Entre a Transformação e a Saturação

O futuro da Maçonaria no Grande Oriente da Paraíba

Por Hiran de Melo

Toda instituição chega ao momento em que precisa responder a uma pergunta que nenhuma tradição consegue evitar: estamos preservando a essência ou apenas repetindo as formas?

A história ensina que não é o tempo que envelhece as instituições. O que as torna antigas é a incapacidade de dialogar com o presente. A árvore permanece viva porque renova continuamente suas folhas, enquanto conserva intactas suas raízes. Quando deixa de produzir novos brotos, inicia silenciosamente o caminho da própria extinção.

Talvez seja exatamente este o momento que vive o Grande Oriente da Paraíba.

Não se trata de uma crise exclusivamente maçônica. Rotary, Lions e tantas outras organizações filantrópicas experimentam o mesmo fenômeno: seus membros envelhecem enquanto a juventude parece caminhar em outra direção. O problema, portanto, não está apenas na Maçonaria; está na profunda transformação da própria sociedade.

Mas reconhecer que o fenômeno é universal não nos dispensa da responsabilidade de compreendê-lo.

Campina Grande oferece um exemplo emblemático.

Enquanto a cidade cresce, recebe milhares de universitários e amplia sua importância econômica e tecnológica, a presença maçônica encolhe. Há pouco mais de uma década, o Grande Oriente da Paraíba mantinha cinco Lojas ativas no município. Hoje restam apenas três.

A matemática revela mais do que simples números.

Ela revela uma inversão.

A sociedade produz mais pessoas; a instituição acolhe menos.

Naturalmente, esse encolhimento produz efeitos em cadeia. Diminui o número de obreiros ativos, enfraquece a arrecadação, dificulta a manutenção dos templos e torna ineficazes modelos tradicionais de financiamento que pertencem a outra época. Não se trata apenas de falta de recursos financeiros. Trata-se de um modelo que deixou de dialogar com o tempo presente.

Entretanto, talvez a questão mais profunda não seja econômica.

Se uma instituição deixa de atrair pessoas, a primeira pergunta não deve ser "como arrecadar mais", mas "por que alguém desejaria fazer parte dela?".

A juventude contemporânea vive uma realidade radicalmente distinta daquela experimentada pelas gerações anteriores. O dia se divide entre trabalho, universidade, especializações, cursos on-line, atualização profissional e uma permanente necessidade de adaptação. O tempo tornou-se um dos bens mais escassos da existência.

Nesse contexto, ninguém oferece horas da própria vida em troca de simples formalidades.

O jovem não procura mais títulos.

Procura sentido.

Durante décadas acreditamos que distribuir graus, diplomas e distinções bastaria para manter vivo o entusiasmo iniciático. Entretanto, vivemos justamente a época em que milhares de jovens acumulam graduações, pós-graduações e certificados sem que isso lhes assegure melhores oportunidades de trabalho ou maior realização pessoal.

Se nem mesmo os títulos acadêmicos garantem significado à existência, por que um diploma maçônico, isoladamente, despertaria interesse?

A verdadeira iniciação nunca foi uma coleção de certificados.

Sempre foi uma transformação interior.

A escada em caracol não simboliza a conquista de posições superiores, mas o retorno constante aos mesmos princípios sob uma consciência cada vez mais elevada. Quem sobe apenas acumula graus. Quem compreende, aprofunda-se.

A Maçonaria jamais existiu para fabricar conhecedores de rituais. Ela nasceu para formar seres humanos melhores, capazes de transformar suas famílias, suas profissões e a sociedade por meio do próprio exemplo. Quando os símbolos deixam de produzir esse efeito, permanecem apenas como belas formas preservadas pelo hábito.

Outro desafio igualmente importante encontra-se na fragmentação interna.

Em diversas regiões do Estado multiplicaram-se ritos, Lojas e estruturas administrativas. À primeira vista, parece expansão.

