Diálogo Filosófico sobre o Grau 10 do REAA

Por: Hiran de Melo

Cenário:

Após a conclusão dos trabalhos rituais, quatro Mestres Maçons – nomeados simbolicamente Kant, Nietzsche, Deleuze e Bourdieu – permanecem no Oriente para uma reflexão profunda. Eles buscam desvendar o significado esotérico e ético do Grau 10, o Cavaleiro Eleito dos Quinze do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA).

O Sentido da Ação Maçônica

KANT (A Ética do Dever e da Razão):

Meus Irmãos, o cerne do Grau de Cavaleiro Eleito reside na Justiça e no combate às fraquezas, e isso, para mim, é a pura expressão do Dever racional. A perseguição simbólica aos assassinos de Hiram Abiff não é um ato de vingança passional, mas a afirmação inegociável do Imperativo Categórico. Nós agimos não por desejo ou recompensa, mas porque a Razão nos dita que tal ação é universalmente correta. Nossa obrigação fundamental é o autoaperfeiçoamento, de tal modo que o princípio de nossa conduta possa se tornar uma Lei Moral para todos. É a Razão triunfando sobre as inclinações egoístas e desregradas.

NIETZSCHE (A Ética da Superação e da Vida):

Com a devida fraternidade, Venerável Irmão Kant, sua moralidade do dever soa fria, como uma pesada corrente! Eu vejo no Grau 10 uma explosão da Vontade de Poder! O convite é à Autossuperação, à afirmação da vida em sua máxima plenitude e saúde. A justiça que o Cavaleiro Eleito busca não é uma regra imposta de fora; é um valor que ele mesmo cria, forjado pela coragem e pela excelência pessoal. A luta contra a ignorância e o egoísmo é a luta do Além do Homem que emerge, rejeitando a "moralidade de rebanho" que nos aprisiona com valores de submissão e negação dos instintos. A verdadeira ética emerge da vitalidade e da saúde do corpo que afirma seus valores mais profundos.

DELEUZE (A Ética da Transformação e da Multiplicidade):

Ambos apresentam visões poderosas, mas talvez ainda muito focadas na forma (seja a Lei ou a Meta). A grande beleza do Grau 10 reside no seu potencial ético de transformação contínua, no movimento. Não é sobre uma lei universal fixa (Kant), nem sobre atingir um estado final (Nietzsche), mas sobre a prática constante da criação de valores. A perseguição não é um evento único e fechado, mas o enfrentamento incessante das forças que limitam nossa liberdade e criatividade. A justiça é a ação ética em processo, que se desenrola como um rizoma — uma rede descentralizada e não hierárquica de possibilidades, desafiando a opressão e o pensamento único a cada novo instante.

BOURDIEU (A Ética da Reflexão e da Luta Social):

A simbologia deste Grau, assim como toda a Maçonaria, deve ser analisada como um Campo social específico, onde disputamos o Capital Simbólico – o prestígio e reconhecimento baseados em honra e integridade. A busca pela justiça e a luta contra a hipocrisia são a revalorização desse capital. O Cavaleiro Eleito é chamado a transformar seu Habitus, o conjunto de disposições internas que nos fazem agir (muitas vezes de forma inconsciente), e que foi moldado pelo mundo profano, predisponto-nos à fraqueza. Essa jornada é uma resistência ativa à Violência Simbólica – a imposição sutil de normas injustas que o mundo exterior nos faz aceitar.

Os Símbolos Vivos: Espada, Capa e o Guerreiro Interior

NIETZSCHE:

A Espada é a Coragem ativa, o ato de ir além de si mesmo. A Capa Verde é a Esperança como uma força dinâmica que nos impulsiona a transcender nossas limitações. Ambas são ferramentas da Vontade de Poder. O indivíduo deve ser um guerreiro contra sua própria mediocridade, criando-se e re-criando-se continuamente. O Cavaleiro Eleito é aquele que se torna um artista de si mesmo.

KANT:

A coragem da Espada não é impulso, mas firmeza moral. A Coragem é a força da vontade necessária para agir somente em conformidade com o Dever, mesmo que isso exija sacrifício ou vá contra nossos desejos pessoais. A Esperança (Capa Verde) é a motivação racional para persistirmos no caminho da virtude. O combate, repito, não é uma autoafirmação egoísta, mas a autodisciplina implacável para que a Razão reine soberana sobre os instintos.

