Um Diálogo entre Kant e Nietzsche sobre o Grau 5 do REAA
O Mestre Perfeito: Razão,
Dever e a Coragem de Ser
Por Hiran de Melo
No silêncio sagrado do Templo, com a luz suave do Oriente a envolver a
cena, dois Mestres Maçons de grande saber se encontram. Eles representam duas
grandes forças do pensamento: um, o rigoroso Kant, defensor da razão
moral; o outro, o revolucionário Nietzsche, o "martelo"
que questiona as verdades estabelecidas.
O tema em debate é o Grau 5: Mestre Perfeito, com seus símbolos
de perfeição, reconstrução interior, verdade e domínio das paixões. O diálogo a
seguir é um espelho quebrado, refletindo duas visões poderosas sobre o que
significa ser "perfeito".
I. A Perfeição em Debate: É Possível Ser um Mestre Perfeito?
Kant começa com sua calma habitual:
"O Mestre Perfeito não é quem já atingiu o ideal, mas quem o busca
sem parar, por puro dever. Ele vigia seus impulsos, age sempre por
princípios que poderiam valer para todos e constrói, dentro de si, um templo de
autonomia moral."
Nietzsche sorri com ironia:
"E é exatamente aí que mora o perigo, meu Irmão. Pois o que você
chama de 'perfeição moral' é, muitas vezes, apenas domesticação. A moral
de rebanho se disfarça de virtude quando, na verdade, é só a fraqueza
vestida de pureza."
II. Moralidade: Dever ou Domesticação da Alma?
Kant insiste
no ponto central de sua filosofia:
"Agir moralmente é agir de um modo que poderia se tornar uma regra
para todos. A razão nos mostra o caminho correto, não por interesse, mas
por respeito à nossa própria humanidade."
Nietzsche rebate com força:
"Essa humanidade que você defende é apenas uma invenção moral! Você
ensina o homem a reprimir o que é vital e a negar a tragédia da vida.
Eu digo: o Maçom deve criar seus próprios valores, e não se submeter a
leis que se dizem universais. A moral que você prega é só uma sombra do antigo
deus que a humanidade inventou."
Kant contra-argumenta:
"Ter autodomínio não é reprimir; é ser livre. É
elevar-se acima dos desejos e impulsos para que a razão seja o verdadeiro
mestre da ação."
Nietzsche retruca:
"Racionalizar a vida é empobrecê-la! A verdadeira força
nasce do caos, da paixão e da energia criativa, nunca de um mero 'dever'."
III. A Dor: Provação ou Matéria-Prima?
O Grau 5 vê a dor como um meio de aprimoramento.
Kant comenta:
"A dor, para o Mestre Perfeito, é uma chance de fortalecer o
dever. Ela refina a vontade e torna o compromisso moral mais
puro."
Nietzsche responde com sarcasmo:
"A dor não purifica nada! Ela desafia, rompe e obriga a recriar.
'O que não me mata, me fortalece' — e isso acontece não porque a dor nos torne
puros, mas porque ela nos força a superar-se, a nos transformar numa
obra de arte de nós mesmos."
Kant questiona
a diferença:
"Mas, se o Mestre a usa para crescer, qual é o problema?"
Nietzsche conclui o raciocínio:
"O problema é você acreditar que esse crescimento aponta para uma perfeição
moral pré-definida. O caminho do Mestre é criar, não apenas obedecer."
IV. A Verdade: Absoluto ou Interpretação Pessoal?
Kant é claro
sobre o valor da Verdade:
"A fidelidade à verdade é o fundamento do Grau. Mentir é
sempre errado, pois destrói a confiança que sustenta toda a comunidade
humana."
Nietzsche se inclina, com um olhar perspicaz:
"Mas que verdade? A sua verdade moral? Lembre-se, Kant: 'não há
fatos, apenas interpretações'. A busca por uma Verdade absoluta é uma
herança antiga. O homem forte não recebe sentidos como mandamentos, ele os cria."
Kant rebate,
preocupado com o social:
"Se cada um criar a sua própria verdade, a vida em sociedade se
torna impossível. A moral exige ser universal."
Nietzsche conclui:
"E é exatamente por exigir universalidade que a moral aprisiona.
Uma verdade mutável e pessoal é mais honesta com a complexidade do
real."
V. O Templo Interior: Razão ou Vontade de Potência?
O Grau 5 exige a reconstrução do Templo Interior.
Kant:
"O Templo Interior é a razão. É ali que o homem se torna seu
próprio legislador moral, um agente autônomo, capaz de agir por dever e respeito
à dignidade de todos."
Nietzsche responde com convicção:
"Eu digo o contrário: o Templo Interior é a vontade de potência
(o desejo de ser mais e criar). Não se trata de obedecer à razão, mas de transformar
as próprias forças interiores em criação. A única centelha que resta no
homem é a sua força criadora."
VI. Síntese Final: O Mestre Perfeito Entre Dois Mundos
O Templo se acalma. O debate não tem um vencedor, mas revela que a
alegoria do Grau 5 é grande o suficiente para acolher ambas as leituras:
- A Voz de Kant:
Vê no Mestre Perfeito o ideal moral, a vigilância da razão e o dever
como a única base para a dignidade. O Maçom é o Legislador Moral.
- A Voz de Nietzsche:
Vê no Mestre Perfeito uma ocasião de ruptura, de reinvenção
do eu e de superação das verdades herdadas. O Maçom é o Criador
de Novos Valores.
O Mestre Perfeito, à luz deste encontro, não é aquele que escolhe um
lado para anular o outro. É aquele que sabe ouvir os dois.
E, no silêncio mais íntimo de seu próprio Templo, ele aprende a
escutar — ora a voz austera do dever, ora o sussurro selvagem da criação
— até descobrir o caminho único que lhe cabe percorrer.
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