A Construção do Mito e a Sacralização da Política no Brasil
Por Hiran de Melo
A
política brasileira, especialmente na última década, tem testemunhado uma fusão
inédita entre religião e poder. O surgimento do chamado "Mito" não se
deu apenas como fenômeno político, mas como construção simbólica que encontrou
respaldo em setores religiosos. Nesse cenário, figuras como o pastor Silas
Malafaia desempenharam papel central, transformando o púlpito em palanque e a
fé em instrumento de mobilização ideológica.
O Mito como Entidade Sacralizada
O
apelido "Mito", inicialmente popularizado nas redes sociais, foi
rapidamente absorvido por discursos religiosos que o revestiram de uma aura
messiânica. Essa transposição da linguagem da fé para o campo político criou
uma narrativa de "escolhido de Deus", deslocando o eixo da
espiritualidade para a legitimação de um projeto de poder terreno.
O altar, nesse contexto, deixa de ser espaço de proclamação do Evangelho e se
converte em plataforma eleitoral, onde símbolos religiosos são
instrumentalizados para sustentar agendas nacionalistas e personalistas.
Malafaia: Do Pastor ao Articulador Político
A
trajetória de Silas Malafaia revela um pragmatismo que se metamorfoseou em
conservadorismo ideológico. Se nos anos 80 e início dos 2000 ele dialogava com
setores progressistas, a partir da década de 2010 sua atuação se consolidou
como voz da direita religiosa.
O
encontro com Jair Bolsonaro, especialmente após o casamento celebrado em 2013,
marcou a simbiose entre o "Mito" e o "Profeta". Malafaia
ofereceu capilaridade midiática, legitimidade espiritual e aconselhamento
político, transformando um deputado periférico em líder de massas.
A Idolatria das Pedras e a Geografia Sagrada
Um
dos elementos mais instigantes dessa aliança é a sacralização da geografia. A
bandeira de Israel, erguida em templos e manifestações, simboliza uma
"guerra santa" que conecta o destino do Brasil ao do Estado de
Israel.
Essa
prática, porém, contraria o ensinamento bíblico de que o Reino de Deus não se
limita a territórios físicos. Ao idolatrar pedras e nações, cria-se um inimigo
comum e uma narrativa de urgência espiritual que transforma o voto em ato de
fé, obscurecendo a essência universal do Evangelho.
Crises e Correções: O Profeta e o Mito
A
relação entre Malafaia e Bolsonaro não é isenta de tensões. Em momentos de
hesitação política, como nas eleições municipais de 2024, o pastor não hesitou
em corrigir publicamente o "Mito", chamando-o de "covarde".
Isso revela que a lealdade não é absoluta, mas condicionada à utilidade
política.
O profeta, nesse caso, não apenas legitima, mas também disciplina o líder
político, reafirmando seu papel como tutor da direita religiosa.
O Risco da Fé Politizada
A
construção do mito e sua sacralização pela política brasileira revelam um
deslocamento perigoso: a fé deixa de ser espírito livre e se torna ferramenta
de controle social.
Ao
atrelar o Reino de Deus a projetos de poder terreno, líderes religiosos como
Malafaia correm o risco de reduzir o Evangelho a uma "fé de
resultados", esquecendo que Cristo ensinou que seu reino não é deste
mundo.
O desafio que se coloca, portanto, é resgatar a espiritualidade autêntica, que
transcende palanques e geografias, e devolver à fé sua vocação de liberdade e
verdade.
Até que ponto a religião deve se engajar
na política sem perder sua essência espiritual?
Mestre Melquisedec
A
questão não se resolve em um simples equilíbrio entre fé e poder, mas na
análise dos dispositivos que transformam a espiritualidade em tecnologia de
governo. A religião, quando se aproxima da política, não apenas participa do
debate público: ela se torna parte de uma rede de discursos que moldam
condutas, produzem subjetividades e delimitam fronteiras entre o permitido e o
proibido.
Religião como dispositivo de poder
- Histórico
brasileiro: Desde o período colonial, a
religião não foi apenas companheira da política, mas também instrumento de
normatização social. Ela ditava costumes, regulava corpos e legitimava
hierarquias.
- Essência
espiritual: A fé, em sua dimensão mais
profunda, deveria ser força de transcendência, sopro livre que escapa às
amarras institucionais. Mas, ao se prender a partidos ou líderes,
converte-se em engrenagem de poder, perdendo sua vocação universal.
- Engajamento
saudável: Não se trata de negar a presença da
religião no espaço público, mas de reconhecer que sua função crítica deve
ser preservar a dignidade humana, e não reforçar mitologias políticas.
Comparação: quando a fé se torna política
|
Aspecto |
Engajamento como crítica |
Engajamento como poder |
|
Finalidade |
Questionar injustiças, ampliar
direitos |
Legitimação de líderes e partidos |
|
Espaço de atuação |
Debate público, ética social |
Palanque, propaganda eleitoral |
|
Essência espiritual |
Preservada: fé como
transcendência |
Corrompida: fé como disciplina e
controle |
|
Exemplo |
Comunidades que promovem
solidariedade sem vinculação partidária |
Uso de símbolos religiosos como
slogans políticos |
- Neutralidade
perdida: O espaço religioso deixa de acolher
todos e passa a dividir fiéis entre aliados e inimigos.
- Instrumentalização
da fé: O discurso espiritual é convertido em linguagem
de poder, esvaziando sua profundidade.
- Crises
internas:
A
comunidade se fragmenta, transformando-se em arena política mais do que em
espaço de transcendência.
Caminhos para preservar a essência
- Educação
crítica: A religião pode formar cidadãos
conscientes sem impor votos ou partidos.
- Separação
saudável: A laicidade do Estado deve ser
vista não como ameaça, mas como garantia da liberdade religiosa.
- Espiritualidade
universal: O verdadeiro Reino não se limita a
geografias ou ideologias, mas se manifesta em justiça, compaixão e
verdade.
Síntese
A
religião pode dialogar com a política sem perder sua essência espiritual apenas
quando se mantém como força crítica, e não como engrenagem de poder. O desafio
é impedir que o altar se torne palanque, que a fé se reduza a disciplina
social, e que o sagrado seja instrumentalizado para legitimar mitos políticos.
Assim,
a espiritualidade preserva sua vocação: não governar, mas libertar; não
controlar, mas inspirar; não dividir, mas abrir horizontes de sentido.
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