A Fábula da Perseguição

 Resposta a Francisco Carneiro Júnior

Por Hiran de Melo

Existe uma armadilha retórica tão antiga quanto a política: quando um homem perde no tribunal, muitas vezes ganha um mito. E o mito, ao contrário do fato, não precisa de prova. Precisa apenas de adjetivos.

O Sr. Francisco Carneiro Júnior escreveu um artigo cheio deles. Regime. Aniquilar. Perseguição. Delírio tecnocrático. Palavras fortes, ditas com convicção — mas nenhuma delas substitui o que falta ao texto: um único fato concreto que sustente a tese de que existe, no Brasil, uma "elite" organizada para destruir Jair Bolsonaro.

O que houve, e o que não houve

O que houve foi isto: o Sr. Jair Bolsonaro foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por fatos apurados em investigação. Respondeu a um processo. Teve advogados. Teve prazos. Teve recursos. Foi julgado por um tribunal previsto na Constituição, com ministros nomeados segundo regras conhecidas há décadas. Foi condenado.

Não houve sequestro noturno. Não houve tribunal de exceção. Não houve confissão sob tortura. Houve processo — a coisa mais banal e mais republicana que existe: alguém acusado, alguém que se defende, alguém que julga segundo a lei.

Chamar isso de "perseguição" não é uma descrição. É uma tradução — e toda tradução carrega a intenção de quem traduz.

A elite que não aparece

O artigo fala de uma "elite brasileira" em "delírio tecnocrático", movida por "autopercepção iluminista". É uma acusação grave. E, como toda acusação grave, deveria vir acompanhada de nomes, atas, provas de conluio.

Não vêm.

Em lugar de provas, vem uma imagem: a de um regime cego, seduzido por sua própria bolha, que ignorou os sinais vindos do NORTE. Mas trocar prova por imagem é exatamente o gesto que transforma um argumento em fábula.

Um Judiciário que julga um ex-presidente segundo o mesmo rito usado para qualquer outro réu não é uma elite perseguidora. É, no máximo, um Judiciário que não abre exceção para quem já ocupou o poder. Talvez seja isso, afinal, o que mais incomoda: não a perseguição, mas a ausência dela.

O paradigma que se inverte

O texto original argumenta que a reação americana não é diplomática, mas "doutrinária" — que Washington defende não um aliado, mas um paradigma. Pode ser. Mas paradigmas não anulam fatos: eles apenas escolhem quais fatos contar.

Dizer que sanções ou pressão externa validam a tese da perseguição é inverter a ordem lógica das coisas. Um processo não se torna perseguição porque um governo estrangeiro decide protestar contra ele. Do contrário, bastaria a qualquer líder condenado em qualquer país buscar um padrinho poderoso no exterior para reescrever, a posteriori, a natureza do seu próprio julgamento.

O que o artigo chama de cegueira

Chama-se de "cegueira estratégica" o fato de o sistema brasileiro não ter calculado o custo geopolítico de julgar Bolsonaro. Mas essa frase, lida com atenção, revela o próprio ponto central: para o autor, a Justiça deveria calcular consequências políticas antes de aplicar a lei.

É precisamente o oposto do que se espera de um tribunal. Justiça que calcula reação internacional antes de julgar não é justiça — é diplomacia disfarçada de sentença. Se há uma "elite" a temer, não é a que julgou segundo a lei. É a que propõe julgar segundo a conveniência.

Fechando o argumento

O artigo termina afirmando que a História não perdoa arrogância acompanhada de ignorância. Concordo — mas a pergunto: de que lado?

Não houve tribunal de exceção. Houve tribunal. Não houve perseguição sem provas. Houve acusação, defesa e sentença. Não houve uma elite inventando um inimigo. Houve um homem que teve, como qualquer outro réu, o direito de responder pelos próprios atos — e o direito, também, de não ser absolvido apenas por ter sido poderoso.

A verdadeira fábula, no fim, não é a de uma elite perseguidora. É a de um homem condenado que, transformado em símbolo, tenta fazer da sua sentença um veredito sobre o Brasil inteiro — quando ela é, apenas, um veredito sobre si mesmo.

