O Mestre Secreto no REAA: Uma Conversa
Entre Gigantes da Filosofia
Linhas de Fuga, Prestígio Simbólico e o
Cuidado Pessoal
Por Hiran de Melo
Numa sala reservada, com a luz suave
das velas criando um ambiente de mistério, três Mestres Maçons se encontram
para uma reflexão profunda. Eles usam nomes emprestados de grandes pensadores —
Deleuze, Bourdieu e Foucault — para lançar luz sobre o Grau
4: Mestre Secreto.
1. Deleuze e a Liberdade da Fuga
O Templo Não é Prisão, É Ponto de
Partida!
Deleuze começa a conversa, com a voz
carregada de entusiasmo pela liberdade:
"Irmãos, o ritual fala em elevar nosso templo
interior. Mas cuidado! A verdadeira liberdade não está na rigidez desse
templo, mas na capacidade de fugir dele! O Grau 4 insiste muito em ascensão
moral, em subir degraus, em se vigiar. Para mim, isso pode ser uma forma de
aprisionar nossa vontade e nosso pensamento em regras rígidas."
Para ele, o Maçom que realmente busca a
Iniciação não fica parado no lugar esperando a "verdade" vir de cima.
Ele prefere abrir caminhos por conta própria, ligar ideias e
experiências que parecem separadas (os famosos rizomas), vivendo o
aprendizado como uma força intensa.
"O Olho que Tudo Vê é poderoso,
mas ele não enxerga a mudança, não vê as conexões novas que fazemos. É nessa multiplicidade
de caminhos que o Mestre Secreto se torna realmente livre."
2. Bourdieu, Prestígio e a Chave dos Mistérios
Como o Conhecimento Cria Hierarquia na
Loja
Bourdieu, por sua vez, traz o olhar para o
aspecto social da Maçonaria:
"Deleuze, sua visão da liberdade é
forte, mas precisamos encarar o lado prático. O Grau 4 também funciona como um campo
social. Ele distribui prestígio, o chamado capital simbólico,
e marca uma distinção entre quem tem o conhecimento e quem não
tem."
Ele argumenta que a chave dos mistérios, além
de ser um símbolo, é um mecanismo que pode excluir. Dominar a linguagem
ritualística e a filosofia do Grau faz com que alguns se destaquem, enquanto
outros ficam na margem. Isso, segundo ele, é uma violência simbólica, um
controle que parece natural, mas que reforça as diferenças de posição.
"No entanto, há uma esperança! Quando o
ritual fala em acolhida, em fraternidade e em ajudar os 'irmãos
fragmentados', surge uma força de resistência. É uma forma de questionar
essa lógica de distinção, sem precisar abandonar a Ordem."
3. Foucault, O Olho
e o Cuidado de Si
De Vigilância a Caminho de
Aperfeiçoamento Pessoal
Foucault fecha a primeira rodada, unindo a
crítica à prática:
"Ambos acertam ao mostrar as estruturas
que podem nos prender. Eu vejo no Olho que Tudo Vê o mecanismo da vigilância.
O Mestre Secreto é ensinado a vigiar a si mesmo, a internalizar regras.
Isso pode levar ao aperfeiçoamento, mas também pode gerar culpa e
submissão."
Ele propõe uma leitura dupla dos símbolos do
Grau:
- O
Silêncio: Não é só para recolhimento, pode ser
um ato de resistência. Ficar em silêncio é uma maneira de não
repetir o que é imposto, abrindo espaço para o pensamento próprio.
- A
Chave: Conhecimento é poder, sim. Mas esse
poder não serve só para reprimir. O Maçom pode usar a chave não para
trancar mistérios, mas para abrir caminhos de acolhida e cuidado.
"O verdadeiro Cuidado de Si,
irmãos, está ligado ao cuidado do outro. Acolher o irmão que está em
dificuldades é a ética essencial deste Grau."
O Diálogo se Entrelaça
Os três pensadores misturam suas ideias para
um desfecho:
- Deleuze insiste:
“Não procurem o que o Grau é, criem o que ele pode ser!”
- Bourdieu contrapõe:
“Lembrem-se que a Loja tem uma estrutura, e que seu prestígio e
posição são importantes.”
- Foucault completa:
“Toda prática na Maçonaria é uma prática de poder e de saber. Usem o segredo
para moldar quem vocês querem ser, e não apenas para guardar o que
já existe.”
Conclusão: O Mestre Secreto, um Viajante
O encontro termina não com uma resposta
única, mas com a abertura de novos caminhos de reflexão:
1.
Para
Deleuze: Viva o Grau 4 como uma multiplicidade de
ideias, e não como algo rígido.
2.
Para
Bourdieu: Reconheça as hierarquias de prestígio
(o capital simbólico) e use a fraternidade para resistir ao saber
exclusivo.
3.
Para
Foucault: Transforme a vigilância interna em liberdade pessoal, o silêncio
em resistência e a chave em acolhida.
Assim, o Grau 4 transcende a ideia de
ser apenas mais um degrau. Ele se torna um espaço vivo de reflexão crítica,
equilibrando o desejo e a disciplina, a distinção e a fraternidade,
o poder e o cuidado.
O Mestre Secreto, neste diálogo, não é
apenas um guardião de um templo estático, mas um viajante de fluxos, um intérprete
de símbolos e, acima de tudo, um criador de espaços de acolhida para
todos os seus Irmãos.

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