Um Diálogo Improvável: Deleuze e Bourdieu no Grau 5
Perda, Criação de Si e o
Prestígio Secreto do Mestre Perfeito
Por Hiran de Melo
Os Mestres Gilles
Deleuze (o filósofo da mudança constante e da criação) e Pierre Bourdieu
(o sociólogo que estuda como a sociedade nos molda) parecem vir de mundos
diferentes. Mas, ao olhar para o Grau 5: Mestre Perfeito do REAA, suas
visões se unem em uma rica reflexão sobre como nos transformamos após o trauma,
a moral e a reconstrução do nosso "eu" interior.
I. A Partida de Hiram: O Trauma como Disparador
A história do Mestre
Perfeito começa com a perda de Hiram Abiff, um momento de profunda
desorganização e luto.
Deleuze (A Potência da Perda):
Deleuze vê o trauma não
como um final, mas como um gatilho para a criação. A dor que sentimos ao
perder algo fixo nos desorganiza e abre brechas para inventarmos algo
novo em nós.
A lição aqui:
A tarefa do Mestre Perfeito não é remendar o que foi perdido, mas reinventar-se
a partir da perda. É um convite a se desfazer de velhas estruturas para
criar um novo e melhor modo de ser.
Bourdieu (O
Hábito em Crise):
Bourdieu entende que o
luto e a ruptura são uma crise profunda que nos obriga a olhar para o
nosso Habitus. O Habitus é aquele conjunto de disposições, valores e
comportamentos que herdamos da sociedade e da nossa história.
A lição aqui:
O trauma nos força a reeducar e refinar nossas atitudes. O Mestre
precisa reconhecer que o seu "eu" a ser dominado é, em grande parte,
uma construção invisível que ele precisa agora reestruturar de forma
consciente.
II. Perfeição: Criação vs. Distinção Ética
O Grau 5 exalta o ideal
de perfeição, pureza e controle dos desejos. Ambos questionam esse ideal
rígido.
Deleuze (Contra a Regra Fixa):
Deleuze questiona a ideia
de perfeição como um ideal rígido e inalcançável. Ele propõe uma ética
da potência em vez de uma moral da renúncia.
A pergunta-chave:
Não é "Eu estou obedecendo à regra moral?", mas sim: "Isso
aumenta a minha capacidade de viver, de agir e de ser criativo?" O
verdadeiro Mestre não busca a pureza simples, mas sim a multiplicidade
de ser, canalizando seu caos interior para se construir como uma obra de
arte viva.
Bourdieu (A
Distinção pelo Serviço):
Bourdieu concorda que o
controle das paixões é um trabalho sobre o Habitus. Mas o objetivo é desconstruir
a vaidade, o egoísmo e a competição que herdamos da sociedade.
A lição aqui:
A distinção do Mestre Perfeito não está em se vangloriar. Está na
aquisição de Capital Simbólico (prestígio e respeito legítimo) dentro do
campo fraterno. Esse capital é conquistado através da humildade, do silêncio
e do serviço, e não pela ostentação. A humildade, ironicamente, torna-se
a nova marca de distinção do Mestre.
III. O Templo Interior: Estrutura Fixa ou Campo de Forças?
A reconstrução do Templo
Interior é central no simbolismo do grau.
Deleuze (Novas Conexões):
Deleuze vê o Templo como
algo vivo, liberto de estruturas fixas. Para ele, o Templo não reflete um Deus
distante, mas expressa a potência da vida que pulsa, se conecta e se
transforma.
A Reconstrução
Deleuziana: O Mestre não reconstrói o velho Templo;
ele cria novas conexões e formas de vida em seu interior.
Bourdieu
(Nova Estrutura Interna):
Bourdieu vê a
reconstrução como uma reestruturação social interna. O Mestre Perfeito
redesenha a estrutura de suas disposições internas, repensando o que ele
valoriza e o que considera justo, superando as limitações sociais que o
moldaram.
A Reconstrução Bourdiana:
O Templo erguido é um espaço onde o espírito prevalece sobre os vícios
sociais de competição e vaidade.
IV. A Verdade: Imposição ou Criação de Sentido?
A fidelidade inabalável à
Verdade é uma virtude essencial do Grau.
Deleuze (Fluxos de Sentido):
Deleuze desconfia da
"Verdade" com V maiúsculo e eterno. Para ele, o compromisso do Mestre
é com a produção de novos sentidos, com a liberdade de pensar o
impensado e de criar outras formas de ver o mundo. A própria força
criadora é a essência da "verdade" do Mestre.
Bourdieu
(Vigilância Crítica):
Bourdieu alerta que o que
chamamos de "verdade" na sociedade muitas vezes é resultado de disputas
de poder.
A Lição de Vigilância:
O Mestre Perfeito deve buscar a Verdade com espírito crítico e vigilância
constante. Ele não deve reproduzir o que é apenas herdado ou imposto, mas
sim o que foi realmente compreendido, vivido e testado pela razão e pela
experiência.
Conclusão: O Mestre Perfeito é um Criador e Agente de Mudança
Na síntese deste diálogo
improvável:
- O Mestre Perfeito trabalha em seu
Habitus (Bourdieu), mas não para se encaixar num molde fixo de
perfeição, e sim para inventar-se continuamente (Deleuze).
