O Sagrado Feminino – A Natividade no
Cotidiano Líquido
Por Hiran de Melo
Amado
Irmão, Amada Irmã, em um tempo de conexões instantâneas e vínculos frágeis, o
25 de dezembro continua sendo um marco simbólico. Para muitas culturas, é o
nascimento da luz, do sol, da vida. Para os cristãos, é a celebração do Deus
Amor que se fez humano, vulnerável, próximo.
Hoje,
em uma sociedade líquida, onde tudo parece transitório e efêmero, o amor também
se tornou palavra desgastada. Ele aparece em slogans publicitários, em músicas
de consumo rápido, em relacionamentos que se dissolvem com a mesma velocidade
com que se iniciam. Fala-se de amor em contextos contraditórios: “matou por
amor”, “suicidou-se por amor”, “vive do amor de alguém”. O amor é usado como
justificativa para violência, dependência e exploração.
Mas
o amor verdadeiro – aquele que Cristo encarnou – não é consumo, não é posse,
não é espetáculo. É acolhida da inteireza do outro e de si mesmo. Amar hoje
significa resistir à lógica da descartabilidade, significa reconhecer que tanto
a luz quanto a sombra fazem parte de quem somos. Somos fortes e frágeis,
conectados e solitários, visíveis e invisíveis.
Na
sociedade líquida, onde tudo se decompõe rapidamente e os vínculos se desfazem
como fumaça, amar é um ato de coragem. É aceitar a vulnerabilidade, a
impermanência, e ainda assim escolher estar presente. O contrário do amor não é
o desamor, mas o medo: medo da velhice, medo da solidão, medo da exclusão. Amar
é atravessar esse medo e acolher tanto as vantagens quanto as limitações que o
tempo nos traz.
A
tradição nos lembra que “o que está em cima é como o que está embaixo”. Assim,
amar o inimigo não é apenas perdoar quem nos fere, mas também aceitar em nós
aquilo que rejeitamos. É reconhecer nossas falhas, vícios e fragilidades sem
escondê-los atrás de máscaras digitais ou filtros de redes sociais.
Na
liquidez da vida contemporânea, onde tudo é transitório, apegar-se ao efêmero é
fonte de sofrimento. Amar é escolher a presença, mesmo sabendo que ela é
passageira. É olhar para a pessoa amada não pelo que foi ou pelo que
representa, mas pelo que é agora – com suas marcas, suas cores, suas feridas.
O
cântico antigo ainda ecoa: “Sou negra, todavia sou bela”. Ele nos lembra que a
beleza não está na perfeição, mas na inteireza. Assim como as tendas de Cedar,
queimadas pelo sol e pelo vento, e os pavilhões de Salma, cheios de cores e
bandeiras, também nós somos múltiplos, feridos e belos. Amar é aceitar essa
totalidade em nós e no outro.
Amado
Irmão, Amada Irmã, não espere décadas para compreender que a natividade é o
nascimento do Amor em você. Viva sua inteireza agora. Não tema suas fraquezas:
elas são mestres que nos ensinam a compaixão. Olhe para o mundo com os olhos de
criança, que vê luz onde os adultos só percebem sombra.
Que
neste 25 de dezembro – e em todos os dias – possamos viver um instante de pura
luz, mesmo em meio à fluidez da vida. Que o Deus Amor se atualize em nosso
cotidiano líquido, como presença que resiste ao esquecimento e nos convida a
amar com ternura, coragem e compaixão.
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