Beija-Flor: Uma interpretação possível
O encanto
de existir sem se demorar
Por Hiran de Melo
Beija-Flor
Lá na minha
varanda
Canta doce
Um beija-flor
Celebrando a vida
Tão bela
Com um canto
Um canto
De amor
Canta suave
Sereno, ligeiro
Anunciando a breve
Existência da
flor.
Cecília Nóbrega
13/03/2025
Há
uma delicadeza muito própria no olhar de Cecília Nóbrega. Em Beija-Flor,
a poetisa encontra na varanda, no canto de um pequeno pássaro e na presença de
uma flor motivos para celebrar a existência. Sua poesia nasce da simplicidade,
mas alcança questões que nos acompanham ao longo da vida.
“Lá na minha varanda” revela
um espaço de intimidade, onde o mundo exterior encontra a sensibilidade de quem
o contempla. Cecília não precisa buscar longe aquilo que merece admiração.
Basta acolher o instante e permitir que ele desperte emoções que, na pressa
cotidiana, tantas vezes permanecem adormecidas.
O
beija-flor, com seu canto doce, suave e ligeiro, parece traduzir uma maneira de
existir que não exige explicações. A repetição da palavra “canto” reforça a
musicalidade dos versos e prolonga o encantamento da poetisa diante daquela
pequena manifestação da vida.
É
na referência à “breve
existência da flor” que o poema ganha profundidade existencial. A beleza
não deixa de existir porque é passageira. Ao contrário, a consciência de sua
brevidade pode tornar nosso olhar mais atento e nossa experiência mais
significativa.
Também
nós atravessamos o tempo, despertamos afetos e deixamos marcas, sem poder
assegurar a permanência de nossos encontros. Ainda assim, não precisamos vencer
a finitude para encontrar sentido na existência. Precisamos aprender a
reconhecer o valor daquilo que vivemos enquanto está ao nosso alcance.
A
voz de Cecília não se entrega à tristeza da passagem. Seu poema prefere o
encantamento à lamentação. O beija-flor canta, a flor floresce e a vida se
manifesta sem pedir licença à nossa vontade de eternidade. Há, nessa
simplicidade, uma sabedoria silenciosa: a beleza
não precisa durar para sempre para merecer ser vivida plenamente.
Talvez
a poesia comece justamente quando suspendemos a pressa e nos deixamos tocar
pelo que parecia insignificante. Um beija-flor canta na varanda, uma flor
anuncia sua breve existência e Cecília transforma esse encontro em reflexão
sobre nossa própria condição.
Afinal,
viver também é isso: acolher o que chega, amar sem possuir e compreender que a
brevidade não anula o valor da experiência.
Há momentos que não vieram para ficar, mas para nos ensinar a
sentir. E, quando sabemos acolhê-los, sua
passagem não termina inteiramente: alguma coisa deles continua florescendo
dentro de nós.
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