O Diálogo dos Mestres: Kant e Nietzsche sobre o Grau 7 do REAA

Entre a Razão e a Superação

Por Hiran de Melo

No silêncio do Templo, dois mestres maçons — Kant e Nietzsche — encontram-se para meditar sobre o significado do Grau 7 – Preboste e Juiz. Suas vozes não são apenas palavras, mas ecos de filosofias distintas que se cruzam diante dos símbolos da balança, da espada e do livro da lei. O diálogo que se segue é uma síntese entre razão e superação, entre dever e criação de valores.

O Encontro

Kant:
Irmão Nietzsche, ao contemplar o Grau 7, percebo nele a mais clara expressão da lei moral interior. O Preboste e Juiz não julga os outros, mas a si mesmo, guiado pelo imperativo categórico. A balança, a espada e o livro da lei são símbolos que nos recordam que a verdadeira justiça nasce da razão prática e do dever.

Nietzsche:
Ah, Kant, sempre tão fiel ao dever. Mas eu vejo neste grau algo além da obediência a uma lei universal. O Juiz maçônico é chamado a superar os valores herdados, a criar novos sentidos para sua vida. Julgar a si mesmo não é apenas aplicar uma regra racional, mas transvalorar os valores, libertar-se da moral do ressentimento e tornar-se senhor de si.

Justiça e Misericórdia

Kant:
Mas não podemos esquecer que a justiça, para ser verdadeira, deve andar com a misericórdia. O Juiz não é um tirano, mas um servidor. Ele age como se sua conduta pudesse ser lei para todos, respeitando a dignidade humana. Esse é o caminho da equidade.

Nietzsche:
Concordo que o Juiz não deve ser tirano, mas não por submissão a uma lei externa. Ele deve ser forte o bastante para dizer “sim” e “não” a partir de si mesmo. A misericórdia, quando autêntica, não nasce da obrigação, mas da força interior que não precisa humilhar o outro. O Juiz superior educa, inspira, cria — não pune por vingança.

O Livro da Lei

Kant:
O Livro da Lei, símbolo central do Grau, é para mim a metáfora da lei moral universal, escrita na razão de cada ser humano. Ele nos lembra que o dever não depende de recompensas ou castigos, mas da consciência reta.

Nietzsche:
E eu o leio de outra forma: o Livro da Lei é o desafio de escrevermos nosso próprio livro. Não basta seguir normas herdadas; o iniciado deve criar sua própria verdade, sua própria vida com sentido. O Juiz é um legislador de si mesmo, como Zaratustra que ensina: “Torna-te quem tu és”.

O Juiz de Si Mesmo

Kant:
Ser Juiz de si mesmo é o ápice da maturidade moral. É agir com retidão mesmo no silêncio, mesmo na dúvida, mesmo na solidão. O Grau 7 nos convida a esse tribunal interior, onde a razão é a guia.

Nietzsche:
E eu digo: ser Juiz de si mesmo é o primeiro passo para o além-do-homem. É libertar-se das máscaras, das culpas herdadas, e transformar-se em criador de novos valores. O Juiz não se contenta em repetir; ele se reinventa, ele se supera.

Conclusão

Kant:
Então, irmão Nietzsche, podemos dizer que o Grau 7 é um chamado à responsabilidade ética, ao dever e à justiça temperada pela misericórdia.

Nietzsche:
E eu acrescento: é também um chamado à liberdade criadora, à superação de si, à coragem de escrever a própria lei.

Por fim:

O Preboste e Juiz não é um cargo de poder, mas um posto de serviço. Julgar a si mesmo é o caminho para a verdadeira luz — seja pela razão, seja pela superação.

Assim, o diálogo entre Kant e Nietzsche mostra que o Grau 7 do REAA é um espaço onde se encontram duas dimensões complementares: a ética universal da razão e a liberdade criadora do espírito. O maçom que trilha este grau torna-se juiz de si mesmo, equilibrando dever e superação, justiça e misericórdia, razão e força interior.

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