O Cavaleiro Eleito e a Conquista da Alma:
Um Diálogo Filosófico sobre o Grau 9
Por Hiran de Melo
Local:
A Câmara do Meio, após a sessão de Instrução do Grau de Cavaleiro Eleito dos
Nove.
Participantes:
- Ir∴ Nietzsche:
Mestre conhecido por seu ímpeto e pela busca da superação.
- Ir∴ Kant:
Mestre da Lógica e da Moralidade, defensor do dever e da razão.
- Ir∴ Deleuze:
Mestre do Fluxo e da Criação, avesso a sistemas rígidos.
- Ir∴ Bourdieu: Mestre da Análise
Social, atento às práticas e ao poder oculto.
Ir∴ Bourdieu:
(Fechando o Livro das Constituições) Caros Irmãos, a lição central deste Grau,
a luta contra o Mal sem se tornar o próprio Mal, não é apenas um preceito
ético; é uma prática social de alto risco. O iniciado é forçado a abandonar seu
'habitus' de reação instintiva — o modo como fomos socialmente
programados a responder. A diferença entre justiça e vingança, para nós, está
em quem detém o capital simbólico da retidão (ou seja, a autoridade
moral). A vingança é o impulso imediato do ego ferido; a justiça, uma ação
ponderada que visa restaurar a ordem no campo moral da Loja e da sociedade.
Ir∴ Nietzsche:
Concordo, em parte. O que o Irmão Bourdieu chama de "impulso do ego
ferido", eu chamo de ressentimento – o veneno mais sutil da alma. O
Grau 9 não é sobre punir um culpado; é sobre aniquilar o ressentimento em si
mesmo. Quando o Mestre Eleito decide com grandeza de espírito, ele está se
elevando ao "Além do Homem" Maçônico, afirmando sua Vontade
de Poder como criação de novos valores, e não como dominação
mesquinha. Quem não supera o desejo de revidar, permanece escravo da moral do
rebanho.
Ir∴ Kant: A
superação da paixão é louvável, Irmão Nietzsche, mas o fundamento da Justiça
deve ser mais firme que a Vontade ou o Habitus. A verdadeira Justiça
reside na Razão Pura Prática e no Dever. O Mestre Eleito não age
por impulso ou por conveniência, mas sim porque sua ação é compatível com o Imperativo
Categórico: ele deve agir de tal maneira que essa atitude possa valer
sempre, ao mesmo tempo, como princípio de uma lei universal para todos.
A Adaga, portanto, não é um símbolo de poder pessoal, mas da firmeza da Lei
Moral que deve ser aplicada com imparcialidade, protegendo a dignidade
humana, mesmo a do culpado.
Ir∴ Deleuze: Meus
caros, todos vocês falam de estruturas – seja a moral kantiana, o super-homem
nietzschiano ou o campo bourdieusiano. Mas o Grau 9 é, sobretudo, sobre mutação
e criação. A Caverna Obscura não é um lugar de julgamento, mas de vir-a-ser
– o momento em que se é forçado a se transformar. É o momento da desterritorialização
ética (deixar a zona de conforto moral). A Adaga não serve primariamente
para punir, mas para cortar o sistema que reproduz o ódio. Ela é a força
de ruptura com o ciclo vicioso da retaliação. A justiça que buscamos não é um
ponto final fixo, mas um processo contínuo de resistência, de criação de novas "linhas
de fuga" contra o mal.
Ir∴ Bourdieu: Essa
ideia de mutação é válida, Irmão Deleuze, mas o ato de criar novos caminhos
éticos só ganha validade quando ele se torna uma prática reconhecida,
que eleva o capital simbólico (a autoridade moral) do iniciado. A
vigilância é necessária para enxergar como o poder se mascara de justiça. As
Nove Luzes simbolizam essa lucidez: o esforço para enxergar além das aparências
e dos condicionamentos sociais que nos fariam julgar apressadamente. O
Mestre Eleito deve ser um agente de transformação ética e social.
Ir∴ Nietzsche:
Exatamente! Transformar a dor em sabedoria, a fraqueza em potência. As Luzes
não surgem do conforto, mas do caos que se tem dentro de si para dar à luz uma
estrela dançante. A vitória do Mestre não é sobre o mundo, mas sobre a parte
mais fraca de si mesmo – o seu instinto de rebanho e o seu desejo de vingança.
