Diálogo entre Mestre Pike e Mestre Foucault sobre o Grau 8

Por Hiran de Melo

Em um plano simbólico e atemporal, o Mestre Maçom Pike, representando o pensamento do Grande Intendente Albert Pike dialoga com o Mestre Maçom Foucault, representado o filósofo Michel Foucault sobre o Grau 8: Intendente dos Edifícios.

O Intendente e o Filósofo: Liderança, Poder e Ética

Cenário: Uma galeria de estudos em uma Loja, onde as Colunas e o Compasso se misturam a livros de história e filosofia.

Pike: Meu caro Foucault, é uma honra recebê-lo em nossa Casa. O senhor demonstrou uma perspicácia notável ao analisar nosso Grau 8, o Intendente dos Edifícios. O senhor vê, ali em nossa instrução, um "poder que se disfarça de ensinamento".

Foucault: Mestre Pike, a honra é minha. Minha análise não é um julgamento, mas uma dissecação. O Grau 8 é uma tecnologia moral. Ele define o saber — os Mistérios Simbólicos, a numerologia, os Planos do G.A.D.U. — e, ao fazê-lo, distribui o poder e a autoridade. A ascensão a Intendente reside justamente no domínio e na repetição desse saber. Ele se torna o modelo, e o modelo, por definição, é uma forma de disciplina.

Pike: Exato! Mas essa disciplina não é opressão, é autodomínio. Dizemos que a verdadeira liderança emana do controle das próprias paixões. O Intendente só pode medir o trabalho alheio se primeiro medir a si mesmo com o rigor dos nossos instrumentos. O Compasso serve primeiro para traçar os limites de sua própria conduta.

Foucault: Compreendo. O senhor está a falar do Cuidado de Si, que se torna a condição para o governo dos outros. A Maçonaria, neste Grau, transforma a liderança de um privilégio hierárquico em uma prática ética. O líder maçônico é obrigado a ser o seu próprio laboratório moral. Caso contrário, sua autoridade, por mais que provenha do Grau, é ilegítima.

Pike: Perfeitamente. Por isso, insisto: "A autoridade moral não se impõe — se conquista, pelo serviço e pela retidão." Se o Intendente usa seu posto para a vaidade ou o autoritarismo, ele não apenas falha na liderança, como compromete a solidez de toda a construção, fazendo o edifício moral ruir. Ele se torna um vigilante que não vigia a si mesmo.

Foucault: É o paradoxo do poder: ele pode ser tanto construtivo quanto destrutivo. E o que me fascina é a forma como o Templo Simbólico opera como um dispositivo de normalização. O Intendente deve guiar cada obreiro a florescer "conforme sua vocação". Isso sugere um reconhecimento das diferenças, mas dentro de um quadro de virtudes predefinidas. É uma ética que acolhe a singularidade, desde que esta sirva ao Plano — o modelo moral coletivo.

Pike: Acolhemos a vocação, mas corrigimos o desvio. O Intendente é o supervisor do plano. O Grande Arquiteto do Universo traçou o desígnio da Ordem Universal. Nosso trabalho é executar com fidelidade, garantindo que a pedra do Orador ou do Mestre de Harmonia se encaixe harmonicamente no todo. A retidão do Intendente é o que garante a coesão fraterna.

Foucault: Então, o Templo é o lugar onde a arquitetura se torna a metáfora do poder pastoral: o pastor que se volta para cada obreiro individualmente, conhecendo seus dons, mas sempre o conduzindo ao rebanho, ao plano maior.

Pike: A figura é precisa, Foucault. Mas o que nos distingue é a fraternidade: o Intendente sustenta o irmão quando tudo balança, não por obrigação hierárquica, mas por amparo mútuo. A liderança é um fardo ético e compartilhado, que visa o aperfeiçoamento moral de todos. A construção que supervisionamos é a de uma sociedade mais justa.

Foucault: A base da sua moralidade é o serviço. A base da minha análise é o exame de como essa moralidade se traduz em práticas de poder e autogoverno. O Grau 8 é um excelente exemplo de como uma Instituição transforma o saber-poder em um cuidado-serviço.

