Um Diálogo entre Pike e Foucault sobre o
Grau 11 do REAA
O Sublime Cavaleiro Eleito e o Poder que Habita em Nós
Por Hiran de Melo
O
Templo está silencioso. A luz das lâmpadas do Oriente, suave e constante,
derrama-se sobre dois Mestres: Pike, cuja sabedoria repousa na
profundidade do simbolismo tradicional; e Foucault, cuja lâmina crítica
examina o poder onde quer que ele se esconda. Ambos se reúnem para tratar do Grau
11 do Rito Escocês Antigo e Aceito — o Sublime Cavaleiro Eleito.
O
público que os escuta é formado por Irmãos de escolaridade simples, mas de
espírito atento — homens que buscam compreender com clareza o sentido do que
vivem no Templo.
I — O Encontro
Pike abre o diálogo, com
voz firme:
—
Irmão Foucault, este Grau marca o fim da trilogia dos Elús. O iniciado aprende
que a luta não é mais externa. Agora ele vigia a si mesmo. Não é o braço que
combate, mas o coração. O Cavaleiro Eleito deve defender a justiça e enfrentar
a hipocrisia, especialmente aquela que nasce dentro de nós.
Foucault, com um leve sorriso, replica:
—
E, ainda assim, Irmão Pike, essa vigilância é também um tipo de poder. Quando
pedimos ao Cavaleiro que se observe, que se julgue e se molde, estamos
ensinando a ele uma forma de governar a si mesmo conforme valores que a Ordem
estabelece. O poder não desaparece — apenas muda de lugar.
Pike assente.
—
Justamente por isso é tão importante que essa vigilância seja guiada pela ética
e pela humildade. O Grau 11 ensina que poder sem virtude se transforma em
tirania, e zelo sem sabedoria vira destruição. O verdadeiro Cavaleiro é aquele
que usa o poder para servir, não para dominar.
II — Os Doze Eleitos e a Lição do Poder
Partilhado
Foucault observa o símbolo dos Doze Cavaleiros.
—
A escolha por sorte, feita por Salomão, é um gesto interessante — diz ele. —
Ela rompe a lógica do mérito individual e nos lembra que o poder não precisa
ser centralizado. Mas pergunto: por que doze? E por que quinze no grau
anterior?
Pike explica, paciente:
—
Porque esses números carregam valor simbólico. Doze é o número da harmonia, da
totalidade. Quase todas as tradições o reconhecem como um símbolo de ordem
universal. Já os quinze representam a soma de forças espirituais e morais: 3, 5
e 7. Quando o Rei divide o governo, ele ensina que liderar é confiar nos
outros. Não é dominar — é partilhar responsabilidades.
Foucault, então, completa:
—
E, mesmo assim, essa partilha não elimina o poder. Apenas o distribui. A
Maçonaria, ao ensinar esse modelo, também cria uma forma de verdade: uma
verdade sobre como um líder deve ser, como deve agir, como deve pensar. Isso
forma um tipo de sujeito — o sujeito maçônico.
—
Pode ser — responde Pike.
— Mas é um sujeito guiado pela Luz. E a Luz aqui não é uma doutrina; é a busca
pela verdade interior e pela retidão.
III
— O Beijo dos Cavaleiros e o Compromisso Moral
Pike avança, com tom sereno:
—
O beijo simbólico entre os Eleitos, Irmão Foucault, não é um gesto social. É
compromisso. É a aceitação do outro como igual, como irmão, como alguém cuja
verdade merece ser respeitada. É o símbolo de que a justiça só é possível na
fraternidade.
Foucault, reflexivo, comenta:
—
Gosto desse símbolo. Mas ele também é um rito. Ritos moldam a alma, ensinam
como o corpo deve agir, como deve sentir. Eles não só expressam fraternidade —
eles a constroem. O beijo cria um laço, mas cria também uma expectativa: a de
que o Cavaleiro aja conforme o ideal da Ordem.
—
E isso é algo mau? — pergunta
Pike, inclinando a cabeça.
—
Não — responde Foucault. — Apenas é poder.
Um poder suave, moral, simbólico. Mas poder, ainda assim.
IV — A Espada que Não Ataca
Pike ergue a espada do Grau.
—
Esta espada não é instrumento de ataque. Ela defende. Ela protege a verdade,
começando dentro de nós. É símbolo da coragem moral — de enfrentar a mentira, a
falsidade e a injustiça, não com violência, mas com retidão.
Foucault pondera:
—
A espada que defende é também a espada que vigia. E a vigilância, Irmão Pike, é
um elemento central do poder. Mas reconheço que a proposta do Grau 11 é
diferente das vigilâncias que estudei: não é para controlar o corpo dos outros,
mas para que o iniciado se torne guardião de si mesmo.
Pike conclui:
—
A vigilância, aqui, não oprime. Ela liberta. O Irmão se torna Maestro de sua
própria alma.
V — Justiça, Verdade e o Cuidado de Si
Foucault caminha pelo Templo e diz, quase como
reflexão:
—
Para mim, o Grau 11 é uma tecnologia do eu. Um conjunto de práticas — como
meditar, vigiar a consciência, purificar intenções — que formam um sujeito
capaz de agir no mundo com equilíbrio. Mesmo que seja uma técnica de poder, ela
pode ser libertadora se o Irmão a utiliza para crescer interiormente.
—
Concordamos, então — afirma
Pike. — A liberdade não é ausência de regras. É maturidade. É
responsabilidade. É saber que o poder só é justo quando nasce do Amor.
VI — Fecho do Diálogo
Os
dois Mestres param diante da luz do Oriente.
Pike conclui:
—
O Sublime Cavaleiro Eleito é chamado à justiça consciente, à coragem moral e à
humildade. Ele sabe que foi escolhido não por vitória, mas por vocação.
Foucault completa:
—
E ele deve lembrar que todo poder — até o poder de fazer o bem — precisa ser
questionado, examinado e purificado. Pois somos moldados pelo mundo, mas também
podemos moldar a nós mesmos.
E
juntos afirmam, num só pensamento:
—
A Luz cresce quando reconhecemos tanto nossa força quanto nossas sombras. O
Cavaleiro Eleito não luta para dominar, mas para transformar.
Assim termina o diálogo — não com
respostas fechadas, mas com caminhos abertos, como pede a Maçonaria.
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