ANEXO

O irmão Beto Fischer – Cavaleiro Noaquita no Rito Adonhiramita  –  enviou-me o artigo e me pediu no final que fizesse a minha Parte, o fiz no texto acima. Espero ter atendido ao pedido.

A Tragédia de uma Elite

Ao tentar aniquilar Jair Bolsonaro, o regime brasileiro acendeu um alarme no coração do trumpismo: o de que nenhuma liderança conservadora estaria segura caso o precedente brasileiro triunfasse. A resposta americana, portanto, não é diplomática — é doutrinária. Não protege apenas um aliado: protege um paradigma.

Agora, Brasília encontra-se diante de um dilema insolúvel. A perseguição a Bolsonaro, tratada internamente como jogo de poder, transformou-se em pauta de segurança internacional. Trump, diferentemente dos burocratas do Departamento de Estado, não age com distanciamento tecnocrático: ele age com a força de um imperador pós-moderno, decidido a vingar um aliado que vê como reflexo.

Recuar é admitir fraude narrativa. Avançar é desafiar sanções que podem implodir a economia nacional. A elite brasileira, em seu delírio tecnocrático, criou uma armadilha perfeita: qualquer saída agora significa perder tudo.

Este não é apenas um embate entre um regime e um ex-presidente. É um capítulo da nova guerra civilizacional que divide o Ocidente: de um lado, o globalismo institucional, burocrático, moralmente relativista; do outro, o populismo nacional-conservador, com raízes populares e apelo emocional.

Bolsonaro tornou-se, por força das circunstâncias, um símbolo continental — não apenas do Brasil, mas de toda uma corrente de pensamento em ascensão no mundo. A tentativa de destruí-lo criou, paradoxalmente, sua maior blindagem: a da transcendência política.

O mais devastador nesse episódio é a constatação de que tudo poderia ter sido evitado. Bastava sensibilidade estratégica, leitura geopolítica mínima, compreensão dos vetores do poder em 2025. Mas a elite brasileira, viciada em sua bolha midiática e seduzida por sua autopercepção iluminista, riu de Eduardo Bolsonaro e ignorou os sinais gritantes que vinham do norte. As visitas a Mar-a-Lago. Os acenos de Trump. As falas inflamadas de congressistas republicanos. A cobertura intensa da mídia conservadora americana. Tudo foi tratado como ruído. Agora, é tarde.

O terremoto político reverbera para além das fronteiras. Governos latino-americanos observam com atenção: se os EUA intervêm — política e economicamente — para proteger um ex-presidente em outro país, qual será o novo limite do jogo hemisférico? A lição é clara: o preço da repressão política interna pode ser cobrado em escala internacional.

E, num paradoxo cruel, o regime que buscava apagar Bolsonaro do mapa político acabou por elevá-lo à condição de ícone continental.

Quando a história se vira contra os arquitetos do poder

Não há mais zona cinzenta. Ou se rende completamente — com anulação de processos, restauração de direitos políticos e reconhecimento de abusos — ou se enfrenta o colapso: econômico, diplomático e moral.

O regime criou uma armadilha da qual não consegue sair, porque a própria sobrevivência passou a depender da destruição de um homem — e, agora, desse homem depende a estabilidade do país.

Os historiadores do futuro serão implacáveis. Identificarão 2025 como o ano em que o Brasil selou seu destino como peão no tabuleiro de uma nova guerra ideológica global. Não foi a desigualdade. Não foi a polarização. Não foi a corrupção. Foi a cegueira estratégica.

Tentaram destruir um homem. Destruíram a si mesmos.

E o homem de quem riam, por “fritar hambúrgueres” em Missouri, agora observa — sereno, estratégico, firme — enquanto seus adversários marcham em direção ao colapso que eles próprios arquitetaram.

A História, afinal, não perdoa arrogância acompanhada de ignorância. E jamais subestima os homens que, em silêncio, constroem o futuro.

(Texto de Francisco Carneiro Júnior, autor da tetralogia "O Silêncio das Noites Escuras — Guerra, terrorismo e operações especiais")

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