Isso não me pertence mais
Por Thalita Farias Hernesto
do Rêgo, 22/12/2025.
Isso existiu porque o contexto permitiu
não porque era destino.
A circunstância mudou,
e com ela, o sentido se encerra.
Não levo isso comigo adiante.
O que não cabe no meu amanhã
não precisa ocupar o meu agora.
Eu honro o que foi cogitado.
Mas não o alimento.
Não o revisito.
Ele cumpriu seu papel:
me mostrou o que eu NÃO quero mais.
Eu retiro de você
o lugar de prioridade,
o lugar de consideração,
o lugar de intimidade.
Você passa a ocupar o lugar
que suas ações construíram,
não o que minhas virtudes sustentaram.
Minha inteireza não é desperdício.
Mas ela não é distribuída sem reciprocidade.
Breves
considerações
Por Hiran de Melo
1. O Fim do Destino e a Soberania do Acaso
O poema começa com uma
"rasgada de véu" fundamental: "Isso
existiu porque o contexto permitiu / não porque era destino."
Para quem está na
escola da vida, a pressão para que tudo "faça sentido" ou siga um plano
cósmico é enorme. O poema desconstrói isso. Ele afirma que nada está escrito
nas estrelas. As coisas acontecem por contingência — um encontro num corredor, uma
escolha de disciplina, uma paixão de verão. Aceitar que não existe um
"destino" é, ao mesmo tempo, aterrorizante e libertador, pois tira o
peso de uma missão preestabelecida e coloca a caneta na sua mão.
2. A Liberdade de se Reinventar (O "Não-Ser")
"O que não cabe no meu amanhã / não precisa ocupar o meu
agora."
Muitas vezes, nós nos
definimos pelo que fomos ou pelos erros que cometemos. O poema propõe que você
não é um objeto estático. Se uma circunstância mudou, você tem a liberdade (e
talvez o dever) de encerrar aquele sentido. Você não é obrigado a carregar uma
versão de si mesmo que não faz mais sentido. A sua essência não é algo que você
"tem", é algo que você "faz" a cada decisão.
3. O Aprendizado pelo Negativo
"Ele cumpriu seu papel: / me mostrou o que eu NÃO quero
mais."
Na filosofia da
existência, a consciência muitas vezes se define pelo que ela nega. Saber o que
você não é e o que você não quer é o primeiro passo real em
direção à autenticidade. O poema trata o passado não como um trauma a ser
remoído ("não o revisito"), mas como um limite que ajuda a desenhar
os contornos do seu novo "eu".
4. A Responsabilidade e o Outro
As estrofes finais lidam
com a alteridade — a nossa relação com os outros.
- A Queda das Projeções:
Ao dizer que o outro ocupará o lugar que as ações dele construíram,
e não o que as suas virtudes sustentaram, o eu-lírico para de criar
desculpas. É o fim do autoengano.
- Reciprocidade e Inteireza:
"Minha inteireza não é desperdício."
Aqui, há uma afirmação de valor próprio que não depende da aprovação
externa. Você é responsável pela sua própria plenitude. Distribuir essa
energia sem reciprocidade seria uma forma de "má-fé" consigo
mesmo, um desperdício da sua única e finita existência.
A Ética da Autenticidade
Para uma jovem
universitária, esse poema é um manual de desapego ético. Ele ensina que
ser fiel a si mesmo exige coragem para dizer "isso
não me pertence mais". A vida não é sobre acumular pesos, mas sobre
a constante edição de quem somos diante de um mundo que não nos dá respostas
prontas.

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