DELEUZE:

A Perseguição aos assassinos é uma guerra contra os próprios defeitos que precisa ser vista como uma prática de autoformação. O Eu é um território que precisa ser constantemente desterritorializado para se transformar. A espada e a capa verde são ferramentas de criação, que nos permitem traçar uma linha de fuga das formas de vida rígidas e preestabelecidas. Não devemos ser como árvores fixas, mas um rizoma que cresce livremente, resistindo à estratificação do pensamento.

BOURDIEU:

A luta contra os "assassinos" — a ignorância, o egoísmo – é, na prática, a luta para reformar o Habitus. O Maçom deve se tornar um sociólogo de si mesmo: ele precisa objetivar suas disposições internas, trazer à consciência suas fraquezas ('máscaras sociais') para poder superá-las. O alerta contra a Hipocrisia e o Abuso de Poder é uma crítica severa aos que utilizam o Capital Simbólico da Ordem para dominar e não para promover a justiça, perpetuando, assim, a Violência Simbólica dentro de nosso próprio Campo.

O Propósito da Jornada do Cavaleiro

KANT:

O Grau 10 é uma lição de autonomia moral. A ordem de melhorar a si mesmo antes de julgar é o pilar da integridade. Somente quem se submete à sua própria lei racional interna tem a legitimidade moral para exigir a Justiça no mundo externo. A Justiça é o Dever incondicional da Razão.

NIETZSCHE:

É o convite à Grandeza. O julgamento alheio é irrelevante; o que realmente importa é o auto-julgamento corajoso, uma honestidade radical consigo mesmo. O Cavaleiro Eleito é a medida de sua própria excelência. A Justiça é a afirmação da vida e a excelência pessoal alcançada pela Vontade de Poder.

DELEUZE:

É a multiplicidade da ética em constante movimento. O maçom é um artista que cria sua própria vida, seu sentido e seus valores. A justiça não é um estado estático, mas um devir, um processo incessante de desafio às estruturas opressivas. A Justiça é a prática incessante da transformação e da liberdade criativa.

BOURDIEU:

É o reconhecimento de que a ética tem uma dinâmica social. A transformação do indivíduo (o Habitus) é inseparável da transformação do Campo maçônico e social. A busca pela justiça é a luta por uma ordem social mais equitativa, onde a integridade e a honra sejam o mais alto Capital Simbólico, desmascarando a Violência Simbólica.

DELEUZE: Que esta ética da multiplicidade nos inspire a criar novas trilhas.

KANT: Que o nosso dever ilumine o caminho com clareza e firmeza.

NIETZSCHE: Que nossa vontade de poder seja nossa luz e nossa força indomável.

BOURDIEU: Que o nosso habitus se torne um farol constante de justiça e reflexão crítica.

ANEXO 01

O Rizoma de Deleuze e a Estrutura Ritualística do Grau 10

A aplicação do conceito de Rizoma de Gilles Deleuze à estrutura do Grau 10 do REAA oferece uma perspectiva poderosa sobre como a ética e a transformação pessoal se manifestam na Maçonaria.

O rizoma, em contraste com o modelo de árvore (que é hierárquico, com raízes fixas, um centro e um fim), é uma estrutura que representa a multiplicidade e a conexão não hierárquica.

1. O Modelo da Árvore (Estrutura Hierárquica)

No modelo da árvore, o processo ético seria rígido:

  • Raiz Única: A moralidade é ditada por uma única lei (o Imperativo Categórico de Kant, por exemplo) ou por uma única autoridade.
  • Hierarquia Fixa: Cada grau seria um passo sequencial e obrigatório, onde a autoridade e o conhecimento fluem estritamente de cima para baixo.
  • Obediência Passiva: O Cavaleiro Eleito apenas cumpre um código predefinido, sem espaço para a criação de novos valores.

O Rizoma (Estrutura Ética do Grau 10)

O Grau 10, visto como um rizoma, sugere uma ética de ação e criação que desafia essa rigidez:

Característica do Rizoma

Aplicação ao Grau 10 do REAA

Significado para o Maçom

1. Conexão e Heterogeneidade

A jornada do Cavaleiro (busca por justiça) é feita através de múltiplas ligações – o conhecimento do Mestre Maçom, a ação do Eleito, o simbolismo da Espada e da Capa.

