Diálogo de Mestres Maçons - O Cavaleiro
Eleito dos Quinze
Por Hiran de Melo
Cena:
No Átrio após os Trabalhos da Loja de Perfeição
Personagens:
- Pike:
Mestre Maçom, de postura tradicional e filosófica, focado na moral e no
simbolismo histórico.
- Foucault:
Mestre Maçom, de postura analítica e crítica, focado nas dinâmicas de
poder e discurso.
Justiça, Disciplina e o Grau 10
Pike: Caro Irmão Foucault, a
instrução de hoje sobre o Grau 10, o Cavaleiro Eleito dos Quinze, sempre me
toca profundamente. A saga dos "Ju" e a subsequente missão dos Quinze
ilustram o princípio da Justiça Divina sendo aplicada com temperança e razão.
Como diz Albert em Morals and Dogma, é uma lição sobre a luta contra o
mal, sim, mas principalmente contra as nossas fraquezas internas: a raiva, a
impaciência, o impulso que levou o primeiro Cavaleiro a quebrar a Lei.
Foucault: Saudamos, Irmão Pike, a sua precisão
histórica e a força moral de sua interpretação. No entanto, o que me chama a
atenção no relato – e é onde a Maçonaria se alinha, talvez sem querer, a certas
tecnologias de poder que analisei – é a forma como o iniciado é modelado. O
Grau 10, com sua ênfase na busca e no julgamento dos culpados, funciona como um
dispositivo de normalização.
Pike: Um "dispositivo de
normalização"? Creio que vejo isso de modo mais simples: como uma pedagogia
da retidão. A história não é apenas sobre punir, mas sobre aprender a julgar
com sabedoria. O Cavaleiro Eleito, ao invés de buscar vingança cega (como no
primeiro ato), deve se tornar um instrumento da Lei, agindo com moderação. A
capa verde da esperança e a espada da coragem são os símbolos que nos lembram
de temperar a força com a ética.
Foucault: A "pedagogia da retidão" é
precisamente o que me interessa. O poder, neste contexto, é mais eficaz quando
não é uma repressão externa, mas uma disciplina interna que o iniciado aceita.
Ele é ensinado a "vigiar a si mesmo", a combater seus próprios
"inimigos internos" – a ignorância, o egoísmo, a mentira. O
verdadeiro triunfo do Grau não é a captura dos "Ju", mas a produção
de um sujeito ético que incorpora o dever de ser um exemplo moral. O iniciado
torna-se o seu próprio juiz e carcereiro.
Diplomacia Interior vs. Tecnologia do Eu
Pike: Essa vigilância
interna, contudo, é a chave para o que o Irmão Hiran de Melo chamou de Diplomacia
Interior. O texto nos convida a uma jornada de escuta e paciência, até mesmo
com nossos próprios vícios. Não se pode extirpar um vício à força, sob o risco
de ele se transformar em algo pior. É preciso entender suas raízes, negociar
com as sombras da alma. Essa é a transformação interior que o Grau 10 propõe.
Foucault: É uma bela metáfora, Irmão Pike. Mas do
ponto de vista da tecnologia do eu, essa "diplomacia interior" é o
método de autogestão da conduta que a Maçonaria promove. O texto de instrução,
ao citá-lo longamente, Irmão Pike, cria uma autoridade epistêmica – o seu saber
torna-se a norma interpretativa. O discurso define o que é o bom maçom:
aquele que adota essa lógica de autogestão e age com honra e integridade,
tornando-se "defensor do povo contra a tirania e o erro".
Pike: É inevitável que o saber
crie uma norma e uma autoridade, Irmão. Afinal, a Maçonaria é uma escola de
moral e virtude. Meu trabalho visa consolidar o saber legítimo para que o Maçom
não se perca em interpretações que levem à desordem ou ao caos, como ocorreu
com o primeiro Cavaleiro. A lição central é o equilíbrio e a compaixão antes da
punição. A vingança, mesmo travestida de justiça, é traiçoeira.
Foucault: Concordo que o objetivo final é nobre,
mas é crucial desvelar como o processo opera. O Grau 10 não apenas ensina sobre
justiça; ele produz a figura do justo. O ritual e o discurso moldam o que se
pode pensar, sentir e dizer sobre o grau, estabelecendo uma lógica de
governamentalidade ética. A verdadeira questão filosófica não é o que a
Maçonaria ensina, mas como ela forma o sujeito moral por meio desse
conjunto de símbolos, discursos e práticas que chamamos de Rito.
Um Convite à Reflexão
Pike: Agradeço a sua
perspicácia, Irmão Foucault. Suas lentes nos forçam a enxergar as estruturas de
poder que jazem sob as máximas morais. Mas, no fim, ambos concordamos que o
Grau 10 é um convite à reflexão. Ele planta uma semente, e o que brota depende
do solo: a consciência em vigília do Maçom.
Foucault: Perfeitamente. Independentemente de ser
uma pedagogia ou uma tecnologia, o Grau 10 é um poderoso operador de poder
simbólico, instigando a um olhar para dentro. O Maçom deve sair do Grau não
apenas instruído, mas transformado – não por coerção externa, mas por uma
adesão íntima a um código de conduta mais elevado.
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