Fraternidade, Universalidade e a Superação dos Paradigmas Anacrônicos
Quando a porta ainda tem gume, ninguém
atravessa inteiro
Por Hiran de Melo
Há
ideias que envelhecem sem perceber que envelheceram.
Continuam
sendo repetidas com a solenidade dos antigos juramentos, protegidas pelo
respeito às tradições, como se o tempo, por si só, fosse capaz de lhes garantir
legitimidade. Entretanto, a história ensina outra coisa: nem tudo o que atravessa os séculos permanece digno de
atravessar consciências.
Acreditamos
— ou talvez apenas desejemos acreditar — que uma instituição edificada sobre os
pilares da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade já teria aprendido a
reconhecer a dignidade humana antes de qualquer diferença acidental.
Mas
nem toda porta aberta conduz à liberdade.
Existem
portas que recebem o visitante com gestos de acolhimento enquanto,
silenciosamente, continuam exigindo que ele deixe parte de si do lado de fora.
São
portas que não negam explicitamente a entrada. Apenas tornam impossível a
travessia inteira.
É
exatamente aí que reside o problema.
Não
basta permitir a aproximação. É preciso abolir tudo aquilo que continua
mutilando a condição humana antes mesmo da iniciação.
Por
isso me surpreende o espanto que ainda desperta a simples defesa de que os
processos iniciáticos deveriam acontecer sem qualquer distinção de sexo ou de
afetividade.
Se
alguém ama um homem ou uma mulher; se nasceu homem ou mulher; se sua existência
percorre caminhos diferentes daqueles percorridos pela maioria — nada disso
altera sua capacidade de buscar a verdade, cultivar a virtude ou aperfeiçoar o
próprio espírito.
A
iniciação jamais aconteceu no corpo.
Ela
sempre aconteceu na consciência.
O
corpo é apenas o lugar por onde a existência atravessa o mundo.
A
consciência é o lugar onde ela aprende a transcender o próprio mundo.
Talvez
seja justamente isso que muitos ainda não consigam perceber.
Confundimos
símbolos com suas embalagens.
Protegemos
formas enquanto abandonamos seus significados.
Em
nome da tradição, muitas vezes preservamos apenas a casca, esquecendo que toda
tradição nasceu, um dia, como uma ousadia.
Aquilo
que hoje chamamos de tradição foi, em seu nascimento, uma ruptura.
Foi
alguém que teve coragem de enxergar além dos limites de sua época.
Existe
um fenômeno curioso na experiência humana.
Quanto
mais uma pessoa amplia sua percepção, menos confortável se torna dentro das
certezas coletivas.
Ela
passa a notar pequenas fissuras onde antes via muralhas sólidas.
Percebe
incoerências escondidas sob discursos impecáveis.
Escuta
silêncios que a maioria já naturalizou.
Não
se trata de pessimismo.
Muito
menos de rebeldia.
É
apenas a consequência inevitável de quem aprendeu que enxergar significa também
desaprender.
Toda
verdadeira consciência exige abandonar alguma ilusão.
E
toda ilusão abandonada deixa um vazio antes de abrir espaço para uma
compreensão maior.
Talvez
por isso tantos prefiram permanecer onde estão.
Paradigmas
oferecem segurança.
Mesmo
quando já não produzem justiça.
Mesmo
quando já não servem à fraternidade.
Mesmo
quando se tornaram obstáculos para aquilo que um dia pretendiam proteger.
Existe
uma estranha fidelidade que os seres humanos desenvolvem em relação às próprias
estruturas.
Não
importa se elas já perderam sua razão de existir.
Enquanto
forem familiares, parecem merecer ser preservadas.
Mas
nenhuma instituição permanece viva apenas porque conserva seus rituais.
Ela
permanece viva quando conserva sua capacidade de se deixar transformar pela
verdade.
O
contrário disso não é tradição.
É
fossilização.
A
verdadeira universalidade não consiste em levar todos a pensar da mesma
maneira.
Consiste
em reconhecer que aquilo que há de mais profundo no ser humano antecede todas
as diferenças superficiais.
A
fraternidade não elimina a diversidade.
Ela
elimina apenas a hierarquia construída sobre ela.
Quando
isso não acontece, o discurso da igualdade transforma-se numa elegante
decoração moral.
Bonita
nas paredes.
Invisível
na prática.
Há,
portanto, uma pergunta que talvez devêssemos fazer com mais honestidade.
O
que realmente estamos protegendo?
A
essência da iniciação?
Ou
apenas costumes que herdamos sem jamais perguntar por que foram criados?
Nem
toda herança merece ser perpetuada.
Algumas
existem precisamente para que uma geração encontre coragem suficiente para
encerrá-las.
Não
por desprezo ao passado.
Mas
por fidelidade ao futuro.
Talvez
muitas de nossas Potências ainda caminhem carregando o peso de paradigmas que
pertencem a séculos cujas perguntas já não são as nossas.
Enquanto
o mundo aprende a reconhecer a dignidade humana em sua universalidade,
continuamos discutindo atributos que pertencem à biologia, quando a iniciação
sempre pertenceu ao espírito.
É
um atraso silencioso.
E
todo atraso silencioso produz sofrimento invisível.
Quem
percebe isso dificilmente consegue voltar a olhar as instituições da mesma
maneira.
Não
porque deixou de amá-las.
Mas
justamente porque passou a amá-las o suficiente para desejar vê-las melhores.
O
amor verdadeiro nunca protege as limitações do ser amado.
Ajuda-o
a crescer.
Talvez
esse seja o preço da consciência.
Depois
de enxergar o gume escondido na porta, já não é possível continuar chamando de
acolhimento aquilo que ainda fere quem tenta atravessá-la.
E
talvez esse seja também o privilégio da consciência.
Porque,
uma vez que os olhos descobrem uma fraternidade verdadeiramente universal,
nenhuma tradição consegue convencê-los de que excluir alguém possa ser uma
forma legítima de preservar a luz.
A
iniciação nunca perguntou quem era a pessoa diante da porta.
Perguntou
apenas se ela possuía coragem suficiente para atravessar a si mesma.
E
isso continua sendo a única pergunta que realmente importa.
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