As
Perguntas que Também São Nossas
Por Hiran de Melo
Há
perguntas que exigem conhecimento. Outras exigem inteligência. Mas existem
aquelas que desarmam qualquer erudição e atravessam diretamente a consciência.
São perguntas que não procuram uma resposta pronta; procuram um ser humano
disposto a responder com a própria vida.
Foi
isso que um menino de seis anos fez ao dirigir suas palavras ao Papa Leão XIV.
Na simplicidade da infância, ele fez aquilo que os filósofos, os teólogos e os
poetas tentam fazer há séculos: retirar as camadas de complexidade que escondem
o essencial.
Talvez
o mais importante não seja saber como o Papa responderá. Talvez a questão
decisiva seja outra: como nós responderíamos?
Você gosta de futebol?
À
primeira vista, a pergunta parece irrelevante. Mas ela revela algo profundo:
antes de conhecer o líder espiritual, a criança deseja conhecer a pessoa.
Vivemos
um tempo em que transformamos pessoas em cargos, funções e títulos. Esquecemos
que, antes do médico, existe um homem; antes do juiz, uma mulher; antes do
sacerdote, um coração que também sorri, sofre, sonha e sente saudades.
Quem
somos quando deixamos de lado aquilo que fazemos?
De pequeno, você queria ser Papa?
As
crianças acreditam que o futuro nasce dos sonhos. Os adultos, muitas vezes,
esquecem que o futuro também nasce das renúncias, dos encontros inesperados e
dos caminhos que jamais planejamos.
Talvez
a verdadeira pergunta seja: será que nos tornamos
aquilo que um dia desejamos? Ou nos tornamos aquilo que tivemos coragem
de aceitar quando a vida nos chamou?
Por que minha mãe e meu pai estão
preocupados?
Nenhuma
estatística explica a preocupação de um pai que não sabe se conseguirá pagar as
contas. Nenhum índice econômico traduz a angústia de uma mãe que teme pelo
futuro dos filhos.
As
crianças percebem muito mais do que imaginamos. Elas talvez não compreendam os
motivos, mas reconhecem o peso que habita o silêncio dos adultos.
E
nós?
Será que ainda enxergamos a preocupação estampada no rosto de
quem caminha ao nosso lado, ou nos acostumamos a chamar de normal aquilo que
lentamente nos adoece?
Por que meu pai tem tantos trabalhos?
Talvez
porque sobreviver tenha se tornado mais difícil do que viver.
Há
pessoas ocupadas o dia inteiro e, ainda assim, incapazes de oferecer aos filhos
aquilo que mais desejariam oferecer: presença.
Estamos
produzindo riqueza ou apenas consumindo o tempo que
jamais voltará?
Por que há pessoas que recebem coisas
ruins e outras não? De quem é a culpa?
A
infância ainda acredita que toda dor precisa ter um culpado.
A
maturidade descobre que nem todo sofrimento cabe dentro da lógica da culpa.
Há
dores que nascem das escolhas humanas. Outras brotam da indiferença coletiva.
Algumas simplesmente chegam, sem pedir licença, lembrando-nos da fragilidade
que compartilhamos.
A
pergunta talvez não seja quem deve ser culpado.
Talvez
seja: quem está disposto a aliviar a dor do outro?
Por que há tantas pessoas vivendo na rua?
Ninguém as vê? Ninguém as ajuda?
Esta
talvez seja a pergunta mais dura.
Porque
ela denuncia uma tragédia silenciosa: o problema não é apenas haver pessoas sem
casa.
É
haver olhos que já não conseguem enxergá-las.
A
maior pobreza começa quando alguém deixa de ser percebido.
Como podemos ajudar se o mundo é tão
grande?
As
crianças ainda acreditam que ajudar significa salvar o mundo inteiro.
A
sabedoria ensina outra coisa.
Ninguém
ilumina toda a noite.
Mas
cada pequena luz impede que a escuridão seja absoluta.
O
mundo é realmente grande.
Mas
o universo de alguém pode mudar completamente por causa de um único gesto de
cuidado.
Deus quer que haja pobres e ricos?
Talvez
Deus nunca tenha desejado a desigualdade.
Talvez
tenha desejado apenas que ninguém passasse necessidade diante da abundância de
outro.
A
natureza produz o suficiente para alimentar a vida.
É
o coração humano que, muitas vezes, aprende a acumular antes de aprender a
repartir.
Por que há tantos avós sozinhos, se são
tão importantes?
Porque
vivemos uma época que valoriza a velocidade e esquece a memória.
Os
avós carregam aquilo que nenhuma inteligência artificial poderá produzir: tempo
transformado em sabedoria.
Quando
abandonamos nossos idosos, não estamos apenas deixando pessoas para trás.
Estamos
rompendo a ponte que liga quem fomos àquilo que ainda podemos nos tornar.
E,
por fim:
Há que perdoar sempre?
Talvez
esta seja a pergunta que reúne todas as outras.
Perdoar
não significa esquecer o mal.
Nem
aceitar a injustiça.
Perdoar
é recusar-se a permitir que a dor continue governando o coração.
Há
situações em que a justiça precisa agir.
Mas
nenhuma justiça consegue devolver a paz a uma alma aprisionada pelo
ressentimento.
No
fim, talvez o menino não estivesse entrevistando o Papa.
Talvez
estivesse entrevistando a humanidade.
Porque
nenhuma dessas perguntas pertence apenas ao sucessor de Pedro.
Elas
pertencem ao pai que chega cansado em casa.
À
mãe que tenta esconder as lágrimas.
Ao
governante que administra cidades.
Ao
professor diante da sala de aula.
Ao
empresário.
Ao
religioso.
Ao
vizinho.
E
a mim.
E
a você.
Talvez
seja justamente isso que torna a infância tão próxima do Reino de Deus.
Ela
ainda faz perguntas que os adultos aprenderam a evitar.
E,
enquanto buscamos respostas sofisticadas, uma criança continua esperando apenas
que nossa vida responda aquilo que nossas palavras jamais conseguirão explicar.
Assista:
https://www.instagram.com/reel/DZc5jQQx43X/?igsh=MmxmeTk3NWR4dWs1
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