Os Padrinhos da Rua e o Sangue da Terra
Por Hiran de Melo
Na
memória das cidades, alguns nomes permanecem nos livros de história; outros
sobrevivem no chão das ruas, nas calçadas e na lembrança daqueles que
aprenderam a caminhar com dignidade. Falar do 2 de Julho sem recordar Seu Miro,
o sapateiro da rua, seria contar a história da Bahia esquecendo aqueles que
ajudaram a colocá-la de pé.
Meu
pai tinha a pele clara e os olhos da cor do céu pela manhã. Mas a sabedoria dos
homens não se mede pela aparência. Quando chegou o momento de escolher quem me
acompanharia como padrinho e madrinha no batismo da Igreja Católica Apostólica
Romana, ele não procurou os casarões da ladeira nem os sobrenomes respeitados
da cidade. Olhou para a simplicidade de uma bancada de trabalho, onde couro,
graxa e suor se transformavam em sustento e dignidade.
Escolheu
Seu Miro e Dona Zefinha, mãe de Santa.
Na
pia batismal, nasceu mais do que um compromisso religioso. Firmou-se um laço de
afeto, respeito e pertencimento: o compadrio, essa ponte invisível que aproxima
pessoas para além das diferenças sociais e das aparências. Minha pele clara
conta uma parte da minha história; meus vínculos afetivos revelam outra, feita
da mistura de gente, culturas e experiências que constituem o Brasil.
Tenho
a pele clara, sim, mas o coração não reconhece fronteiras de cor. O sangue que
o mantém vivo não pede licença para circular, assim como o amor verdadeiro não
deveria precisar de autorização para atravessar as barreiras do preconceito.
Dizem
que o verde, o amarelo, o azul e o branco da bandeira representam nossas
riquezas, nosso céu e nossos ideais. Mas, na minha maneira de enxergar o país,
falta àquela pintura, o chão sobre o qual a história foi construída. Falta
reconhecer o negro do trabalho, da resistência e da fé; falta o vermelho do
sangue derramado, da coragem e da paixão popular.
Porque
o Brasil não nasceu apenas dos decretos assinados nos salões do poder. Foi
também construído pelas mãos de homens e mulheres que carregaram pedras,
lavaram roupas, cultivaram a terra, criaram filhos e enfrentaram a opressão. Na
Bahia, durante as lutas pela consolidação da Independência, em 2 de Julho de
1823, gente simples, de diferentes origens e tonalidades, participou de uma
história que não cabe nos retratos dos grandes personagens. O povo também fez a
Independência.
Seu
Miro, com suas mãos calejadas, era herdeiro dessa dignidade. Cada sapato
remendado levava consigo a sabedoria de quem conhece o valor do trabalho e sabe
que, muitas vezes, são os mais humildes que sustentam o mundo sem receber o
devido reconhecimento. Dona Zefinha representava a força silenciosa de tantas
mulheres que mantêm famílias, alimentam esperanças e preservam os laços que nos
impedem de esquecer quem somos.
Ter
Seu Miro e Dona Zefinha como padrinhos foi receber uma espécie de nobreza que
não depende de títulos, posses ou sobrenomes. Uma nobreza que se revela no
caráter, na generosidade e na capacidade de reconhecer a humanidade do outro.
Talvez
seja essa a verdadeira lição que meu pai deixou ao fazer aquela escolha: a
dignidade não mora necessariamente nos andares mais altos da sociedade. Muitas
vezes, ela se senta numa pequena oficina, entre ferramentas gastas e sapatos
usados, ensinando, sem discursos, o que significa ser gente.
Hoje,
quando recordo meus padrinhos, compreendo que nossa identidade não está apenas
na cor da pele, nos documentos ou nos símbolos oficiais. Está também nas mãos
que nos ampararam, nos afetos que nos acolheram e nas pessoas que nos ensinaram
a caminhar.
Afinal,
a grandeza de um homem não está em saber de onde veio o sangue que corre em
suas veias, mas em compreender que nenhum ser humano deveria ser diminuído pela
cor da própria pele.
Seu
Miro e Dona Zefinha fazem parte da minha história. E,
por meio deles, aprendi que o sangue da terra brasileira é feito de muitas
cores, mas só encontra sua verdadeira grandeza quando pulsa no mesmo compasso
da fraternidade.

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