Pike: E ao final, Mestre Foucault, o que permanece? A pedra cortada ou o espírito lapidado?

Foucault: Permanece a obra invisível, Mestre Pike. A disciplina de governar a si mesmo é a única fundação sólida para qualquer edifício que se queira duradouro.

ANEXO

A frase final do Mestre Foucault resume o ponto central de sua filosofia ética, aplicando-a de forma brilhante ao simbolismo maçônico do Grau 8.

A Obra Invisível: Autodisciplina e Liderança Ética

Aprofundando a fala de Michel Foucault no contexto do diálogo, a "obra invisível" é um conceito que transcende a moralidade tradicional e se conecta à sua análise sobre o Cuidado de Si.

1. A Obra Invisível: O Caráter

Para Foucault, a "obra invisível" não é o Templo de Salomão (a construção material) nem mesmo o templo social (a Loja ou a sociedade justa). É a construção do próprio sujeito ético:

  • Não é o que se vê: Não são os títulos, a faixa verde de Intendente, a destreza nas ferramentas ou a eloquência no discurso.
  • É o que sustenta: É o caráter forjado pela reflexão e pela prática constante de si. É a solidez interior que o maçom (o líder/Intendente) adquire ao submeter-se a um código rigoroso.
  • É a verdade do ser: Na perspectiva foucaultiana, a verdade de um sujeito não é uma essência descoberta, mas uma forma de ser produzida através de exercícios de autodomínio e práticas de liberdade.

2. A Disciplina de Governar a Si Mesmo

A "disciplina de governar a si mesmo" é o fundamento desta obra invisível e atende a dois conceitos chave de Foucault: a ética do cuidado de si e as técnicas de si.

A. Ética do Cuidado de Si

O Intendente (o líder) não pode simplesmente comandar com base na hierarquia. A autoridade legítima é derivada de um compromisso prévio consigo mesmo.

  • Prioridade: O cuidado de si deve ser a primeira e mais importante ocupação do indivíduo. Antes de impor um plano de construção aos outros, o Intendente precisa ter um plano para si mesmo e segui-lo.
  • Condição da Liderança: Para Foucault, a capacidade de governar os outros (o papel do Intendente) está diretamente condicionada à capacidade de governar a si próprio. Sem esse autogoverno, o poder se torna arbitrário, opressor e, em última análise, destrutivo — como Pike advertiu, comprometendo a solidez da construção.

B. As Técnicas de Si

Como essa disciplina é alcançada? Através de "técnicas de si", que são práticas concretas, como as mencionadas no Grau:

  • Exame de Consciência: O ato de "olhar para dentro" antes de cruzar a porta da Câmara Sagrada.
  • Medição Rigorosa: Usar os instrumentos de medição (régua, esquadro, compasso) para "medir a si mesmo com rigor e honestidade", como Pike ensina.
  • Entrega e Foco: A humildade, o foco e a entrega necessários para os desafios cabalísticos e numerológicos, que são exercícios mentais destinados a lapidar o espírito.

3. A Fundação Sólida e Duradoura

Ao afirmar que esta disciplina é a "única fundação sólida para qualquer edifício que se queira duradouro", Foucault estabelece uma ligação direta com o simbolismo maçônico:

  • Fundação Sólida (Caráter): Sem a fundação da autodisciplina e da ética pessoal (a obra invisível), a liderança do Intendente (a obra visível) será frágil. Um líder sem autocontrole ruirá diante da primeira paixão ou tentação.
  • Edifício Duradouro (Templo Moral): O Templo Moral da humanidade, que o Intendente supervisiona, não pode ser construído com alicerces podres (líderes arrogantes ou inconstantes). A única forma de garantir que a obra coletiva permaneça e prospere é se o fundamento ético do líder for inabalável.

Portanto, a fala de Foucault é a síntese filosófica que valida a máxima de Pike: a Maçonaria, no Grau 8, exige que o Intendente se torne um mestre em governar a si mesmo antes de se apresentar como um mestre em governar a Obra.

 

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