A verdade e a justiça não estão em um único ponto, mas na conexão ativa de diversos conhecimentos e práticas.

2. Princípio da Ruptura Antissignificante

A perseguição aos assassinos é uma ruptura com o status quo de injustiça e passividade. O Maçom rompe com o modelo de obediência cega.

O Grau é um convite para desafiar estruturas (do mundo profano ou de si mesmo) que se tornaram opressivas ou limitantes.

3. Multiplicidade e Não Hierarquia

A Justiça não é uma ordem imposta por um superior, mas uma prática ética que emerge das ações singulares de cada Cavaleiro, interligadas.

O Maçom é co-criador da justiça. O valor do Grau reside na sua capacidade de gerar novas linhas de conduta, e não apenas em seguir a regra.

4. Linhas de Fuga e Cartografia

A Capa Verde (Esperança) e a Espada (Coragem) são as ferramentas que permitem ao Maçom traçar novas "linhas de fuga" da moralidade tradicional e do egoísmo.

É a capacidade de inventar uma nova forma de ser, de fugir do Habitus (Bourdieu) e de criar os próprios valores (Nietzsche).

Em essência, a ritualística do Grau 10 não é uma linha reta, mas uma rede rizomática de transformação. O Cavaleiro Eleito não obedece a uma única raiz, mas se conecta a múltiplas fontes de sabedoria e coragem para criar, ativamente, um futuro mais justo e ético.

Conclusão

Ver o Grau 10 como um rizoma nos ensina que o Trabalho Maçônico é um processo contínuo, descentralizado e criativo, onde a ética é uma prática de liberdade e não uma mera submissão ao dever.

ANEXO 02

Descrição da Imagem

A imagem ilustra um cenário que combina simbolismo maçônico com filosofia, representando o diálogo sobre o Grau 10 do REAA.

Cenário e Atmosfera

A cena se passa em um ambiente que remete ao Oriente de um templo maçônico, com colunas e uma atmosfera solene, iluminada por velas e pela luz que emana de cima. No plano de fundo, destacam-se grandes bandeiras ou estandartes com símbolos esotéricos. No topo, paira o Delta Luminoso ou o Olho que Tudo Vê, um símbolo central de iluminação e vigilância no Rito Escocês Antigo e Aceito.

Os Quatro Mestres Filósofos

Quatro figuras, identificadas como KANT, NIETZSCHE, DELEUZE e BOURDIEU, estão reunidas em torno de uma mesa redonda. Todos vestem trajes que misturam a formalidade maçônica (ternos e paramentos) com toques que remetem à sua filosofia:

1.    KANT: À esquerda, em postura calma e racional, examinando um pergaminho que pode simbolizar a Lei ou o Dever.

2.    NIETZSCHE: No centro-esquerda, com um semblante mais intenso e um bigode marcante. Ele segura uma Tocha em Chamas sobre a mesa, representando a Vontade de Poder e a iluminação através da Autossuperação.

3.    DELEUZE: No centro-direita, trajando um cachecol (sugerindo movimento e fluidez) e olhando atentamente para o diagrama sobre a mesa com uma lupa.

4.    BOURDIEU: À direita, com óculos e um ar acadêmico, observando um elemento que parece ser a representação do Capital Simbólico ou da análise sociológica das estruturas.

Os Símbolos Maçônicos e Filosóficos na Mesa

O centro da mesa funciona como o foco da discussão:

  • Um Pergaminho Desdobrado exibe um diagrama que se assemelha a um Rizoma (estrutura de raízes interconectadas), ilustrando o conceito de Deleuze sobre a multiplicidade e as conexões não hierárquicas na busca ética.
  • Ao lado do pergaminho, estão depositados símbolos do Grau 10: a Espada (Coragem) e um pedaço de Pano Verde (Esperança/Capacete Verde).
  • Os quatro Mestres, através de seus objetos e posturas, interagem com esses símbolos, misturando a ética do dever (Kant), a vontade de criação (Nietzsche), a multiplicidade (Deleuze) e a análise social (Bourdieu) em torno dos ensinamentos do Cavaleiro Eleito dos Quinze.

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