Ir∴ Kant:
A vitória sobre si mesmo, Irmão Nietzsche, é a vitória da Razão sobre a
Inclinação. Sem essa base racional e universal do Dever, a Vontade de Poder se
torna capricho. O Mestre Eleito deve ser um exemplo vivo de autonomia moral:
ele não segue regras cegas, mas age de acordo com a lei que ele próprio,
enquanto ser racional, se impôs.
Ir∴ Deleuze:
E que essa lei seja sempre um convite à intensidade, à coragem de não
reproduzir a violência. O verdadeiro combate é criar novas formas de viver o
bem, com leveza e sem a rigidez do sistema.
Conclusão
Assim,
a Maçonaria, por meio deste Grau, nos conduz à síntese. A justiça é,
simultaneamente:
- A Afirmação corajosa da
Vontade Superior (Nietzsche);
- O Dever inabalável de agir
racionalmente (Kant);
- O Processo Criativo de romper
com o Mal e gerar novos caminhos (Deleuze);
- E a Prática Consciente de
exercer a autoridade moral com lucidez (Bourdieu).
Ir∴ Nietzsche:
Que sejamos sempre guerreiros da consciência.
Ir∴ Kant:
E que nossa espada esteja guiada pela razão.
Ir∴ Deleuze:
Em constante transformação.
Ir∴ Bourdieu:
Com o mais elevado Capital Simbólico de Retidão.
Todos:
Assim Seja.
ANEXO
A
imagem é uma poderosa e rica representação simbólica do diálogo filosófico
sobre o Grau 9 (Cavaleiro Eleito dos Nove), intitulada "O Cavaleiro Eleito
e a Conquista da Alma".
Cenário
e Simbolismo Central:
1. A
Câmara do Meio: A cena se passa em um ambiente solene,
com paredes escuras e a indicação "A CÂMARA DO MEIO" na base,
estabelecendo o local Maçônico da instrução.
2. Vórtice
da Alma: O elemento central dominante é um vórtice cósmico
em espiral, repleto de estrelas e energia, simbolizando a Conquista da
Alma, o caos interior, e o processo de transformação (o vir-a-ser).
3. A
Adaga da Lei: No eixo exato do vórtice, uma Adaga
luminosa se ergue verticalmente, representando o símbolo central do Grau, que é
a ferramenta tanto para a firmeza da Lei Moral quanto para a força de
ruptura contra o ciclo da retaliação.
Os
Quatro Mestres Filósofos e seus Conceitos:
Os
quatro Irmãos estão dispostos com seus aventais Maçônicos, cada um simbolizando
a síntese do Grau:
1. Ir∴ Nietzsche
(Esquerda): É retratado com uma aparência intensa e
gótica, segurando uma Tocha flamejante (o caos que dá à luz uma estrela
dançante). Uma placa em seu avental ou ao lado dele exibe a inscrição Vontade
de Poder & Além do Homem, personificando a Afirmação corajosa da
Vontade Superior e a aniquilação do ressentimento.
2. Ir∴ Kant (Próximo):
Apresenta-se sóbrio e ponderado, segurando um livro aberto com os dizeres Lei
Moral e Imperativo Categórico. Ele representa a Razão Pura
Prática e o Dever inabalável de agir racionalmente, a base firme
para a Justiça.
3. Ir∴ Deleuze (Próximo à
Direita): É o mais etéreo, representado como um ser em Mutação
& Criação (inscrito em sua faixa), irradiando linhas de fluxo e
energia. Ele simboliza o Processo Criativo de romper com o Mal, a desterritorialização
ética e as linhas de fuga do sistema rígido.
4. Ir∴ Bourdieu (Extrema Direita): Veste um traje formal e carrega o Livro das Constituições, representando a Análise Social e a atenção às práticas. Acima dele, uma balança pende entre JUSTIÇA e VINGANÇA, com a inscrição CAPITAL SIMBÓLICO no topo, ilustrando a necessidade da Prática Consciente de lucidez e o exercício da autoridade moral.
A
imagem, portanto, captura a complexa interação entre o dever (Kant), a
superação do eu (Nietzsche), a criação e o fluxo (Deleuze), e a prática social
consciente (Bourdieu), que define a lição do Grau de Mestre Eleito.

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