Ballet

Por Thalita Farias Hernesto do Rego

 

O ballet começa onde a palavra falha.

Num silêncio tenso, o corpo aprende

a falar com dor elegante.

 

Pés sangram para que o gesto flutue.

Costelas se fecham para que o voo exista.

Nada nele é leve —

tudo parece.

 

O espelho não devolve quem dança,

apenas quem suporta.

Ali, a beleza é um acordo cruel

entre disciplina e desejo.

 

Cada passo é um pedido de permanência,

cada giro, uma ameaça de queda.

E ainda assim, insiste-se.

Porque o ballet não chama —

ele exige.

 

É arte feita de ossos,

fé sustentada por músculos cansados,

uma oração repetida até o corpo ceder.

 

E quando termina,

não há aplauso que cure:

o ballet fica.

Como vício.

Como herança.

Como amor que dói,

mas nunca se abandona.

 

Breves considerações sobre o Ballet da Thalita.

Por Hiran de Melo

 

O poema sobre o ballet nos coloca diante de uma experiência que ultrapassa o domínio da palavra e se inscreve no corpo como linguagem silenciosa. Trata-se de uma revelação do ser em sua tensão entre dor e beleza, finitude e transcendência.

O corpo como morada do sentido

O ballet é apresentado como um espaço em que o corpo se torna intérprete de algo que não pode ser dito. O gesto, mesmo marcado pela dor, não é mero sofrimento: é a abertura de um horizonte onde o ser se mostra. O sangue nos pés e o cansaço dos músculos não são apenas marcas físicas, mas símbolos da condição humana — o peso da existência que, paradoxalmente, permite o voo.

Assim, o corpo não é instrumento, mas lugar de desvelamento. Ele carrega em si a tensão entre disciplina e desejo, mostrando que a beleza não é leveza ingênua, mas conquista árdua, quase cruel, que exige entrega total.

O espelho e a verdade do ser

O espelho, que não devolve quem dança, mas quem suporta, revela a cisão entre aparência e essência. O bailarino não se reconhece na imagem refletida, mas na resistência silenciosa que sustenta o gesto. Aqui se abre uma dimensão existencial: o ser não é aquilo que se mostra superficialmente, mas aquilo que se mantém firme diante da exigência da vida.

O ballet, nesse sentido, é metáfora da própria existência: não chamando, mas exigindo. A vida não se oferece como espetáculo fácil; ela convoca à responsabilidade de permanecer, mesmo diante da ameaça constante da queda.

Permanência e transcendência

Cada passo é um pedido de permanência, cada giro uma ameaça de queda. Essa dialética entre estabilidade e risco traduz a condição humana: viver é sempre dançar na beira do abismo. Mas é justamente nesse risco que se abre a possibilidade de transcendência.

O ballet, como oração repetida, mostra que o sentido não está no aplauso final, mas na insistência do gesto. O ser se revela não na vitória, mas na perseverança. O que fica não é o espetáculo, mas a marca existencial de quem ousou dançar.

Esperança e amor pela vida

Apesar da dor, o texto não se encerra em pessimismo. O ballet é vício, herança, amor que dói, mas não se abandona. Essa insistência é também esperança: a vida, mesmo exigente, é digna de ser amada. O gesto que sangra é o mesmo que flutua; a disciplina que oprime é a mesma que abre espaço para a beleza.

Esse movimento pode ser lido como a abertura para o sentido da existência: não há redenção fora da vida, mas na própria entrega ao seu peso e à sua luz. Amar a vida é aceitar sua exigência, sua dor e sua beleza, sem renunciar ao voo que ela promete.

Um convite: seja!

O ballet, tal como descrito no poema, é metáfora da existência humana: uma dança entre dor e transcendência, disciplina e desejo, queda e permanência. À luz da hermenêutica heideggeriana, ele nos lembra que o ser se revela no gesto insistente, na oração silenciosa do corpo que não desiste.

E é nesse insistir, mesmo cansado, que se encontra a esperança: a vida, como o ballet, exige — mas também oferece a possibilidade de amar, de permanecer, de flutuar.

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