Diálogo entre Pike e Foucault sobre o Grau 9 do REAA
Por Hiran de Melo
Uma Loja simbólica,
iluminada por nove luzes. No final da celebração dos Mistérios do Grau 9, no Oriente,
dois mestres maçons conversam: Pike, com sua visão tradicional e
metafísica, e Foucault, com seu olhar crítico e filosófico.
Abertura
Pike:
Irmão
Foucault, o Grau 9 nos coloca diante de uma encruzilhada moral. Não se trata
apenas de punir o traidor de Hiram, mas de compreender que a verdadeira Justiça
não nasce da vingança, e sim da vitória da consciência sobre as trevas da alma.
Foucault:
Concordo, Irmão Pike. Mas acrescento: o ritual não é neutro. Ele molda nossa
percepção do poder e da Justiça. O iniciado aprende não apenas símbolos, mas
uma forma de pensar e agir. O Grau 9 é um discurso de poder e ética, que nos
obriga a vigiar não só o inimigo externo, mas os mecanismos internos de
dominação.
Sobre a Vingança e a Justiça
Pike:
A
narrativa do Grau mostra que, ao matar o traidor por impulso, os Mestres
erraram. A lição é clara: Justiça não pode ser confundida com vingança. A
espada deve ser usada com discernimento, nunca com ódio.
Foucault:
Exato.
A vingança é um reflexo do poder punitivo tradicional. Mas o Mestre Eleito deve
transcender isso. Ele não é carrasco, mas guardião consciente. A Justiça, aqui,
é crítica constante, não dogma. O perigo é repetir a violência que se queria
combater.
Os Símbolos
Pike:
As
nove luzes representam a iluminação da consciência. A adaga, longe de ser
instrumento de vingança, simboliza a firmeza da Justiça reta. E a caverna
obscura é o recesso íntimo da consciência, onde o mal pode se ocultar.
Foucault:
Vejo
de outra forma:
- As nove luzes são focos de
conhecimento que libertam da ignorância e da opressão.
- A adaga é poder controlado, não
violência. Ela corta os laços da mentira e da corrupção.
- A caverna é metáfora dos mecanismos
internos de poder. O iniciado deve reconhecer o tirano interior — orgulho,
raiva, desejo de dominação — antes de enfrentar o inimigo externo.
O Mestre Eleito
Pike:
O
Mestre Eleito é aquele que se mantém vigilante contra a injustiça, empunhando a
espada da Verdade com coragem e compaixão. Ele não se esquiva das trevas, mas
as enfrenta com integridade.
Foucault:
Para
mim, o Mestre Eleito é um sujeito ético que questiona os mecanismos invisíveis
do poder, rejeita a vingança e vigia a si mesmo para não reproduzir o mal que
combate. Ele não domina, mas ilumina. Não julga, mas transforma.
Conclusão
Pike:
Portanto,
o Grau 9 nos ensina que Justiça verdadeira floresce na alma que irradia amor
pela Ordem e pela Verdade.
Foucault:
E
nos lembra que o maior desafio não é punir o traidor, mas evitar que nos
tornemos novos opressores. A Maçonaria não forma vingadores do passado, mas
guardiões conscientes do futuro.
Reflexão Final
O diálogo entre Pike e
Foucault revela duas leituras complementares do Grau 9:
- Pike
enfatiza a dimensão moral e espiritual, a luta contra as trevas internas e
externas.
- Foucault
destaca a crítica ao poder, a vigilância ética e a responsabilidade de não
reproduzir a violência.
Assim, o Mestre Eleito dos Nove é chamado a ser mais do
que executor da Justiça: é guardião da consciência, da fraternidade e da
transformação interior.
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