Na prática, muitas vezes trata-se apenas dos mesmos obreiros dividindo-se entre diferentes calendários, diferentes vestimentas e diferentes burocracias.

Multiplicaram-se as formas.

Não necessariamente a força.

Talvez tenha chegado o momento de compreender que unidade não significa uniformidade, mas racionalidade.

Compartilhar templos, integrar estruturas administrativas, concentrar recursos e promover atividades conjuntas entre as Oficinas não reduz identidades. Ao contrário, fortalece as bases, amplia a convivência fraterna e permite que os patrimônios cumpram plenamente sua finalidade. Um templo vivo durante toda a semana, acolhendo estudos, ações filantrópicas, projetos culturais e organizações paramaçônicas, vale infinitamente mais do que diversos edifícios fechados durante quase todo o tempo. Administrar com sobriedade não diminui a tradição; protege-a.

Essa racionalidade também precisa alcançar nossa maneira de ensinar.

A sociedade já não aprende como aprendia há cinquenta anos.

Insistir que todo conhecimento seja transmitido exclusivamente em encontros presenciais talvez represente um equívoco semelhante ao de quem insistisse em copiar manuscritos depois da invenção da imprensa.

As instruções teóricas, os estudos simbólicos, as apresentações de trabalhos e as reuniões administrativas podem encontrar na tecnologia uma poderosa aliada. O ambiente virtual oferece flexibilidade, reduz deslocamentos e respeita a realidade contemporânea.

Em contrapartida, o templo recupera sua verdadeira vocação.

Ele deixa de ser um espaço burocrático para voltar a ser um espaço iniciático.

Ali permanecem aquilo que nenhuma tela substitui: o silêncio compartilhado, a ritualística, os símbolos vividos, os sinais, os olhares, a experiência do sagrado e a comunhão entre irmãos.

Quanto mais a tecnologia assume aquilo que é instrumental, mais a liturgia pode dedicar-se ao que é essencial.

Há, contudo, um aspecto que inspira esperança.

O Grande Oriente da Paraíba demonstra maturidade em sua sucessão administrativa. Ao longo dos anos, diferentes lideranças compreenderam que nenhuma gestão pertence a um homem, mas a uma missão. Projetos foram continuados, sucessores preparados e a alternância de poder ocorreu sem rupturas desnecessárias.

Essa maturidade demonstra que a instituição sabe renovar seus dirigentes.

Agora precisa renovar também seus caminhos.

Porque uma boa sucessão administrativa não basta quando permanece indefinida a direção para onde se caminha.

A verdadeira pergunta não é quem governará amanhã.

A verdadeira pergunta é qual Maçonaria existirá amanhã.

Uma Ordem que mede sua força pela quantidade de imóveis, pela diversidade de ritos ou pelo número de títulos distribuídos talvez caminhe lentamente para a saturação.

Mas uma instituição que fortalece suas Oficinas, administra seus recursos com responsabilidade, compartilha estruturas quando necessário, acolhe novos públicos sem perder seus princípios, investe na formação integral do obreiro e coloca novamente o aperfeiçoamento humano no centro de sua missão reencontra a razão de existir.

Nenhuma transformação exige abandonar a tradição.

Exige apenas distinguir aquilo que é permanente daquilo que sempre foi circunstancial.

Os princípios permanecem.

As formas evoluem.

Quem confunde uma coisa com a outra acaba preservando a casca enquanto perde a vida que existia em seu interior.

O futuro do Grande Oriente da Paraíba talvez dependa exatamente dessa compreensão.

Não escolher entre tradição ou mudança.

Mas compreender que somente aquilo que aceita transformar suas formas consegue permanecer fiel à própria essência.

Porque toda instituição morre duas vezes.

Primeiro quando deixa de renovar sua missão.

Depois, quando percebe que já não existem pessoas dispostas a carregá-la para o futuro.

 

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