O Prumo da Alma e o Canto do Diálogo

Um diálogo entre os Mestres Rafael e Melquisedec

Por Hiran de Melo

Mestre Rafael: “Meu Irmão Melquisedec, há momentos em que, ao contemplarmos o nosso trabalho interior, percebemos que certas sombras ainda se projetam sobre a obra humana. Entre elas, uma se destaca por sua torpeza: o Argumentum Ad Hominem.

Quando o homem se vê sem fundamentos, abandona o Esquadro que o conduzia e lança mão do malho da ofensa. É como se deixasse de edificar o Templo da Verdade para erigir, no seu lugar, a muralha de seus próprios vícios.

A agressão pessoal é sempre o vestígio de uma luz que se apagou. O golpe dirigido contra o Irmão não é força — é o eco de uma oficina interior que perdeu o ritmo do prumo”.

Mestre Melquisedec: “És sábio, Rafael. O Ad Hominem não é diálogo, nem mesmo debate; é a desconstrução da dignidade alheia. Pela presença quase constante desse instrumento nos debates, nunca depositei fé nesse tipo de comunicação. Neles, a palavra vira espada, e o adversário, inimigo.
Onde há guerra, a verdade não floresce — apenas sobrevive quem tenta eliminar o “não amigo”.

Mas o diálogo… ah, o diálogo é outro reino. Nele, reconheço-me como viajante, não como senhor da verdade. Minhas visões ainda estão em obra, e as visões do outro não me ameaçam: ampliam-me.

E há mais, meu Irmão: no diálogo fraterno nasce o alicerce da sociedade que sonhamos — uma sociedade moldada na Paz e no Amor.

A fraternidade é a argamassa invisível que sustenta a convivência humana; é ela que transforma diferenças em pontes e não em abismos. Quando dois homens dialogam com respeito, não estão apenas esclarecendo ideias — estão erguendo, pedra a pedra, um mundo onde a dignidade do outro é sagrada e onde o coração encontra repouso na compreensão mútua.
Sem fraternidade, o diálogo se torna cálculo; com ela, torna-se luz e caminho. É por isso que acredito que o diálogo fraterno é a verdadeira oficina onde se forja a Paz e o Amor duráveis”.

Mestre Rafael: “Talvez seja por isso que o sábio jamais responde à violência com violência. O Compasso nos ensina a conter as paixões antes que elas se transformem em tempestade.

Quando alguém nos fere pela palavra, convém recordar que esse ataque não revela nossa pedra — revela a rudeza da pedra dele. É o som áspero de um cinzel malconduzido.

Em tais horas, o silêncio é mais que prudência: é uma forma de música interior, o cântico daquele que permanece alinhado ao Prumo”.

Mestre Melquisedec: “Sim, porque o diálogo é o terreno onde as diferenças se tornam mestres-escolas da alma. Aquilo que diverge de mim não me destrói; depura-me.

A visão que o outro traz pode confrontar a minha, mas só para elevá-la. O que era estreito se alarga; o que era opaco, se ilumina.

No diálogo, dois seres não lutam — constroem. E a nova coluna que erguem juntos é mais alta que qualquer torre que poderiam levantar sozinhos”.

Mestre Rafael: “E é nesse ponto, Irmão, que compreendo a grande lição: a Trolha, às vezes, serve não apenas para unir, mas para velar com dignidade o erro de quem ainda aprende a trabalhar em seu próprio Templo.
O silêncio do justo, longe de ser covardia, é testemunho de uma força interior que não precisa provar-se. Ele é o gesto final do verdadeiro obreiro que sabe que a sua obra fala por si”.

Mestre Melquisedec: “E talvez seja esse, meu Irmão, o verdadeiro destino de todo homem que busca a Luz: superar o Ad Hominem não pela via dura do confronto, mas pela doçura firme da serenidade; não tentando apagar o brilho do outro, mas permitindo que a própria chama interior se acenda ainda mais.

Porque, quando dois homens se dispõem a dialogar com respeito, quando se escutam com o coração aberto, algo sagrado ocorre. É como se uma brisa suave percorresse o Templo invisível que habitamos.

Nesse instante, a Verdade — essa companheira tão discreta e tão luminosa — se ergue mais um grau, elevando não apenas o pensamento, mas também a alma.

E é assim, passo a passo, encontro após encontro, que ajudamos a construir o grande Templo da Humanidade”.

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