Diálogo sobre Justiça Estrutural
Por Hiran de Melo
Cenário:
Dois
mestres maçons, Seu João e Seu José, encontram-se após uma sessão de Loja.
Sentados à sombra do templo, iniciam uma conversa sobre o papel da maçonaria
diante das injustiças que assolam a sociedade.
Seu João:
Meu
amado irmão Seu José, hoje, ao ouvir o chamado à justiça estrutural, senti que
estamos diante de um abismo. O caos que vemos nas ruas não é só desordem — é
construção antiga, feita de pedra e privilégio.
Seu José:
Concordo,
amado irmão Seu João. Muitos pensam que a crise é passageira, mas ela é parte
da estrutura. A desigualdade não nasceu ontem. Ela foi moldada como um templo
invertido, onde poucos estão no topo e muitos sustentam a base sem luz.
Seu João:
E
o que dizer da riqueza? A iniquidade é gritante. Enquanto alguns acumulam mais
do que podem usar, outros não têm sequer o básico. Isso não é só injusto — é
desumano.
Seu José:
A
maçonaria nos ensina a construir templos à virtude. Mas como podemos fazer isso
se ignoramos que a base da sociedade está rachada? A equidade econômica deveria
ser um pilar da nossa atuação no mundo profano.
Seu João:
E
a educação? Sem ela, o homem não desbasta sua pedra bruta. O acesso ao saber
virou privilégio, não direito. Como podemos falar de iluminação se muitos vivem
na escuridão do semianalfabetismo e da ignorância?
Seu José:
Essa
é a desigualdade mais cruel. Ela se perpetua. Um pai sem estudo dificilmente
pode guiar o filho à sabedoria. Defender a educação pública e de qualidade é
mais que política — é missão maçônica.
Seu João:
E a saúde, meu Irmão? A vida não pode ter
valor diferente conforme o bolso. Quando o acesso à cura é seletivo, o caos se
instala. A dor não escolhe classe social.
Seu José:
A
proteção à vida deveria ser universal. Se a maçonaria preza pela dignidade
humana, então lutar por um sistema justo de saúde é parte do nosso juramento
silencioso.
Seu João:
Mas
há algo que me inquieta, Seu José. Fala-se muito em mérito como solução. Mas
será que podemos medir mérito em uma sociedade onde muitos já começam a corrida
com os pés amarrados?
Seu José:
Essa
é uma armadilha ideológica, meu Irmão. O mérito, quando usado sem considerar os
pontos de partida, vira desculpa para justificar o fracasso dos mais
fragilizados. Não é justo cobrar desempenho igual de quem nunca teve acesso
igual.
Seu João:
Então, Seu José, o que
devemos fazer? Como transformar esse cenário?
Seu José:
Devemos
ser mais do que observadores. Precisamos ser obreiros da justiça. Não basta
ajudar pontualmente. É preciso reformar as bases. A Ordem nos chama a ser
engenheiros de uma nova estrutura social.
Seu João:
Uma
estrutura onde o esquadro da justiça meça o acesso ao saber, à saúde e à
prosperidade. Onde a fraternidade corrija os desequilíbrios e o mérito seja
fruto da oportunidade, não da exclusão.
Seu José:
Exatamente.
Que cada maçom, ao sair do templo, leve consigo o compromisso de iluminar o
mundo. Não com palavras, mas com ações que transformem.
Seu João:
Que
assim seja. Que o Grande Arquiteto do Universo nos inspire a construir uma
sociedade mais justa, onde a Ordem não seja apenas simbólica, mas concreta.
Conclusão
Este
diálogo entre Seu João e Seu José é um convite à reflexão e à ação. A justiça
estrutural não é um ideal distante — é uma tarefa urgente. Que cada maçom, com
seu esquadro e compasso, seja um agente de transformação no mundo profano,
reconhecendo que a verdadeira justiça começa quando se corrige a desigualdade
na largada.
Texto complementar
O Chamado à
Justiça Estrutural
Ordem sobre
o Abismo
Por Hiran
de Melo
Meus Irmãos,
É
preciso que tenhamos a coragem de enxergar a verdade sem véus: o caos social
que assombra nossas cidades não é um fenômeno aleatório. Ele é o produto de uma
arquitetura de exclusão que se consolidou ao longo dos séculos. O que muitos
chamam de "crise" é, na verdade, um fato histórico estrutural.
Como
Maçons, nossa busca pela Ordem exige que combatamos as três colunas que
sustentam o caos moderno:
1. A Iniquidade da Riqueza
O
caos nasce da profunda desigualdade na distribuição dos frutos da terra e do
trabalho. Enquanto a riqueza se concentra em mãos de poucos, a base da pirâmide
social é privada do necessário para a dignidade. Não há paz social sem equidade
econômica. Nossa militância deve promover o progresso que não deixe ninguém
para trás.
O
mérito, quando isolado da realidade social, não pode ser usado como argumento
para legitimar privilégios. É falacioso afirmar que a pobreza é fruto da falta
de esforço individual, quando sabemos que o sistema foi erguido para favorecer
alguns e excluir muitos. O verdadeiro mérito só floresce em solo fértil de
oportunidades iguais.
2. O Abismo Educacional
O
acesso à educação de qualidade tornou-se um privilégio de castas, e não um
direito universal. Esta é a mais perversa das desigualdades, pois ela perpetua
o caos através das gerações, negando ao indivíduo as ferramentas para desbastar
sua própria pedra bruta. Defender a educação pública e de excelência é o dever
primordial do maçom que deseja iluminar a sociedade.
Não podemos aceitar que o mérito acadêmico seja exaltado como virtude suprema,
quando milhões sequer têm acesso às condições mínimas para aprender. O mérito,
sem justiça estrutural, transforma-se em ideologia de exclusão, mascarando
privilégios como conquistas pessoais.
3. A Fragilidade da Vida (Saúde)
O
padrão de proteção à saúde reflete a divisão injusta do mundo. A vida humana
não pode ter valores distintos baseados na posse. O caos se manifesta quando o
acesso à cura e ao bem-estar é seletivo. Lutamos por um sistema onde a proteção
à vida seja o alicerce absoluto, sem distinções.
Não é aceitável que se invoque o mérito para justificar quem merece ou não
viver com dignidade. A saúde é direito universal, e qualquer tentativa de
condicioná-la ao poder aquisitivo ou ao esforço individual é uma distorção ética
que fere a própria essência da fraternidade.
O Compromisso Maçônico
O
caos é estrutural porque as fundações da nossa sociedade foram erguidas sobre o
privilégio em vez do mérito e da fraternidade. Mas é preciso compreender: o
mérito não pode ser convertido em instrumento ideológico para perpetuar
injustiças sociais. Ele deve ser reconhecido apenas quando todos têm acesso às
mesmas condições de partida.
Nossa
missão não é apenas "ajudar" conjunturalmente, mas ser o agente
transformador que atua na reestruturação dos fundamentos. A Ordem que buscamos
não é a ordem do privilégio, mas a ordem da equidade, da justiça e da
fraternidade.
Que nossas colunas sustentem não
o abismo, mas a ponte que
conduz a humanidade à verdadeira luz.
Leitura recomendada:
ORDEM SOBRE O CAOS por Kennyo
Ismail

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