Palavra, Firmeza e o Arquiteto Interior

(Um Diálogo ao Jovem Aprendiz Maçom)

Por Hiran de Melo

“Quando deixamos o Espírito de Deus guiar nossas palavras, nada é em vão…” – Manoel Carlos Santos no Facebook.
“Embora tramem o mal contra ti e façam planos perversos, nada conseguirão.” – Salmos 21:11

Mestre Jorge – A Bússola Invisível e o Ofício da Palavra

Meu Irmão Melquisedec, ao olhar a vida do Aprendiz, percebo que seu grande desafio é aprender como agir e falar com sentido num mundo ensurdecedor.

Vivemos entre vozes que nada constroem, opiniões que nada elevam, palavras que são como pedras soltas na enxurrada. E, no entanto, a Maçonaria nos chama a outro tipo de linguagem: a Palavra que é pedra lavrada, gesto consciente, ato que carrega presença.

Quando nos entregamos à Guia Superior — seja o Grande Arquiteto do Universo, o Espírito de Deus ou a Luz que brilha no íntimo — nossas palavras deixam de ser ecos e tornam-se expressões da Verdade que habita o coração.

É por isso que dizemos que “nada é em vão” quando falamos inspirados: porque quem fala é o Espírito, quem age é a Luz, quem constrói é o Arquiteto Interior.

E é aqui que surge a primeira chave para o Aprendiz:

A Palavra é a Morada da nossa Verdadeira Essência. Aquilo que dizemos revela aquilo que somos — e aquilo que ainda tememos ser. O que o Irmão pensa desse mistério?

Mestre MelquisedecDa Pedra Bruta à Palavra Viva

Mestre Jorge, suas palavras são como o som do malho acertando o lugar correto da pedra.

O Aprendiz ingressa na Ordem carregando, dentro de si, fragmentos do mundo exterior: medos, máscaras, opiniões herdadas, barulhos que não lhe pertencem. A Pedra Bruta é essa condição. Mas a lapidação não é apenas moral — é ontológica: trabalha aquilo que somos no mais íntimo.

E aqui aparece o primeiro conceito fundamental:

1. A Palavra como Essência

Se “a linguagem é a morada do Ser”, como ensinou Heidegger, então cada palavra que pronunciamos é um tijolo no Templo que estamos construindo.
Quando falamos sem alma, o Templo se enche de ecos vazios.
Quando falamos desde o Espírito, o Templo se torna Presença.

2. A Firmeza como Postura Interior

O salmista diz: “Nada prosperará contra ti”. Isto não nega a existência do mal — mas afirma que o mal não encontrará onde se fixar quando o homem está firmado no Eterno.

Firmeza, para o maçom, é a capacidade de permanecer resoluto diante das forças que tentam dissolver sua identidade. É permanecer inteiro quando o mundo empurra para o vazio. É erguer-se quando o inimigo investe para destruir.

A Firmeza não é dureza: é raiz profunda, é centro silencioso, é o “sim” interior que não se dobra ao caos.

3. O Arquiteto Interior

Quando falamos da “Fonte Superior”, não nos referimos apenas a Deus transcendental, mas também ao Deus que habita a intimidade, a centelha que orienta, guia e inspira — o Arquiteto Interior.

É Ele quem ilumina a Palavra e fortalece a Firmeza. Sem Ele, falamos por hábito; com Ele, falamos por Verdade.

Mestre Jorge – O Adversário como Esculpidor da Alma

Então, Irmão, compreendo que até mesmo o inimigo tem função no Templo.

Pois a frase tão repetida — “o que o inimigo intentou para te destruir, Deus usará para te exaltar” — não é moralismo; é metafísica da construção.

A pedra somente adquire forma porque há resistência.
O metal somente revela pureza porque passa pelo fogo.
O maçom somente cresce porque enfrenta o obstáculo que o destina ao alto.

O mal se torna fundo sobre o qual a luz se manifesta.
A dificuldade torna-se martelo nas mãos do Arquiteto Interior.
A dor torna-se sinal de que há Grande Obra sendo feita.

O inimigo, então, deixa de ser ameaça e torna-se ferramenta.

Mestre Melquisedec – O Silêncio que Funda a Firmeza

Sim, Mestre Jorge. E aqui chegamos ao último ensinamento para o Aprendiz:

4. O Silêncio

O silêncio do Templo não é vazio: é útero do Verbo.
É nele que a Palavra se purifica.
É nele que a Firmeza nasce.
É nele que o Arquiteto Interior se revela.

O mundo fala demais; o maçom ouve demais.
O mundo grita; o maçom silencia para que o Espírito fale.

O Aprendiz deve entender que a verdadeira construção começa dentro, e o primeiro instrumento dessa obra é a capacidade de calar-se para ouvir, de ouvir para compreender, de compreender para agir com verdade.

A Obra

Que cada palavrara sua seja luminosa; que cada gesto seja firme; que cada silêncio abra espaço para Deus habitar.

Que você, jovem Aprendiz, descubra que:

Ø  A Palavra é a casa onde o Ser mora;

Ø  A Firmeza é a coluna que sustenta essa casa;

Ø  O Arquiteto Interior é quem habita, organiza e ilumina tudo.

E que assim, com humildade e coragem, você erga o Templo vivo que lhe cabe erguer — dentro e fora de si.


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