O Diálogo dos Quatro Mestres sobre o Grau
11 – Sublime Cavaleiro Eleito
Por Hiran de Melo
Introdução
O
Templo está silencioso. As paredes parecem guardar a respiração dos séculos. No
Oriente, o Delta flameja suavemente, como se acompanhasse com atenção o
encontro de quatro Mestres: Kant, Nietzsche, Deleuze e Bourdieu. Cada um
traz consigo não apenas uma filosofia, mas uma maneira de compreender a
justiça, o poder e a dignidade humana.
Diante
deles, o símbolo do Grau 11 — o Sublime Cavaleiro Eleito — evoca o peso
da vigilância interior e o dever de combater a hipocrisia, o abuso e a mentira
institucionalizada.
O
diálogo começa.
I — Kant: O Dever que Precede o Ato
Kant
ergue o olhar e fala com a gravidade de quem sabe que a moral não é uma
escolha, mas uma lei interior:
Kant:
“Irmãos, o Grau 11 exige mais do que ação externa: exige retidão da vontade. O
Cavaleiro Eleito só é Sublime quando age por dever, e não por
inclinação. A justiça aqui não é reação emocional, mas aplicação rigorosa da lei
moral universal.
Um
maçom desse grau deve julgar antes a si mesmo, pois quem não domina sua própria
vontade jamais poderá julgar os outros com legitimidade.
Se
pergunto: ‘Poderia querer que minha ação se tornasse lei para todos?’, então
ajo moralmente. O Sublime Cavaleiro é aquele cuja conduta — pública ou
silenciosa — poderia ser universalizada sem vergonha.”
Ele
pousa as mãos sobre a mesa, sereno:
“Combater
a corrupção, interna ou institucional, é um dever absoluto, pois nada destrói
mais rapidamente a dignidade humana do que a mentira elevada a princípio.”
II — Nietzsche: A Superação como Justiça
Viva
Nietzsche
inclina-se para a frente, olhos faiscantes, como quem quer romper um véu:
Nietzsche:
“Kant, tua lei universal é bela, mas rígida como mármore. O Grau 11 exige algo
mais vivo. A justiça do Cavaleiro Eleito não é apenas dever — é vontade de
potência, é coragem de se superar, de romper com valores herdados e criar
novos.
O
que combatemos aqui não é apenas a injustiça do mundo, mas a decadência dentro
de nós mesmos.
O
Cavaleiro Eleito deve encarar os monstros da hipocrisia e da mentira, sobretudo
quando habitam a própria Ordem. Só quem cria seus próprios valores é
verdadeiramente livre.”
Nietzsche
sorri, firme:
“A
verdadeira justiça não é a moral dos fracos, mas a afirmação da vida em sua
plenitude. O Cavaleiro não se curva — ele se eleva."
III — Deleuze: A Justiça como Criação
Contínua
Deleuze,
sempre em movimento, fala como quem busca as frestas pelas quais o novo pode
surgir:
Deleuze:
“Irmãos, a justiça do Grau 11 não é estática. Ela é um processo, um fluxo, uma
criação contínua.
A
vigilância que o grau exige não é a repetição de um código, mas a capacidade de
perceber as linhas de força, distinguir o que cria vida do que a
aprisiona.
A
hipocrisia e a corrupção são sistemas que se fecham. O Cavaleiro Eleito é
chamado a romper esses sistemas, a produzir novas conexões, novos valores — não
por rebeldia vazia, mas por fidelidade à potência da vida.”
Ele
acrescenta, em tom mais íntimo:
“A
justiça deleuziana não é cega. Ela vê, sente, interpreta. É sensível às
nuances, compreende que o certo e o errado às vezes usam o mesmo manto. E é
justamente por isso que ela cria — porque não pode simplesmente repetir.”
IV — Bourdieu: O Cavaleiro e o Poder
Simbólico
Bourdieu,
com sua postura analítica, completa:
Bourdieu:
“Nossos irmãos filósofos falam da alma e da vontade. Eu lhes lembro: não há
Cavaleiro fora do campo social.
O
Grau 11 é também uma luta simbólica dentro de um espaço estruturado — o campo
maçônico — onde valores, legitimidades e posições são disputados. O iniciado é
moldado por um habitus, um conjunto de disposições que orientam sua
percepção da justiça e do poder.
A
vigilância contra a hipocrisia não é apenas moral — é política e simbólica.
Quem vigia não vigia sozinho: vigia como agente de um campo, portador de um
poder simbólico que só existe porque os outros o reconhecem."
Ele
bate levemente na mesa:
“Sempre
que o Cavaleiro combate a mentira, ele reafirma a legitimidade da Ordem. Sempre
que cede à complacência, enfraquece o campo, rompe o habitus e fragiliza o
pacto simbólico da maçonaria.”
V — O Debate se Aprofunda
O
diálogo circular toma nova intensidade.
Kant:
“O
Cavaleiro age por dever — e isso basta.”
Nietzsche:
“O
dever pode ser servidão. O Cavaleiro deve criar seu próprio caminho.”
Deleuze:
“Ambos
esquecem que a justiça é invenção. Não é fórmula nem ruptura isolada: é fluxo.”
Bourdieu:
“E
nenhum fluxo existe fora de um campo. A justiça é um ato simbólico que reafirma
— ou transforma — estruturas sociais.”
Os
quatro se olham. Não há acordo simples — porque o Grau 11 não é simples.
VI — Síntese: O Sublime Cavaleiro Eleito
O
símbolo sobre o Oriente parece pulsar. Então, quase como um coro, a síntese se
forma:
- Com Kant, aprende que o
Cavaleiro deve agir por dever, com dignidade e firmeza moral.
- Com Nietzsche,
descobre que deve superar-se, criando valores autênticos.
- Com
Deleuze, compreende que a justiça é criação,
resistência e transformação.
- Com Bourdieu,
entende que sua luta é também simbólica, social e institucional.
Assim,
o Sublime Cavaleiro Eleito é:
guardião da verdade, criador de
autenticidade, agente de transformação e sustentáculo simbólico da Ordem.
Conclusão
O
Grau 11 não é apenas a conclusão da Trilogia dos Elús — é a convocação para
assumir a responsabilidade espiritual, moral e simbólica da maçonaria.
O
Cavaleiro Eleito deve vigiar a si mesmo, desafiar o que está cristalizado,
criar o que é justo e sustentar, com dignidade, o pacto que une irmãos, para
que a justiça não seja apenas um ideal, mas uma prática viva — dentro de si, na
Ordem e no mundo.
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