas, virtudes e medos disfarçados de certeza. É repetir gestos sem perguntar de onde vêm. É condenar no outro exatamente aquilo que nunca se teve coragem de examinar em si.

Quando o golpe do cinzel finalmente alcança a própria pedra, três coisas acontecem quase ao mesmo tempo: descobre-se quão frágil e falível é a condição humana; dissolve-se a antiga ilusão de estar acima dela; nasce, no lugar da superioridade, algo mais raro — a empatia que reconhece no outro o mesmo canteiro de obras.

A Tolerância como Fundamento Maçônico

Por isso, quando se diz que a Maçonaria ensina, ao mesmo tempo, o autoconhecimento e a tolerância, não se está falando de duas lições. Mas de uma só, vista de dois ângulos.

Quem deixa de ignorar a si mesmo torna-se, sem esforço, mais aberto ao próximo — não por virtude, mas por reconhecimento. Quem já mediu as próprias fissuras não se assusta mais com as fissuras alheias. E a tolerância, que antes parecia um fardo imposto pela boa educação, revela-se o que sempre foi: sabedoria em ação, silenciosa, quase invisível.

A pedra que resistia ao cinzel não sabia que o golpe não era ataque — era revelação. Assim também o intolerante: não odeia o outro por maldade, mas por ainda não ter encontrado, em si mesmo, a face que teme reconhecer.

Talvez a tolerância não seja, afinal, uma virtude que se pratica sobre o outro. Talvez seja apenas o nome que damos ao dia em que finalmente paramos de resistir ao cinzel — e deixamos que ele revele, também em nós, o que sempre esteve ali, esperando.

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