- Ele busca a virtude para acumular respeito
legítimo (Bourdieu), mas sua ética final é a potência que o
torna mais vivo e criador (Deleuze).
- Ele reconstrói a si mesmo como
uma nova estrutura interna (Bourdieu), expressando a multiplicidade
e a força da existência (Deleuze).
O verdadeiro Mestre,
portanto, não se reconstrói — ele se reinventa; não busca a pureza — ele
vive a multiplicidade; não reflete o divino — ele expressa a potência da vida;
e não se submete à Verdade imposta — ele cria sentidos novos e vitais.
ANEXO 1: A Visão de
Foucault (O Olhar da Disciplina)
A análise de Michel
Foucault foca em como o poder nos molda. Para ele, o Grau 5 revelaria
mecanismos de disciplina e normalização.
1. Disciplina
do Grau: As exigências de "domínio dos vícios"
seriam práticas disciplinares que buscam normalizar o comportamento. O
Mestre deve provar que internalizou as normas do Rito para ser
considerado Perfeito.
2. O
Panóptico Simbólico: A própria Loja e o Rito funcionam como um
Olhar Potencial (o Panóptico). O Mestre, sabendo que pode ser julgado
pelo ideal do Rito, é levado a vigiar a si mesmo constantemente. A ética
é garantida pela autovigilância internalizada.
3. O
Mestre como Produto: Na visão de Foucault, o Mestre Perfeito é
menos um criador livre (Deleuze) ou um acumulador de prestígio (Bourdieu), e
mais um sujeito produzido pela disciplina e pela normalização do Rito.
O Grau 5, para Foucault,
mostraria como o poder usa a busca pela perfeição como a tecnologia para
governar a conduta e moldar a subjetividade do iniciado.
ANEXO 2 : Três Ferramentas para o Mestre Perfeito
Gostaria de saber qual
dos três – Deleuze (Criação), Bourdieu (Estrutura Social) ou Foucault
(Disciplina) – oferece o caminho mais útil para um Mestre Perfeito na prática
cotidiana?
A escolha do pensador
mais útil na prática cotidiana do Mestre Perfeito depende do tipo de
trabalho que você sente que a Loja ou você, pessoalmente, precisa mais no
momento.
Cada filósofo oferece uma
ferramenta de autoconhecimento e ação distinta para o Mestre Maçom.
As opções ao Mestre Perfeito
1. Foucault: A Ferramenta da
Autocrítica (Disciplina)
Foucault é o mais útil
quando você precisa vigiar a si mesmo e a estrutura da Loja contra a
hipocrisia e o conformismo.
- Na Prática:
Use Foucault para perguntar: “Eu estou agindo com moralidade porque quero
ou porque estou sendo vigiado pelos meus Irmãos e pelo Rito?”
- Ação:
Ele o ajuda a identificar e desmantelar a "ortopedia moral"
– aquele esforço forçado para ser perfeito só para cumprir a norma. Sua
missão é transformar a vigilância imposta pelo Rito em liberdade
ética autônoma.
- Foco:
A honestidade radical sobre as relações de poder e as normas
invisíveis que definem o que é ser "Perfeito".
2. Bourdieu: A Ferramenta da
Gestão de Si (Estrutura Social)
Bourdieu é o mais útil
quando você precisa mudar hábitos ruins herdados da sociedade e ganhar respeito
legítimo (Capital Simbólico) dentro da Fraternidade.
- Na Prática:
Ele o ajuda a mapear seu Habitus (o que você faz e como age
automaticamente por ter nascido em um certo meio) e a trabalhar
conscientemente para eliminar os vícios sociais (como a vaidade, a
competição e o egoísmo) que a Maçonaria repudia.
- Ação:
O Mestre Perfeito deve buscar a Distinção pela Humildade. Você não
busca ser respeitado por dinheiro ou poder profano, mas sim pelo silêncio,
serviço e retidão moral que demonstra no Templo.
- Foco:
A superação dos vícios herdados para se enquadrar (de forma
virtuosa) no "campo" maçônico.
3. Deleuze: A Ferramenta da Reinvenção (Criação)
Deleuze é o mais útil
quando você se sente estagnado e precisa de um impulso criativo
após uma crise ou trauma.
- Na Prática:
Use Deleuze para perguntar: “O que esta perda (o trauma da Iniciação ou
uma crise pessoal) me permite criar de novo em mim? Como eu posso aumentar
minha potência de agir e pensar?”
- Ação:
Ele o encoraja a ver a vida como fluxo e a si mesmo como uma
obra de arte em constante mutação. O trabalho não é buscar uma
perfeição fixa, mas sim a multiplicidade de sentidos e a invenção
constante de novas formas de ser e estar no mundo.
- Foco:
A busca pela liberdade criativa e pela superação constante
dos limites do seu "eu" fixo.
Qual Escolher?
- Se seu desafio é ser mais ético e
menos hipócrita, escolha Foucault para ser seu guia.
- Se seu desafio é melhorar sua
conduta e ganhar autoridade moral entre seus Irmãos, escolha Bourdieu.
- Se seu desafio é romper com a
rotina, inovar e se sentir mais vivo no seu caminho iniciático,
escolha Deleuze.
O Mestre Perfeito, em
última análise, sabe ser disciplinado (Foucault), socialmente
virtuoso (Bourdieu) e eternamente criador (Deleuze).

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